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Entre agroboys e girls no interior do Maranhão, celebridade digital é gay

Francisco Garcia Balsas - Arquivo Pessoal
Francisco Garcia Balsas Imagem: Arquivo Pessoal
Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista do UOL

24/10/2020 04h00

No sul do Maranhão, próxima às cachoeiras espetaculares da Chapada das Mesas, fica uma cidade curiosa. Em Balsas, tudo parece exagerado, da pobreza de suas periferias à ostentação dos herdeiros do agronegócio, com seus jet-skis e enormes caminhonetes. Seus meninos são agroboys, suas meninas se vestem com grifes de shopping. A cidade é uma combinação da tradição nordestina com a vibração produzida por novos ricos conservadores. Uma mistura, aparentemente, avessa a homossexuais. Como vive uma pessoa assumidamente gay em uma cidade como essa? Fui conversar com Francisco Garcia sobre o assunto. Aos 28 anos, ele é o garoto-propaganda mais disputado pelas empresas da cidade, uma celebridade digital, com mais de 300 mil seguidores no Instagram, o triplo dos habitantes de Balsas.

Você deve ser o maior influencer da cidade e sua opinião é respeitada por muita gente. Ser gay nunca afetou negativamente sua popularidade?

Eu aceitei minha homossexualidade em 2014, quando já era conhecido pelo meu trabalho como apresentador de TV. Não dizia que era gay de forma aberta em público, mas também não negava e imagino que as pessoas que me seguiam nas redes sociais desconfiavam porque eu postava fotos de meu namorado com frequência. Em 2018, eu fui diagnosticado como soropositivo e decidi compartilhar a notícia com meus seguidores. Eram 50 mil à época. Foi a partir disso que eu me tornei um ativista social, a favor da superação e contra o preconceito.

Você está falando do seu projeto Limão, uma Limonada, de palestras de esclarecimento sobre o HIV?

Sim, quis usar da minha influência para falar da doença. Então, decidi contar para os meus seguidores o que estava acontecendo comigo e criei um projeto de palestras gratuitas sobre superação e preconceito para quem vive com HIV. Adesivei meu Siena 2011 com frases de superação e caí na estrada. Meu objetivo era rodar 1.200 km, de Balsas até Patos, na Paraíba, onde nasci. Aí, fui convidado para falar do projeto no programa da Fátima Bernardes. Depois disso, fiquei conhecido e o projeto chegou a 12 estados. Foram mais de mil palestras, o que me deixa muito realizado, porque eu sinto que posso salvar vidas ao levar informação aos jovens. Eles sabem muito pouco sobre o vírus. Desconhecem métodos de prevenção, além da camisinha, não sabem nada sobre tratamento. São como eu mesmo era quando recebi o resultado dos meus exames de saúde, achei que minha vida estava acabada. Hoje, estou com a carga viral zerada e convivo com meu namorado, que não tem HIV.

Como foi sua vida até se aceitar como uma pessoa gay?

Eu sou o caçula de uma família de seis irmãos. Tive uma infância tranquila, de interior, mas passei por uma fase difícil na adolescência porque resisti bastante, me forçava a sair com mulheres, tinha medo de aceitar a homossexualidade. Um dos meus irmãos assumiu muito cedo para a família que era gay. Acho que fiquei com o fardo de quem não podia ser mais um, de que seria uma decepção a mais para meu pai e minha mãe. Também tinha medo de passar pela experiência do meu irmão, que sofreu muito preconceito, inclusive dos irmãos. Eu mesmo cheguei a rejeitá-lo, a rir dele.

Como é sua relação com seu irmão hoje?

Depois que eu fiquei sabendo quem realmente eu sou, que não precisei mais usar máscaras, meu irmão foi a pessoa que mais me entendeu. Ele mora comigo, hoje. Somos praticamente melhores amigos.

Você fala bastante de sua mãe, no Instagram...

Quando falo da minha mãe, sempre me emociono, ela é uma prova de que o amor supera tudo. Mesmo se decepcionando comigo, não me entendendo, ela soube me dar amor. Minha mãe é muito católica, mas em vez de me recriminar, prezou o amor incondicional. Com meu pai, foi bem complicado, ele não era religioso, se preocupava com o que os amigos iam falar. Achava que a culpa de ter dois filhos gays era dele, esse tipo de coisa. Hoje, ele respeita. Não sei se aceita, mas respeita.

Mesmo com as dificuldades na família, parece que sua homossexualidade foi bem aceita.

Não sou ingênuo, conheço a realidade dos meninos que são colocados para fora de casa quando revelam sua condição para a família. Sei de muitos que ficam perdidos, não têm como pagar o aluguel. Tenho privilégios que pessoas que vivem em periferias não têm. Essas pessoas, com certeza, sofrem mais. Eu pude segurar a barra quando já tinha preparo emocional e financeiro. Já era independente.

Você acha que sua vida seria muito diferente sem as redes sociais?

As redes sociais proporcionaram coisas muito legais. Antes delas, eu já era uma figura pública por causa do meu trabalho como repórter e apresentador de emissoras de TV locais. Mas as redes, principalmente o Instagram, deram visibilidade para o meu projeto, abriram portas que eu jamais imaginava, possibilitaram que eu ajudasse meus pais e pessoas que foram expulsas de casa. Graças a parcerias, consegui doar duas casas para jovens que estavam em conflito com a família...

Soube que você era muito conhecido na cidade, desde menino, porque vendia redes na porta da agência de um banco e era muito brincalhão com os clientes. O humor é o segredo do seu sucesso?

Uso muito humor, sim. Gravo com minha mãe, com os cachorros, que considero como filhos, mostro muito a relação com meu namorado. Falo do meu dia a dia com naturalidade, acho que as pessoas se identificam e se divertem. Elas percebem que é possível um casal gay viver tranquilamente em uma cidade do interior, ter uma casa, uma vida estável, uma família.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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