PUBLICIDADE

Topo

Blog Nós

Vai mudar de cidade? Agradeça ao feminismo e não ao marido

Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL
Brenda Fucuta

Brenda Fucuta é jornalista, escritora e consultora de conteúdo. Autora do livro "Hipnotizados: o que os nossos filhos fazem na internet e o que a internet faz com eles", escreve sobre novas famílias, envelhecimento, identidade de gênero e direitos humanos. Além de entrevistar pessoas incríveis.

Colunista do UOL

17/10/2020 04h00

Você imagina um mundo em que os homens podem decidir onde morar, mas as mulheres, não? Que, para trabalhar ou para receber uma herança, as mulheres precisam da autorização do marido? Que, ao se separarem, deixam de ter a guarda dos filhos? Não estou falando de Gilead, o país do futuro assustador que a escritora canadense Margaret Atwood imaginou no livro "O Conto da Aia" (que virou o seriado "Handmaid's Tale"). Falo do passado brasileiro, um passado bem recente.

Quando nasci, em 1962, fazia apenas oito meses que as mulheres tinham sido promovidas pela lei. Deixavam de ser consideradas incapazes, como crianças, e se transformavam em auxiliares do marido na chefia do casamento. Parece ridículo, mas o texto "o marido é o chefe da sociedade conjugal, função que exerce com a colaboração de mulher, no interesse comum do casal e dos filhos", registrado no Estatuto da Mulher Casada, de janeiro de 1962, foi considerado uma baita conquista feminista.

Porque, até então, o que vigorava era muito pior. Só depois do estatuto, as mulheres ganharam o direito de discordar do marido, se ele quisesse levar a família para outra cidade, de trabalhar "fora" sem precisar pedir, de pleitear a guarda dos filhos depois da separação. Apesar de ser contemporânea do estatuto, eu só tive conhecimento da existência dele há pouco tempo, quando li o texto da repórter Mariana Toledo, de Universa, sobre o casamento do ator Fábio Assunção com a advogada Ana Verena. Passei minha vida sem saber que, por um triz, não nasci em uma época em que eu seria considerada uma propriedade do marido. Algo no nível da cômoda, da geladeira e do carro.

Gostaria de ter sabido de tudo isso antes. Não tive aulas de feminismo quando criança, embora eu só estivesse em uma escola porque mulheres batalharam pelo direito ao conhecimento, independentemente do gênero. Minha mãe nunca comentou o Estatuto da Mulher Casada, suspeito que ela mesma não soubesse da existência dele.

Quando a Constituição de 1988 atualizou o papel da mulher, equiparando-o ao do homem nas questões de trabalho e da família, eu já era mãe do meu primeiro filho, mas continuava sem prestar atenção nas conquistas feministas. Ou seja, passei grande parte da minha vida usufruindo de conquistas de outras mulheres sem, nem ao menos, conhecê-las, ignorando o caminho que elas abriram em direção a um mundo mais justo e livre para mim, meus filhos, sobrinhos e sobrinhas.

Hoje, vejo minhas sobrinhas em direção à autonomia financeira. Elas se sentem donas do seu destino —e, de fato, são livres nas escolhas de vida que fazem. Elas, seus irmãos e primos vivem em um mundo muito melhor para as mulheres do que seus pais e avós viveram. Mas não sabem disso, acham que sempre foi assim. Como eu também achava.

Não é absurdo que a gente, que faz tanta questão de lembrar, reverenciar e comemorar histórias de sacrifício individual pelo bem coletivo —como a de Jesus Cristo, só para citar a mais conhecida delas—, não saiba nem o nome das mulheres que dedicaram suas vidas à melhoria das vidas de outras? Então, se você concorda comigo, anota aí: Romy Martins Medeiros da Fonseca, importante feminista brasileira. Nasceu em 1921, morreu em 2013. Ela foi a advogada que encaminhou os primeiros debates para a modificação do status civil da mulher que culminaria, mais de uma década depois, na aprovação do Estatuto da Mulher Casada. Quem sabe no ano que vem a gente se lembre de comemorar o centenário de Romy?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Blog Nós