PUBLICIDADE

Topo

Andrea Dip

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Eu também fui vítima de violência obstétrica. Roubaram meu parto de mim

Estudos mostram que agressões contra mulheres no parto atinge entre 25% a 36% das brasileiras - Getty Images/iStockphoto
Estudos mostram que agressões contra mulheres no parto atinge entre 25% a 36% das brasileiras Imagem: Getty Images/iStockphoto
Conteúdo exclusivo para assinantes
Andrea Dip

Andrea Dip é diretora na Agência Pública de Jornalismo Investigativo, apresentadora do podcast Pauta Pública e autora do livro "Em Nome de Quem? A Bancada Evangélica e Seu Projeto de Poder". É membro-fundadora da rede Unidas entre mulheres da América Latina, Caribe e Alemanha. Tem 12 prêmios de jornalismo.

Colunista do UOL

07/01/2022 04h00

Quando escrevi pela primeira vez sobre violência obstétrica, em 2013, não sabia que o que vivi no parto quase dez anos antes tinha nome. Comecei a reportagem, sugerida pela editora, supondo que se tratava de algum tipo de violência neste contexto, mas imaginava que fossem casos pontuais, gráficos, específicos.

Mas graças ao jornalismo investigativo, que derruba suposições e achismos, conforme aprofundava as pesquisas e fazia entrevistas, fui me dando conta de que não apenas aquela era uma violência recorrente e muito pouco discutida - sobretudo naquela época - como também se mistura a um momento de extrema vulnerabilidade, desconhecimento e encantamento que é o nascimento de um filho. Quem pare e quem está ali muitas vezes não sabe nomear o que aconteceu. Fui me dando conta de que aquilo tinha acontecido comigo.

Lembro que ouvindo relatos de outras mulheres, profissionais da saúde, parteiras, revisitei em choque minha própria dor. Eu tinha "apagado" os piores momentos.

Muitas vezes eu duvidava das minhas percepções: "será que entendi direito? Será que deveria me sentir assim? Será que é assim mesmo? O que importa é que meu filho nasceu com saúde".

Me deixaram por horas com a bolsa rompida e a roupa encharcada sentada em uma cadeira de plástico na recepção do hospital em um dia frio. Diziam que não tinha vaga, gritaram comigo.

Em uma pequena sala, um médico com seus alunos me examinaram sem ao menos me consultar ou avisar. Tive meu filho em um ambiente tenso, violento, aconteceram muitas coisas durante o processo, e eu conto elas em detalhes na reportagem, cujo título é uma frase muito ouvida por parturientes que gritam de dor: "Na hora de fazer não gritou".

Mas o que me deixou mais devastada nesse mergulho foi entender que haviam roubado meu parto de mim.

Acho que essa é a descrição mais precisa do que senti quando compreendi que havia sofrido violência obstétrica: roubaram meu parto de mim. Poderia e deveria ter sido diferente.

Nos últimos dias a violência obstétrica voltou à pauta principalmente por causa do caso da influenciadora Shantal Verdelho, que denunciou o ginecologista e obstetra Renato Kalil, responsável pelo parto de sua filha ocorrido no fim de 2021.

Desde então, outras mulheres também passaram a contar suas próprias histórias. E isso é muito importante porque a violência obstétrica ainda é bastante silenciosa e silenciada no país.

O termo, por definição, refere-se a "toda conduta ou omissão realizada pela equipe de saúde, de maneira direta ou indireta, no âmbito público ou privado, caracterizado pela 'apropriação do corpo da mulher e dos processos reprodutivos pelo profissional de saúde expressa por um atendimento desumanizado, abuso de medicalização e patologização dos processos naturais, resultando em perda de autonomia e a capacidade de decidir livremente sobre o seu corpo e a sua sexualidade, afetando negativamente sua qualidade de vida".

É pior para mulheres negras, pobres, grávidas do primeiro filho, adolescentes e que entram em trabalho de parto, como mostra essa matéria da Pública.

No Brasil, há apenas três pesquisas sobre o tema, todas antigas e com bases e amostras diferentes. O levantamento da Fundação Perseu Abramo, realizado em 2010, aponta que uma em cada quatro mulheres sofre violência obstétrica.

Já o estudo "Nascer no Brasil", realizado em 2012 e considerado a mais abrangente pesquisa sobre o tema, indica que 45% das gestantes atendidas pelo SUS no parto são vítimas de maus-tratos.

No total, 36% das mães passam por tratamento inadequado. E, apesar de todas as pessoas gestantes (incluindo homens transexuais) estarem sujeitas a maus-tratos, há um grupo de risco. São as negras, pobres, grávidas do primeiro filho, adolescentes e que entram em trabalho de parto. E, por fim, há a Corte de Pelotas, que fez um estudo de 4.000 mulheres que deram à luz de 1º de janeiro a 31 de dezembro de 2015 na cidade do interior do Rio Grande do Sul: 18,5% relataram ter sofrido algum tipo de violência obstétrica.

Além disso, existe uma ofensiva por parte deste governo, não contra a violência obstétrica em si mas contra ações e medidas que a combatam, segundo Ana Lucia Dias, mãe, advogada, membra da Rehuna e Rede Feminista de Juristas: "De 2013 a 2017, tivemos muitos avanços na proteção da mulher contra a violência obstétrica, desde reconhecimento da existência dessa violência à capacitação de profissionais para que ela não ocorra mais. No entanto, desde 2018, a todo tempo surgem legislações, portarias e medidas que buscam suprimir os direitos da mulher nesse momento de vulnerabilidade. Acontece que a violência obstétrica é uma violação dos direitos humanos das mulheres, por isso persistir no trabalho para sua redução e lutar contra esses retrocessos é medida eficaz de proteção às mulheres".

Em maio de 2019, por exemplo, um despacho do Ministério da Saúde de Bolsonaro tentou banir o termo "violência obstétrica" por afirmar que não havia consenso sobre o conceito e, segundo o relator do documento emitido pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), Ademar Carlos Augusto, haveria uma "proliferação de leis" sobre violência obstétrica no país e um movimento orquestrado para responsabilizar apenas os médicos pelo que ele chama de "situação caótica" do atendimento às gestantes. Para ele, essa posição é ideológica e importada de países com "viés socialista", aponta matéria do Justificando.

Após reiteradas manifestações de repúdio, o ministério voltou atrás na decisão.

Nomear a violência obstétrica, denunciar, não deixar o assunto desaparecer, cobrar dados, é essencial para prevenir situações como a que Shantal viveu, como a que eu vivi e como a que milhares de pessoas com útero vivem todos os dias no Brasil.

Se eu tivesse essas informações antes do parto, muitas coisas teriam sido diferentes. Nomear também é importante para elaborar a dor, encontrar eco em outras vozes e assim nos fortalecermos. Violência obstétrica existe, esse é o nome, é uma violação de direitos humanos e deve ser denunciada. Espalhem por aí.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL