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Andrea Dip

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Que em 2022, um ano decisivo e de eleições, a gente seja 'indomesticável'

Ponomariova_Maria/Getty Images/iStockphoto
Imagem: Ponomariova_Maria/Getty Images/iStockphoto
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Andrea Dip

Andrea Dip é diretora na Agência Pública de Jornalismo Investigativo, apresentadora do podcast Pauta Pública e autora do livro "Em Nome de Quem? A Bancada Evangélica e Seu Projeto de Poder". É membro-fundadora da rede Unidas entre mulheres da América Latina, Caribe e Alemanha. Tem 12 prêmios de jornalismo.

Colunista de Universa

31/12/2021 04h00

Alguns dias atrás, eu li um tuíte que celebrava o jornalismo "indomesticável" feito por alguns veículos de mídia independente no Brasil este ano que, mesmo sob violência física e verbal por parte do presidente Bolsonaro, sua equipe, família e seguidores, mesmo sob difamação, ataques de ódio e campanhas de desinformação e descredibilização, continuam fazendo seu trabalho como podem.

Sem entrar na análise "falhas e acertos do jornalismo nacional" (sempre uma armadilha perigosa e/ou uma egotrip chatíssima), fiquei pensando sobre essa palavra em especial: "indomesticável", e sobre como, na reta final de um governo autoritário, extremista religioso, violento, negacionista científico e climático, irresponsável na condução de uma pandemia que matou mais de 600 mil pessoas e muito eficiente no desmantelamento do Estado, da Amazônia e de políticas públicas; sob a terrível crise financeira que nos assola e tem feito com que pessoas disputem ossos de animais para matar a fome (dezenove milhões de brasileiros acordam atualmente sem saber se vão conseguir alguma refeição para o dia), sobreviver tem sido um ato de luta, sorte e privilégio. Sobreviver. Apenas acordar no dia seguinte.

Me lembro sempre de um texto escrito pela Eliane Brum ao (infelizmente extinto) El País Brasil, em que ela dizia: "Estamos exaustos e correndo. Exaustos e correndo. Exaustos e correndo. E a má notícia é que continuaremos exaustos e correndo, porque exaustos-e-correndo virou a condição humana dessa época. E já percebemos que essa condição humana um corpo humano não aguenta. O corpo então virou um atrapalho, um apêndice incômodo, um não-dá-conta que adoece, fica ansioso, deprime, entra em pânico. E assim dopamos esse corpo falho que se contorce ao ser submetido a uma velocidade não humana. Viramos exaustos-e-correndo-e-dopados". Quando a jornalista escreveu isso, em 2016, certamente não previa o quanto tudo isso iria se agravar.

Como você está?
Estou viva.
Já é muita coisa.

Quantas vezes você teve um diálogo parecido com esse em 2021?

Mas ser "indomesticável'', sobretudo para nós mulheres, corpos e sexualidades dissidentes, vai além de sobreviver e do orgulho em permanecer de pé a cada golpe. Porque a violência que nos atravessa, além dessas citadas - que inclusive nos atravessam mais - também tem a ver com a tentativa constante de submissão, silenciamento, docilização, adestramento e domesticação dos nossos corpos.

Muitas autoras e autores têm falado sobre isso ao longo dos anos e provavelmente o mais conhecido é Michel Foucault, que no livro "Vigiar e Punir" escreve que "é dócil um corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado" e reflete entre outras coisas sobre o uso disso como estratégia de dominação política.
Poucas vezes na história recente do Brasil pudemos assistir a essa investida contra nossos corpos de maneira tão clara, crua e assertiva. Quem acompanha a coluna sabe disso.

As investidas antigênero e o avanço das pautas ultraconservadoras no Brasil encabeçadas principalmente pelo Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos alinhado ao Ministério das Relações Exteriores, o Ministério da Saúde e Ministério da Educação de Bolsonaro têm sido objeto de estudo e alerta por parte de pesquisadores e o país tem se colocado na liderança do ultraconservadorismo no mundo. Novamente, quem acompanha a coluna de Jamil Chade sabe disso.

Para dar apenas um exemplo, o relatório "Ofensivas antigênero no Brasil" realizado em parceria por diversas organizações de direitos humanos, publicado este ano e submetido ao Mandato do Perito Independente das Nações Unidas sobre Orientação Sexual e Identidade de Gênero e Direitos Humanos, fez um levantamento das principais ações deste governo e observa que "O conjunto de políticas do MMFDH, implementadas nos últimos dois anos, sejam elas mais ou menos robustas, deve ser lido contra o pano de fundo deste deslocamento ideológico.

No que diz respeito especificamente à arquitetura ministerial, [...] é notável que a Diretoria de Promoção dos Direitos LGBT+ tenha sido mantida, embora o Conselho Nacional contra Discriminação LGBT+, que assegura a participação da sociedade civil na concepção de políticas, tenha sido desfeito e agora totalmente reformulado.

Na lista de políticas que podem ser descritas como débeis, pois não contam com estrutura e recursos substantivos, contabilizam-se o lançamento de uma diretriz política voltada para a promoção da abstinência sexual dos jovens como estratégia de prevenção da gravidez na adolescência e o incentivo à criação e participação nos chamados 'Movimentos de ExGays'. Já no âmbito de políticas robustas, a espinha dorsal da ação ministerial é hoje o 'fortalecimento da família'".

E a família defendida por este governo, vale sempre lembrar, é um modelo muito específico (e não condizente com a realidade do país, segundo o IBGE): heteronormativo, composto por uma mulher cisgênero, um homem cisgênero e filhos. Todo o resto segundo essa lógica, deve "ser aniquilado".

Por isso quando bati o olho nessa definição, de um "jornalismo indomesticável", escrevi meus votos para 2022. Desejo que nesse ano que começa, decisivo, com eleições, possibilidades de novos começos e novos governos, sobretudo nós mulheres e corpos dissidentes, para além da sobrevivência, sejamos bravas, ingovernáveis, insubmissas e indomesticáveis.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL