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Andrea Dip

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

COP-26: a ativista indígena Txai Suruí nos representa; Bolsonaro, não

A estudante de direito Txai Suruí discursou na abertura da Cúpula dos Líderes Mundiais na COP-26 em Glasgow, na Escócia - Divulgação
A estudante de direito Txai Suruí discursou na abertura da Cúpula dos Líderes Mundiais na COP-26 em Glasgow, na Escócia Imagem: Divulgação
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Andrea Dip

Andrea Dip é diretora na Agência Pública de Jornalismo Investigativo, apresentadora do podcast Pauta Pública e autora do livro "Em Nome de Quem? A Bancada Evangélica e Seu Projeto de Poder". É membro-fundadora da rede Unidas entre mulheres da América Latina, Caribe e Alemanha. Tem 12 prêmios de jornalismo.

Colunista do UOL

12/11/2021 04h00

O Brasil recebeu o antiprêmio de "Fóssil do Dia" durante a COP-26 em Glasgow, na Escócia, por conta das críticas do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) à ativista indígena Txai Suruí, de 24 anos, primeira brasileira a fazer um discurso na abertura da conferência. Em sua fala, Txai — que é filha do cacique Almir Suruí e de Neidinha Suruí — chamou a atenção do mundo para a grande crise climática que estamos vivendo. Lembrou que "os povos indígenas estão na linha de frente da emergência climática" e, por isso, deveriam estar no centro das decisões que acontecem no evento. Também enfatizou que é preciso tomar outro caminho, com mudanças corajosas e globais neste momento: "Não é em 2030 ou em 2050. É agora!".

Quando desceu do palco, Txai sofreu uma tentativa de intimidação por um oficial do governo brasileiro, que lhe disse para "não falar mal do Brasil" e mostrou suas credenciais. Depois foi a vez de Bolsonaro esbravejar aos seguidores em frente ao Palácio da Alvorada: "Estão reclamando que eu não fui para Glasgow. Levaram uma índia para lá, para substituir o [cacique] Raoni, para atacar o Brasil" reclamou. "Alguém viu algum alemão atacando a energia fóssil da Venezuela? Alguém já viu atacando a França porque lá a legislação ambiental não é nada perto da nossa? Ninguém critica o próprio país. Alguém já viu americano criticando as queimadas lá no estado da Califórnia? Não. É só aqui, pô".

Desde 1999, a Rede de Ação do Clima (CAN, em inglês) elege diariamente, durante a conferência, os países que se esforçaram para atrapalhar as negociações do dia ou passar vergonha diante dos olhos do mundo (algo que temos feito bastante ultimamente). No último dia 5, foi a vez de o Brasil levar o 1º lugar no antiprêmio.

Anna Beatriz Anjos, repórter enviada pela Agência Pública para cobrir a COP-26, contou à coluna que tanto o assédio do oficial brasileiro quanto as declarações infelizes de Bolsonaro repercutiram muito na COP e em todo o mundo: "No dia 5 o Brasil ficou em primeiro lugar — são sempre dois ou mais países. Essas coisas aqui repercutem muito e a sociedade civil condenou fortemente os episódios. A Txai teve muita visibilidade, saiu em toda a imprensa internacional". Mais uma vez, os olhos do mundo se voltaram ao Brasil e não gostaram do que viram. Imagino que, se Angela Merkel, primeira-ministra da Alemanha, estivesse presente, diria a Bolsonaro: "Só podia ser você".

Em entrevista ao "El País", Txai disse que as declarações de Bolsonaro impulsionaram um levante de ódio contra ela nas redes sociais. "Estou sofrendo as consequências da declaração de Bolsonaro", declarou.

Mais uma vez, Bolsonaro legitima a violência contra mulheres e contra indígenas, que nesse caso se unem de forma potente na figura de Txai Suruí. É o que seu governo tem feito desde a eleição: perseguido mulheres, ativistas, professores, jornalistas e inflamado o ódio de seus seguidores no sentido de fazer o que promete desde a campanha: tentar passar por cima dos defensores de direitos humanos.

Governo x sociedade civil

Anna Beatriz disse ainda que a disparidade de ideias fica mais nítida pelo fato de o Brasil ser o único país com dois estandes na COP: um representando o governo e outro representando a sociedade civil. "O governo bloqueou os observadores da sociedade civil de participarem da delegação brasileira desde a última COP, então a sociedade organizou outro espaço. É o único país que tem dois estandes. E é bem evidente a diferença entre os dois espaços", conta.

No estande oficial é um público bem homogêneo que fala: membros do governo, do Ministério do Meio Ambiente, do Itamaraty e das confederações que patrocinam o estande. A grande maioria homens brancos. No estande da sociedade civil brasileira tem muito mais diversidade. Anna Beatriz Anjos

Segundo ela, todas as mesas incluem ao menos uma pessoa de comunidades tradicionais, indígenas, pessoas que vivem em contextos periféricos, além de cientistas, pesquisadores e empresários. "É um ambiente em que se observa muito mais equidade de gênero do que no estande do governo brasileiro", afirma.

Anna acredita que essa disparidade é o reflexo do que o governo Bolsonaro faz no Brasil e o quanto a sociedade civil brasileira não se sente representada por ele. "A delegação da APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) que está aqui é a maior da delegação da história, tem mais de 40 pessoas, e está a todo momento organizando atos e manifestações para denunciar o desmonte das políticas indígenas e ambientais do governo Bolsonaro".

Txai Suruí, no entanto, não se deixou intimidar. Em entrevistas recentes, disse que os ataques que têm sofrido só levam sua mensagem para mais longe: "Estão fazendo minha voz ecoar cada vez mais". O recado da sociedade civil brasileira organizada na COP também deixa claro: Txai nos representa. Bolsonaro não.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL