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Andrea Dip

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O que esperar do 7 de Setembro? Depende de quem é você

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Andrea Dip

Andrea Dip é diretora na Agência Pública de Jornalismo Investigativo, apresentadora do podcast Pauta Pública e autora do livro "Em Nome de Quem? A Bancada Evangélica e Seu Projeto de Poder". É membro-fundadora da rede Unidas entre mulheres da América Latina, Caribe e Alemanha. Tem 12 prêmios de jornalismo.

Colunista de Universa

03/09/2021 04h00

O que esperar das manifestações convocadas para este 7 de Setembro? Depende de quem é você que está lendo esta coluna hoje. Se for o atual presidente da República, você provavelmente está vivendo uma grande fantasia conspiratória com fortes aspirações ditatoriais e esperando por salvação, por um milagre envolvendo sua popularidade em queda, espera garantir que não vá (você ou um de seus quatro filhos envolvidos em grandes lambanças e complicações de todo o tipo) preso ou morto e que sua base de apoio mais radical, composta principalmente por militares, negacionistas de vários tipos, fundamentalistas religiosos, ultraconservadores de extrema-direita e políticos alugados a altos preços, compre sua briga contra as instituições, em especial contra o Supremo Tribunal Federal que é a instituição que tem botado mais freio nos teus delírios.

Se você que me lê é o presidente, provavelmente segue em partes a cartilha da alt-right americana e os conselhos dados por Steve Bannon de se manter barulhento, radicalizar cada vez mais o discurso, dizer e desdizer, soltar falas polêmicas, voltar atrás e ameaçar repetidamente um autogolpe para gerar medo em um país que ainda tem as feridas de uma ditadura militar recente bastante abertas. Evoca a figura de assassinos torturadores e quebra tantos protocolos democráticos que o espetáculo de horror vai virando costume e o espanto dá lugar a um atordoamento e depois a um entorpecimento social —em uma mistura infame de táticas históricas empregadas por ditadores com movimentos bastante específicos, favorecidos pelas disputas de narrativas nas redes sociais.

Se você que lê faz parte da ala de militares apoiadores de Bolsonaro, é fundamentalista religioso, negacionista climático/histórico, ultraconservador de direita ou fã de teorias conspiratórias, provavelmente espera por um milagre até mais do que o próprio presidente e estará nas ruas neste 7 de Setembro contra "tudo isso que tem por aí", contra o Supremo, contra a "censura", talvez vestindo uma camiseta com o rosto de Sérgio Reis e os dizeres "herói da pátria". Afinal, você segurou firme até aqui, defendendo este homem que se prometeu um messias mas que entregou apenas crises sanitárias, econômicas (alô feijão, alô conta de luz), políticas e se envolveu nos mais diversos escândalos de corrupção.

Pode ser também, que você nem saiba muito bem no que acreditar e que tenha sido chamado pelo seu pastor, pelo seu chefe ou líder para prestar apoio público a Bolsonaro no dia 7 e confie muito no julgamento dessas pessoas. Você pode estar pensando que "a hora chegou" e que "tudo vai mudar" porque "o povo" sairá às ruas —apenas não se esqueça que o que garante esse direito por enquanto é a democracia (frágil, mambembe mas ainda assim formalmente instituída democracia).

Mas se você que está lendo (e provavelmente se chegou até aqui há grandes chances) é alguém que entende que esse é um governo com aspirações fascistas, autoritárias, que está desmontando o país peça a peça, cometendo um verdadeiro genocídio de povos tradicionais, de mulheres, de pessoas LGBTQIA+, da população negra, se prefere feijão a rifles, talvez não saiba o que esperar. Talvez você esteja só exausto, atordoado, com medo ou apenas entorpecido. Pode ser que você ainda acredite na democracia e a essa altura provavelmente já decidiu se acredita que viveremos algum golpe (talvez diferente do de 1964) ou que já estamos em um. Seja como for, se algum alarme soa na sua cabeça, acorda, reage, se posiciona. Não dá para ficar em cima do muro porque não existe mais muro. Escolhe teu lado (ou muda de lado) porque a história vai cobrar a gente, sempre cobra.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL