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Andrea Dip

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Não precisamos falar dos tanques de fumaça de Bolsonaro

Tanque da Marinha em Brasília - Marcelo Camargo/Agência Brasil
Tanque da Marinha em Brasília Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil
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Andrea Dip

Andrea Dip é diretora na Agência Pública de Jornalismo Investigativo, apresentadora do podcast Pauta Pública e autora do livro "Em Nome de Quem? A Bancada Evangélica e Seu Projeto de Poder". É membro-fundadora da rede Unidas entre mulheres da América Latina, Caribe e Alemanha. Tem 12 prêmios de jornalismo.

Colunista de Universa

13/08/2021 04h00

Uma "não cobertura" alarmista da nova bravata do presidente da República realizada nesta terça-feira (10), ou ainda a cobertura a partir do fracasso que foi a "tanqueciata", mostra que nós jornalistas estamos finalmente aprendendo a lidar com as estratégias de atordoamento, desinformação e ameaças de Bolsonaro.

Com a popularidade em queda mesmo entre sua base fiel — segundo pesquisa da XP/Ipespe publicada em junho, o governo foi avaliado como "ruim" ou "péssimo" por 38% dos evangélicos por exemplo — o alto número de pedidos de impeachment se acumulando sobre a mesa do presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), a divisão entre os próprios militares e investigações avançando na Justiça, Bolsonaro grita cada vez mais alto pra ninguém ouvir.

É como aquela criança que na décima birra a mãe deixa se jogar no chão até parar ou o conto do menino que mente que sua vila está pegando fogo, os moradores acodem em vão algumas vezes, até que a vila realmente pega fogo, mas ninguém corre para apagar. Bolsonaro segue ameaçando golpes quando o verdadeiro golpe já está em curso há tempos, queimando a democracia por dentro, com investidas constantes contra as instituições e as políticas públicas, pessoas e florestas às cinzas. Florestas e pessoas inclusive estão sendo reduzidas às cinzas de maneira nada metafórica se considerarmos os mais de 560 mil mortos por coronavírus ou nos lembrarmos do Dia do Fogo que tingiu os céus do país de vermelho em 2019, quando produtores rurais atearam fogo à Amazônia sob a certeza da impunidade, em um dos maiores crimes ambientais que o país já viu (e que não foi o último).

Os tanques empoeirados de Bolsonaro não chocam porque, como lembra Natalia Viana em seu recém-lançado e excelente livro "Dano Colateral - A intervenção dos Militares na Segurança Pública", em 2020, já havia no governo 6.157 militares exercendo funções civis na administração federal. O livro de Natalia é, aliás, uma excelente indicação para quem quer entender melhor as relações entre os militares, a segurança pública e a política no Brasil.

Por quase quatro anos, nós jornalistas fizemos exatamente o que Bolsonaro queria: cobrindo suas declarações absurdas, suas ameaças, campanhas pelo retrocesso eleitoral e seus blefes, fomos pautados por ele. Como refletiu o professor Conrado Hübner em seu Twitter nessa quinta-feira (12), o presidente não tem outra escolha ou vocação a não ser barbarizar até o fim. Nos resta pensar como reagir ao invés de simplesmente cair em suas birras.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL