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Ana Paula Xongani

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Recado para Tiago Abravanel: pobre precisa de acesso, não de criatividade

Tiago Abravanel, participante do BBB 22 - Reprodução/Globoplay
Tiago Abravanel, participante do BBB 22 Imagem: Reprodução/Globoplay
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Ana Paula Xongani

Ana Paula Xongani é multiempresária: no Ateliê Xongani, de moda afro-brasileira, e também na empresa que leve o seu nome, de criação de conteúdo. Apresenta o programa Se Essa Roupa Fosse Minha, no GNT, sobre moda consciente. Fala com leveza e responsabilidade sobre temas sempre importantes para que todo mundo junto construa um mundo mais justo e acolhedor para todos, especialmente para as mulheres pretas. Ativismo afetivo, como costuma dizer.

Colunista do UOL

03/02/2022 04h00

Estes dias me perguntaram se eu o acho legal. E sim, acho. E acho também que ele é o típico homem que teve a chance de conhecer o mundo, ter acesso a muitas coisas, construir um repertório incrível em muitas áreas da vida.

Mas o contexto da conversa gostosinha com papo cabeça que quero propor hoje aqui é: o Abravanel deu uma bugada numa conversa com outras duas participantes, a Natália e a Jess. Sim, aquela conversa sobre o tênis, o valor do tênis.

Alertado por elas, ele se tocou que a dimensão de "caro" ou "barato" varia muito de pessoa para pessoa. Me pareceu, até, um pouco surpreso que R$ 150 reais pode ser caro para uma pessoa. Bora lembrar aqui que, para quem eventualmente ganha um salário mínimo, estamos falando de cerca de 10% do valor.

Essa conversa me incomodou, principalmente quando ele sugeriu a Natália dizendo que ela poderia ser "criativa" combinando o tênis "barato" com outras coisas que tinha na mala. E que a mala dela estava cheia de coisas interessantes. Foi aí que me pegou. Ele acredita que com criatividade tudo se resolve.

Isso não é exatamente uma verdade. De fato, as pessoas que têm menos recursos usam a ferramenta da criatividade para sobreviver a esse mundo, sobretudo no universo da moda que, como tudo, está inserida nesta sociedade desigual. E uma coisa óbvia precisa ser posta: quando você tem dinheiro você tem mais repertório. Se você tem três tênis para experimentar o que você quer usar e, de repente, você tem uns 200, nos dois casos você está fazendo escolhas. Então, não é sobre escolhas, é sobre repertório. E sobre: quantas e quais opções você tem quando precisa fazer escolhas?

Da minha experiência pessoal, por exemplo, tem muita coisa que eu não acessava por falta de oportunidade, e por isso falei e falo muitas vezes que os estilos são moldados pela falta de oportunidades e acessos das pessoas. Por exemplo, às vezes a gente vê grupos socialmente vulnerabilizados pela sociedade se vestindo iguais ou de forma muito parecida e isso pode ser pela falta de oportunidades de escolha, por ter escolhas reduzidas, inclusive ter referências no seu entorno que também respondem a esta lógica.

Além disso, não podemos reduzir à criatividade: "Olha, você não tem dinheiro, seja criativo". Não! Pessoas não deveriam ser "obrigadas" a isso em razão da falta de oportunidades e acesso.

Acaba, sim, sendo mais fácil exercitar a criatividade quem tem repertórios mais vastos. Vejam, a criatividade é um exercício e, quem precisa se exercitar sempre ou com maior frequência, cansa. O repertório impacta no volume de exercício necessário para exercer a criatividade. E exercício cansa.

Quer outro exemplo? Duas crianças de igual idade, as duas têm o desejo de desenhar roupas, ser estilista um dia. Uma delas tem acesso a uma caixa de lápis de cor simples, aquelas com 12 cores. A outra tem aquelas caixas com 36, às vezes aquarelável etc etc etc. Vamos pensar na aula de educação artística. Quem vai ter a oportunidade de, eventualmente, fazer o desenho mais elaborado, brincar com mais ideias de degradê? Pegaram a visão?

Outra experiência pessoal. Fiz Belas Artes, faculdade de Design e Moda mais elitizada da cidade de São Paulo, certo? Quando cheguei no primeiro dia de aula, eu tinha comprado os materiais, mas não conhecia os materiais porque eu não tive oportunidade de acesso a eles. Então, quando a professora começou a falar: pega o escalímetro, eu não sabia o que era. Parecia óbvio, mas para mim não era, então tive que investir em aprender o que era o escalímetro, ao invés de poder, de partida, estar focada e concentrada em exercer a minha criatividade. Eu precisei de mais tempo para conhecer as ferramentas. Enquanto isso, outras pessoas, com acessos diferentes dos meus, já estavam lá adiante, com seus bons escalímetros, suas réguas diferentonas.

Lembro que isso mexeu muito comigo, assim como essa conversa do Abravanel. Me lembrei também de uma garota que fez um projeto na faculdade em papel preto e desenhado em branco, lindo! Eu não sabia que existia papel preto e, muito menos, caneta branca.

Então, chega de ficarmos nessa ideia (romantizada e violenta) de achar que pobre tem que ser criativo e que a expressão de moda do pobre tem que partir da criatividade. Não! Tem que partir do acesso!

Se a pessoa vai ser criativa ou vai só fazer escolhas de coisas que estão prontas, isso tem que ser um outro processo de construção e escolha individual, entendem. Um ponto de partida equivalente depende de acessos equivalentes. Qualquer outra coisa representa a perpetuação de uma sociedade desigual.

E foi por isso que o Tiago Abravanel bugou. Quando Nat falou que R$ 150 era um tênis caro, ele fez aquela cara de: "Para onde eu vou?"

Eu conheço pessoas que em épocas da vida não usavam tênis, apenas sapatilhas, porque o tênis era R$150 e a sapatilha, R$30. E com essa história, encerro a coluna de hoje. Assim mesmo, sem mais delongas. Porque é sobre e, neste caso não, não está tudo bem.