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Ana Paula Xongani

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Camarim da Xongani': por mais presença negra nos bastidores da moda

Nos camarins, muitas vezes os profissionais não sabem maquiar peles negras ou vestir corpos negros - iStock
Nos camarins, muitas vezes os profissionais não sabem maquiar peles negras ou vestir corpos negros Imagem: iStock
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Ana Paula Xongani

Ana Paula Xongani é multiempresária: no Ateliê Xongani, de moda afro-brasileira, e também na empresa que leve o seu nome, de criação de conteúdo. Apresenta o programa Se Essa Roupa Fosse Minha, no GNT, sobre moda consciente. Fala com leveza e responsabilidade sobre temas sempre importantes para que todo mundo junto construa um mundo mais justo e acolhedor para todos, especialmente para as mulheres pretas. Ativismo afetivo, como costuma dizer.

Colunista do UOL

20/10/2021 04h00

Se tem um lugar que quem trabalha com moda passa bastante tempo nessa vida é em bastidor e, eventualmente, camarins. E, como a gente vive e se expressa através ou a partir das roupas que usamos, trabalhar com moda é estar sempre em contato com pessoas que estão buscando a melhor forma de se expressar ou trabalhando para alguma marca ou projeto que tem o figurino como algo importante.

Os bastidores e o camarim são, portanto, lugares onde se dedica atenção à beleza. Mas, mesmo assim, tem algo importante a ser dito sobre estes espaços aqui nesta coluna, que é sempre bom lembrar, fala da relação entre moda e sociedade: camarins e bastidores podem ser (e muitas vezes são) lugares extremamente opressores para pessoas negras.

Corpos como o meu não ocupam estes espaços de forma proporcional à nossa existência neste país, em razão de várias outras questões estruturais que já abordei nesta coluna, seja como "talento", como gostam de chamar, seja como profissional que confere beleza aos corpos que participam dos trabalhos.

Então, quando um corpo preto adentra estes bastidores é um algo "novo", "notável". E as pessoas que ali estão, "não estão acostumadas", para usar de eufemismo, a lidar com estas existências. Muitas vezes não sabem maquiar estas peles, não sabem vestir estes corpos. Não sabem realizar os seus trabalhos quando as corporalidades são diferentes delas próprias.

Por isso, nos últimos trabalhos eu venho desejando escolher as profissionais que estarão comigo no "camarim da Xongani". A busca é para além de gerar trabalho para tantas profissionais negras. Significa também criar, para mim, um ambiente de conforto e certeza de que meu corpo e minhas subjetividades serão respeitadas, e assim estarei plena pra fazer bem feito o meu trabalho!

Essa foto foi para mim um marco, com a stylist Salisa Barbosa e a Amanda Pris na make, em um dos últimos trabalhos que realizei para o Facebook, um dos maiores contratos da minha carreira.

O "cliente", no caso, me deu toda a liberdade e recurso para estarem ao meu lado quem fosse melhor pra mim, o que deveria ser óbvio, mas não é. Por isso comemorei, agradeci e compartilho com vocês também por aqui porque foi algo que se repetiu recentemente em um vídeo bem bonito que fiz para este canal, a Universa UOL, e que você vai poder conferir — e se emocionar — em breve.

Eu senti, pela primeira vez, o que muitas pessoas que ocupam bastidores afora sentem sempre: conforto, segurança, competência, muito cuidado e amor! Não é pouca coisa não!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL