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Ana Paula Xongani

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Na maternidade, a gente acha que ensina, mas está aprendendo

Ana Paula Xongani e a filha Ayoluwa: em casa, o aprendizado é mútuo - Acervo pessoal
Ana Paula Xongani e a filha Ayoluwa: em casa, o aprendizado é mútuo Imagem: Acervo pessoal
Ana Paula Xongani

Ana Paula Xongani é multiempresária: no Ateliê Xongani, de moda afro-brasileira, e também na empresa que leve o seu nome, de criação de conteúdo. Apresenta o programa Se Essa Roupa Fosse Minha, no GNT, sobre moda consciente. Fala com leveza e responsabilidade sobre temas sempre importantes para que todo mundo junto construa um mundo mais justo e acolhedor para todos, especialmente para as mulheres pretas. Ativismo afetivo, como costuma dizer.

Colunista de Universa

29/04/2021 04h00

Gosto deste espaço para escrever, porque é sempre um momento de respirar do corre do dia a dia, às vezes também ser uma oportunidade para levar o pensamento para lugares diferentes daqueles que as notícias estão nos levando e tentar refletir sobre algo que me traga bons sentimentos. Escrever é colocar para fora, não é? E tudo que a gente enxerga com algum distanciamento ganha novas dimensões e nuances.

Enquanto pensava neste texto, me peguei organizando a agenda da minha filha, a Ayoluwa, que assim como todo mundo teve a rotina impactada demais pelo isolamento social. Ela está numa fase de fazer aulas on-line, já tem algumas responsabilidades em casa, faz várias coisas comigo e também com o pai dela. Se você me segue nas redes sociais, certamente já conhece a minha pequena grande potência.

Neste processo, percebi que, antes da chegada dela, talvez nunca tivesse organizado uma agenda de qualquer coisa, mesmo para mim. Entendi, então, que isso era uma coisa que minha filha me ensinou: organizar agenda.

Ayoluwa - Acervo pessoal - Acervo pessoal
"Ayoluwa, minha filha, é uma criança criada pela família e pela rede de afetos que temos", diz Xongani
Imagem: Acervo pessoal

Daí, resolvi fazer o inverso do que normalmente me perguntam ou me pedem para fazer, que é dar dicas de como ensino as coisas à minha filha. Resolvi escrever sobre cinco coisas que aprendi com ela e com a minha vivência como mãe dela.

Tenho menos influência sobre ela do que imaginei que teria
Acho que a primeira coisa que minha filha me ensinou foi que essa criança é um ser humano independente de mim. Ela vai ter as próprias visões de mundo, a própria consciência, os próprios gostos. Antes de ser mãe, a gente acha que vai ter mais influência do que de fato tem.

A percepção disso faz com que, mais do que ensinar a ela o que eu sei ou o que eu quero que ela aprenda, eu precise também garantir que ela esteja cercada de coisas boas. Ao longo da vida, ela vai aprender com muitas coisas, em muitos lugares, com muitas pessoas — não só comigo ou outras pessoas da família. Isso me trouxe a consciência de que ela precisa estar em lugares legais, conviver com boas pessoas, ouvir bons discursos, consumir arte. Não existe a relação direta: "eu falo, ela aprende". O mundo é um lugar de aprendizado infinito.

Será que precisamos assumir o protagonismo na criação de nossas crianças?
Segunda coisa que aprendi é que eu não quero ser protagonista da criação da minha filha. Eu quero ser uma das pessoas que a criam. A minha filha é uma criança criada pela família e pela rede de afetos que temos. Por mim, pelo pai dela, pela avó, pelo avô, pelos amigos? Até tem um pouco a ver com o lance anterior, mas tem uma outra coisa:

Não quero ser a mãe "leoa", que tudo faz, tudo acontece. Isso pode ser compartilhado e eu preciso que seja. Principalmente, porque quero continuar me construindo. Por mim e por ela. Por nós duas

Para que ela se ame, eu preciso me amar primeiro
A terceira coisa que aprendi é sobre autoestima. E que as crianças aprendem muito mais com exemplo do que apenas ouvindo discursos. Se eu quero que minha filha me ame, eu preciso me amar primeiro. Se eu quero que ela goste dela, eu preciso gostar de mim.

Ela precisa me ver gostando de mim para aprender a gostar dela mesma também. Ela precisa assistir à minha autoestima para ter autoestima em relação a ela.

Se ela me assiste, enquanto mulher negra, me amando, ela também vai se amar. Ela vai me amar e se amar.

Ela precisa assistir ao autocuidado, ao amor-próprio. Então, eu aprendi e passei a gostar muito mais de mim, principalmente, para ela que ela goste mais dela.

E você? O que aprendeu com as pequenas e pequenos que te cercam? Já parou para pensar sobre isso?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL