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Ana Paula Xongani

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

"Um Príncipe em Nova York" é referência cultural de África abundante

Eddie Murphy e Shari Headley em cena de "Um Príncipe em Nova York 2", do Amazon Prime Video  - Divulgação
Eddie Murphy e Shari Headley em cena de "Um Príncipe em Nova York 2", do Amazon Prime Video Imagem: Divulgação
Ana Paula Xongani

Ana Paula Xongani é multiempresária: no Ateliê Xongani, de moda afro-brasileira, e também na empresa que leve o seu nome, de criação de conteúdo. Apresenta o programa Se Essa Roupa Fosse Minha, no GNT, sobre moda consciente. Fala com leveza e responsabilidade sobre temas sempre importantes para que todo mundo junto construa um mundo mais justo e acolhedor para todos, especialmente para as mulheres pretas. Ativismo afetivo, como costuma dizer.

Colunista de Universa

15/04/2021 04h00

Para quem nasceu nos anos 1980, especialmente negras e negros que cresceram nessa década colorida, o filme "Um Príncipe em Nova York" foi um dos mais populares daquela época — e, certamente, assistido mais de uma vez. Uma referência superinteressante, positiva e praticamente inédita em Hollywood de uma África que parecia tão distante da gente. O primeiro filme é de 1988, ano em que nasci, e o segundo estreou recentemente na plataforma Amazon Prime Video, mais de 30 anos depois.

Sim, o filme carrega algumas questões, alguns estereótipos sobre pessoas do continente africano, o que é comum e compreensível, se entendermos de forma crítica que a narrativa parte do olhar norte-americano sobre tudo o que não é dele. O filme repete uma África idealizada, com animais no jardim, monarquia, exotização de corpos e situações.

Apesar disso — e neste texto acho importante e fundamental, já que esta coluna tem o objetivo de subverter a cobertura e os registros sobre a relação da cultura negra com a moda e a sociedade, dar espaço para tudo o que achei positivo e construtivo.

Não consigo nem mensurar a importância de uma obra audiovisual tão popular, cinemão, trazer mesmo que seja de uma forma lúdica e ficcional uma África rica, uma África com população organizada, uma África farta de muitas coisas. Sabe por quê? Porque essa é também uma das verdades de África. A África não é apenas a "África Selvagem" dos documentários do "Globo Repórter" e da "National Geographic". Ela tem também essa riqueza e não é o caso negá-la, obviamente, mas a África não é só isso.

Então, desde 1988 esse filme vem sendo muito importante e uma referência nesse sentido. Penso aqui que, inclusive, ele pode ter sido bastante responsável por algo que a minha geração fala e dissemina muito, que somos descendentes de reis e rainhas. É um filme que alimentou e fortaleceu essa ideia, a construção de um descolamento de imaginário, diferente do que a gente aprende de forma tão equivocada e incompleta na escola, nos outros filmes e produtos culturais.

Assistir ao segundo filme refrescou muito a minha memória da riqueza de informações que ele tem. O que salta aos meus olhos de cara é o figurino, claro, os tecidos, as peles, as miçangas. Mas o filme também tem as danças, as músicas, as tranças, os turbantes, vários signos que contam a nossa existência. Falei sobre vários deles em outro texto desta coluna, aquele sobre Black is King, da Beyoncé

Aliás, uma informação importante: a figurinista deste filme é a Ruth Carter, a mesma de "Pantera Negra", só para você entender a diversidade de possibilidades estéticas possíveis a partir de matrizes negras e o quanto tudo isso migra para as culturas afrodiaspóricas, através de personagens que estão presentes de uma forma bonita no filme também.

O filme tem um exagero ficcional, claro. Importante pontuar, principalmente para os críticos de plantão, que esperam — e cobram — que toda obra sobre negros seja um grande tratado de direitos humanos, que se trata de um filme de comédia, logo tem uma estética" fun" e fantástica. Por que não experimentar exageros da monarquia africana, uma história de príncipe, sim, uma história de amor e tal. Por que não experimentar esse lugar?

A ficção tem um papel importante na construção do imaginário. O exagero e os extremos são importantes, nos dão referência e perspectiva. "Um Príncipe em Nova York" nos presenteia demais com isso. Tem um outro texto aqui que falo da série "A Casa da Vó", da WoloTV, em que um personagem negro vai a uma festa à fantasia e quer uma referência negra. Ele escolhe se vestir de "príncipe de Nova York". É muito importante existir esse personagem, entendem? É a gente fazer escolhas estéticas que se relacionam com a gente, que parecem a gente.

Um aspecto que me chamou muito a atenção foi a presença feminina muito maior na continuação. No primeiro, a história toda é praticamente contada por homens. Além do príncipe, tem o barbeiro e seus amigos, o pai dele, o sogro dele, o amigo. Nesse de agora, temos a chegada das três filhas, da mãe do filho novo e uma participação mais contundente da mulher dele.

A presença delas traz para gente, para a mulher preta, um monte de informação notável, de comportamento, de estética. Os cabelos exageradamente lindos, as joias exageradamente chiques, as roupas exageradamente bem-feitas, os desejos, as frustrações, os sonhos. Tudo isso é muito legal

Digo com muita segurança que a gente quer tudo. A gente quer o clássico, a comédia, o drama, a gente quer o "fun", o ancestral, o artesanal, o moderno, o contemporâneo, o futurístico. A gente quer tudo. Esse filme reforça um lugar importante nesse tudo. E é bonito termos a oportunidade, assim como tantas outras pessoas, de construir esse imaginário também através do cinema.

Eu fiquei feliz com a continuação do filme. E você? O que achou?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL