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Ana Paula Xongani

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

BBB: primata é a violência da branquitude, não o cabelo de João

No BBB, o professor João teve seu cabelo comparado ao de um homem das cavernas - Reprodução/Globoplay
No BBB, o professor João teve seu cabelo comparado ao de um homem das cavernas Imagem: Reprodução/Globoplay
Ana Paula Xongani

Ana Paula Xongani é multiempresária: no Ateliê Xongani, de moda afro-brasileira, e também na empresa que leve o seu nome, de criação de conteúdo. Apresenta o programa Se Essa Roupa Fosse Minha, no GNT, sobre moda consciente. Fala com leveza e responsabilidade sobre temas sempre importantes para que todo mundo junto construa um mundo mais justo e acolhedor para todos, especialmente para as mulheres pretas. Ativismo afetivo, como costuma dizer.

Colunista de Universa

07/04/2021 11h10

O ano é 2021 e os assuntos mais comentados dos últimos dias são os desdobramentos de um episódio de violência cometido contra um homem negro em um reality show da Globo que se pretende entretenimento, mas tem sido palco para violências cotidianas — como existe nos outros países em que o programa é exibido. Sim, estamos falando de "Big Brother Brasil", o BBB21, o Big dos Bigs. Um verdadeiro espetáculo do absurdo.

O resumo para contextualizar porque hoje vou abordar nesta coluna o BBB sob a perspectiva do respeito ao meu cabelo é o seguinte: a fantasia do "monstro" desta última semana (atenção às palavras!) era um homem das cavernas. O termo "homem das cavernas" é, por definição, o estereótipo da representação do homem primitivo, da era paleolítica; termo este que se popularizou como uma referência a um homem arcaico. Já vou parar aqui com definições, mas vou terminar com essa:

ARCAICO
Adjetivo.
1. que pertence a ou evoca tempos remotos; antigo.
2. que se refere a uma fase ou a fases anteriores ao período de estabilidade ou de maturidade de uma cultura, organização social, estilo artístico, língua etc.

Pois sim, Rodolffo, um participante do programa, homem, branco, com acessos sociais, cantor sertanejo comparou o cabelo de um homem negro, o professor João Luiz, ao cabelo do homem das cavernas. Essa introdução dá instrumentos suficientes para evidenciar o problema nesta comparação, mas não vou falar sobre isso, especificamente. Não vou ficar explicando os porquês.

Vou propor reflexões a partir de outros lugares, de provocações para que se compreenda com mais profundidade o que significa uma pessoa negra dizer, pedir, implorar para que tenha seus cabelos respeitados. Ou porque é tão emocionante e forte sim quando vemos a reação de João e da influenciadora Camila de Lucas ao serem abraçados pelo levante da cantora Ludmilla, que extravasou no palco do programa sua existência preta e bissexual com a máxima: "RESPEITEM O TOM DA NOSSA PELE. RESPEITEM NOSSO CABELO!".

A luta por respeito das pessoas negras é muito antiga e chega a ser inacreditável seguirmos lutando por respeito tendo como pautas as mesmas coisas que nossos ancestrais. É urgente ampliar o debate, ampliar a compreensão do que significa quando pedimos respeito aos nossos cabelos. Camilla pediu para que pesquisem. Vou ajudar nesse processo.

Respeitar o meu cabelo é respeitar o meu corpo

É muito louco como as pessoas desassociam o cabelo do corpo. Respeitar meu cabelo é respeitar a forma como o meu corpo ocupa os espaços em que eu existo. Desrespeitar cabelo é violentar o corpo. Sim, é esse o nível de agressividade sim.

Respeitar meu cabelo é respeitar minha história e minhas escolhas

BBB 21: O cantor Rodolffo comparou a peruca de homem das cavernas ao cabelo de João - Reprodução/Globoplay - Reprodução/Globoplay
BBB 21: O cantor Rodolffo comparou a peruca de homem das cavernas ao cabelo de João
Imagem: Reprodução/Globoplay

Independente do que você "enxerga", gosta ou não gosta, entende ou não entende da minha história, há uma verdade: você precisa respeitá-la. Isso significa respeitar minhas forças, minhas vulnerabilidades, as coisas que posso ter superado ou não, as coisas que estou em processo e, inclusive, as coisas que eu posso não querer mudar só porque muitas pessoas estão mudando sobre o meu corpo, meu cabelo, ou o que quer que seja. É sobre respeitar a minha liberdade de ser e expressar as coisas da forma que fazem sentido para mim. Respeitar a história é a ideia de que cada trajetória de vida de negras e negros vai chegar a um resultado, a um lugar de conforto, a uma estética e isso precisa ser respeitado.

Respeitar o meu cabelo é respeitar a história do meu povo

Respeitar meu cabelo é respeitar uma história coletiva, a história de um grupo, a história de um povo que foi subtraído de seu país originário e sofre as consequências de um processo violento de escravização até hoje. Não conhecer a história real do país que a gente vive é uma conivente desinteligência que segue matando e marginalizando corpos como o meu.

Espero que estas três explanações ajudem vocês leitores a entender porque essa frase mobilizou tantas pessoas. Foi porque cada um de nós faz uma ou várias leituras de um pedido sobre respeitar os nossos cabelos. Todas elas igualmente importantes.

É muito engraçada a forma que racistas associam a negritude ao homem primata, quando somos nós que precisamos ensinar, durante séculos - e sempre - a mesma coisa. Antiga é a capacidade do racista de seguir sem compreender coisas tão básicas. Primata é a violência da branquitude. Inclusive aquela de quem aponta a violência de negros e silencia diante da violência de brancos.

Como vi repercutir essa semana: sabe aquela música do Chico César que diz "respeitem meus cabelos, brancos"? Tem uma vírgula. Respeitem meus cabelos, vírgula, brancos. Não é sobre a cor do cabelo. É sobre a cor dos racistas.

Reflitam.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL