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OPINIÃO

Educação sexual nas escolas: finalmente sociedade está mudando a cabeça?

Imagem: Reprodução
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Ana Canosa

Colunista de Universa

05/07/2022 04h00

Oito em cada 10 brasileiros concordam que escolas devem promover o direito de as pessoas viverem livremente a sua sexualidade, sejam elas cisgênero, heterossexuais ou LGBTQIAP+ revelou a pesquisa Datafolha, encomendada pelo Centro de Estudos e Pesquisas em educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec) e pela Ação educativa.

Realizada em março de 2022, o levantamento ouviu cerca de 2090 brasileiros, com mais de 16 anos, de 13 municípios do país. 54% da amostra concorda com a adoção de crianças por casais homossexuais e 71% que a escola está mais preparada que os pais para trabalhar temas como puberdade e sexualidade. Finalmente a voz da verdadeira família brasileira foi transformada em números.

A maior parte da socialização de uma criança, púbere e adolescente acontece na escola. É lá que vamos experimentar sentimentos diversos em relação ao nosso corpo, nossa personalidade e identidade a partir da interação com as pessoas e meio ambiente. O que isso tem relação com a sexualidade? TUDO.

Para além dos primeiros amores idealizados na infância até que o púbere dê um selinho para deixar de ser BV (boca virgem) chegando ao tempo dos primeiros amassos na balada de aniversário de alguma colega de sala - muitos temas que fazem parte da vivência do cotidiano escolar, se bem discutidos, ajudam nessa caminhada.

O objetivo de uma educação sexual bem feita, não está só em explicar sobre corpo reprodutivo a fim de prevenir gravidez na adolescência e assustar os pobres jovens mostrando pênis cheio de bereba para prevenir ISTs. É trabalho da educação sexual questionar padrões estéticos, a pressão do grupo para fazer parte da maioria, o bullying contra quem é mais vulnerável.

Tratar da associação entre drogas lícitas e ilícitas e sexualidade. Aprender a respeitar, negociar, mediar prazer e obrigação, ser assertivo, combater violência: onde mais, que não na escola, temos solo tão fértil para essas discussões?

Sem contar a mudança do corpo, as inseguranças, as descobertas e confusões da adolescência, a iniciação sexual. Trabalhar gênero na escola não diz respeito só a trazer o tema da diversidade sexual, mas combater o machismo e reforçar a equidade de direitos e deveres para todos, assegurados pela nossa constituição.

Desde que esse governo se apropriou da expressão "ideologia de gênero" como uma ameaça a família tradicional brasileira, fazendo todo o tipo de fake news possível, as pessoas que não navegam pela educação, menos ainda pelo campo acadêmico, são capazes de acreditar em qualquer bobagem que as pegue desprevenidas.

Brasileiro é preguiçoso, reproduz tudo sem checar. Quando alguém advoga contrária e apaixonadamente sobre a tal 'ideologia de gênero" que os professores (de esquerda, claro) querem abordar nas escolas, eu tento ser paciente e pergunto: "Sei, e o que eles falam para as crianças?" A resposta mais comum é: "que elas podem escolher se vão ser homens ou mulheres". Daí eu questiono: "Hummm, e me diz uma coisa: você já ouviu algum professor falando assim com crianças? Um vídeo que seja?" E óbvio que a resposta é: não, mas a minha amiga me garantiu...blá, blá, blá.

Eu instigo as pessoas a buscarem informação. Sugiro que vão na escola dos filhos, netos, sobrinhos e perguntem aos professores. Busquem os programas de educação sexual sugeridos pela UNESCO - conheçam as diretrizes para a população brasileira - leiam o ECA.

Nenhum professor bem orientado fala um absurdo desses, até porque ninguém escolhe ser homem ou mulher, hetero ou homossexual. As pessoas simplesmente são. Só que é mais fácil ficar inventando história descabida do que assumir o próprio preconceito - típica hipocrisia da versão "tradicional" da família brasileira.

Muitas pesquisas ao redor do mundo mostram os benefícios dos projetos de educação sexual nas escolas, como a diminuição da violência de gênero e da gravidez indesejada. Embora adolescentes cometam muita bobagem nessa fase da vida - típicas da idade - faz muita diferença poder falar abertamente sobre o tema e saber como a resposta sexual funciona.

É a culpa - não o conhecimento - que silencia as vozes, que confunde, que atrapalha a tomada de decisões. Em todos esses mais de 25 anos de carreira como educadora em sexualidade, sempre fui recebida com entusiasmo por púberes e adolescentes, ainda mais quando o assunto era sobre prazer sexual.

Porque é sobre isso que eles mais se interessam em saber. A compreensão sobre como uma relação sexual pode ser prazerosa para os envolvidos, os cuidados e a responsabilidade afetiva necessária, favorecem imensamente a experiência sexual no futuro.

Eu não tive essa chance na minha adolescência, então contei com a imprevisibilidade da vida. Dei sorte, mas poderia não ter sido assim. Com tanto material de qualidade disponível e profissionais especializados no assunto, já não é sem tempo que as escolas assumam seu importante papel.

Trabalho este que está garantido por lei - mesmo que algumas forças contrárias façam a gente acreditar que não. É fake News, vai por mim!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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