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OPINIÃO

Seus filhos vão assistir a filmes pornôs. Como falar com eles sobre isso?

Imagem: Giulio Fornasar/Getty Images/iStockphoto
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Ana Canosa

Colunista de Universa

26/04/2022 04h00

A pornografia é bastante controversa, mas as pessoas não deixarão de assisti-la. Com a facilidade de acesso ao conteúdo pela internet, é no mínimo ingenuidade achar que adolescentes, púberes ou mesmo crianças não terão contato com ela. Resta dúvida sobre o acesso de púberes e adolescentes a pornografia?

Para ajudar púberes e adolescentes, familiares/cuidadores e educadores, a produtora de filmes pornográficos femininos Erika Lust criou o "The Porn Conversation", um guia dividido em 3 idades 8-11 anos, 12 a 15 anos e + 16 anos. Ao acessar o site você encontra as informações sobre o projeto, que envolveu também a orientação de sexólogas. Ao cadastrar seu e-mail, recebe o acesso aos três guias, em pdf e em inglês.

Desde o final do século XX, os efeitos negativos do consumo de pornografia têm sido apontados, principalmente pelos problemas sociais que provoca, desde a precarização e exploração do trabalho que inclui escravidão sexual, falta de cuidado com a saúde sexual, violência sexual contra as mulheres, desigualdade de gênero, além da reprodução de uma atividade sexual que foca no prazer masculino.

Mas, como a educação sexual nas escolas, comunidade e família também não avança na discussão sobre identidade de gênero, desigualdade de gênero e prazer sexual, onde mais os adolescentes encontrariam conteúdo sobre práticas sexuais e identidades sexuais emergentes que não nos filmes pornográficos?

Sim, seus filhos vão assistir a filmes pornôs

A plataforma Xvideos ocupa o 3º lugar no ranking de sites mais acessados no Brasil em 2021, com 830 milhões de views, perdendo só para o Google e o Youtube. Já na Pornhub, estamos na 10ª posição entre os países com maior concentração de usuários, e Hentai, conteúdo baseado na arte de anime, mangás e games, foi o termo mais buscado no ano passado.

Dentre eles Naruto, vejam só, a conhecida série do garoto ninja assistida pelos nossos filhos cujo protagonista já foi transformado em um pornô star. O aumento dos vídeos amadores, onde as pessoas gravam a si mesmas fazendo sexo, fornece um novo tipo de pornografia que transcende alguns dos debates feministas sobre coerção, objetificação e a moralidade da pornografia.

Uma pesquisa qualitativa norte-americana com 35 jovens universitários investigou com profundidade como a pornografia foi vivenciada como atividade de lazer a ser consumida no tempo livre - portanto uma forma de entretenimento - nas suas adolescências, evitando focar só nos danos potenciais que ela pode provocar.

O resultado mostrou que os participantes usaram a pornografia para explorar seus desejos sexuais, e para desenvolver novas técnicas sexuais, ou seja, como forma de aprendizado sobre prática sexual. Os paradigmas de efeitos negativos do consumo de pornografia na literatura científica até o início do século XXI supunham que comportamentos de risco, delinquência e violência seriam fomentados com o consumo de pornografia, mas a falta de dados empíricos relevantes não sustenta as hipóteses.

Os jovens consomem pornografia por diversos motivos, incluindo atividade de lazer; como experiência erótica; para combater o tédio, explorar a identidade sexual, como atividade recreativa entre os amigos. Alguns participantes homens relataram, inclusive, preferência por filmes que evidenciam contextos sensuais, mais preliminares e alguma conexão entre os atores, embora saibamos que isso não representa a maioria.

Os pesquisadores alertam para a importância de considerar idade, gênero e orientação sexual no entendimento complexo sobre o consumo de pornografia, que a estrutura de lazer ainda permite a consideração de riscos e danos, mas não os privilegia sobre os benefícios potenciais.

O debate sobre o tema, não pode perder de vista a experiência de quem consome o conteúdo, e sim, deve levar em conta questões de gênero e sociais, de saúde sexual, comportamento sexual, relacionamento, violência e dependência. Ou seja, é preciso debater o tema sob vários aspectos.

"The porn conversation"

Cada um documento do guia feito por Erika Lust traz uma breve explanação sobre a sexualidade da faixa etária escolhida e sugestão de como iniciar a conversa, sabidamente difícil: "Eu sei que você pode ver pornografia em algum momento, é praticamente inevitável! Então aqui está o que você precisa saber disso..."; "Você poderia colocar seu telefone/tablet de lado por um momento? Eu quero falar com você sobre algumas das imagens ou vídeos que você pode ter visto online?" "Você notou quanto conteúdo sexual está na internet? Você deve saber que a maior parte do que você vê não é exatamente assim na vida real.

Assim como nos filmes de super-heróis, os personagens têm superpoderes como a capacidade de voar - mas os humanos não na vida real!" "As pessoas que você vê no pornô são atores. Eles negociam contratos e são pagos pelo que fazem. Este é o trabalho deles e eles não são assim quando não estão trabalhando."

O guia sugere que o tom da conversa seja casual e que não pareça que o(a) púbere/adolescente está com problemas, evitando julgamentos, críticas e abrindo um campo de conversação, para que eles venham aos pais e mães sempre que precisarem. "Pergunte ao seu filho: "O que você acha disso?" em todo a conversa para manter a conversa bilateral.

Alguns tópicos como sexo, imagem corporal, a objetificação de garotas e mulheres "muitas garotas acreditam que se espera delas que se vistam e façam poses sensuais diferentes dos garotos", racismo "existem muitos termos racistas e odiosos na pornografia gratuita online, que perpetuam preconceito contra pessoas de cor" são abordados nas 3 faixas etárias, e outros mais específicos em cada uma, como sexualização de crianças e jovens, violência, segurança online (8-11 anos), cultura do estupro, e a fetichização de negros, indígenas e pessoas de cor, limites e consentimentos (12 a 15 anos) "Dar consentimento é mais do que dizer SIM.

É importante dizer ao seu parceiro o que é ou não é permitido de maneira específica" "Há muito conteúdo online que pode deixar você confuso e amedrontado; você pode sempre me perguntar se ver algo que queira conversar" e fetichização de adolescentes (+16 anos) "você não precisa agradar ninguém sendo nada além de você mesmo".

No final do Guia há também um glossário de termos. Ótimo material, então, se você tem filhos, faça a sua parte.


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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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