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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Amor no Espectro' e a vida afetiva e sexual de pessoas neuroatípicas

Na série documental "Amor no Espectro", da Netflix, jovens com autismo tentam encontrar o amor - Divulgação/Netflix
Na série documental 'Amor no Espectro', da Netflix, jovens com autismo tentam encontrar o amor Imagem: Divulgação/Netflix
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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

21/12/2021 04h00

"Encontrar o amor não é fácil. Para jovens com autismo, o mundo das relações pode ser ainda mais complicado". Esse é a frase que abre a série "Amor no Espectro" (Love on the Spectrum) produzida pela Netflix e com duas temporadas disponíveis. A ideia é revelar dificuldades e descobertas que pessoas que se encontram do Espectro autista tem para desenvolver uma paquera, conversar e iniciar uma relação afetiva-sexual com outra pessoa.

O Transtorno do espectro autista (TEA) é uma condição de neurodesenvolvimento que impacta habilidades sociais, comunicação social, pode resultar em comportamentos ou movimentos restritos e repetitivos, provocar hipersensibilidade sensorial, rigidez sobre hábitos e rotinas e comportamentos motores atípicos. Durante os episódios, acompanhando os jovens que se deixaram conhecer pelas câmeras em momentos de dates, fica mais do que claro o quanto nada sabemos sobre as necessidades e vivências afetivas e sexuais de pessoas neuroatípicas; aliás a grande maioria de nós tem uma visão muitíssimo restrita e estereotipada sobre pessoas com TEA, com pressupostos básicos do tipo: mas eles querem se relacionar? Não estão presos a um mundo particular? Não tem dificuldade em estabelecer vínculos afetivos, abraçar as pessoas?

"Amor no Espectro" revela que cada pessoa com TEA tem características individuais, assim como todos nós. Fica claro que há pouca diferença quando se trata das expectativas de encontro, dúvidas sobre como agradar a outra pessoa, vontade de se apaixonar. Todos os jovens entrevistados na série buscam conectar-se afetivamente com alguém e, como os neurotípicos, se frustram quando não há correspondência.

Com a ajuda de profissionais, os jovens aprendem ferramentas de comunicação para desenvolver habilidade na conversa, quais as melhores condutas para o início de um encontro, quais as perguntas que podem ser úteis e como ter mais fluidez na comunicação. "50% - 50%", diz a profissional, sobre o cuidado com a manipulação excessiva da fala, já que pessoas com TEA podem facilmente discorrer por muito tempo sobre assuntos específicos. Aprendizado que não se aplica só a neuroatípicos, certo? Quantas vezes você já saiu com alguém que não para de falar sobre si mesmo, ou que adora fazer uma 'palestrinha'? A diferença aqui é que no caso de pessoas com TEA o hiperfoco conduz o pensamento para o tema, enquanto que em outros tantos casos, a verborreia tem relação com a vaidade.

Todos os episódios são recheados de uma ternura sem fim, e é impossível não torcer para que eles enfim encontrem alguém para compartilhar sua intimidade emocional e sexual. Os familiares de alguns jovens da série são extremamente apoiadores da jornada, o que infelizmente sabemos, não é uma realidade de todos.

A literatura tem revelado que pessoas com TEA estão incluídas em altos índices de vitimização para a violência sexual e pouco acesso a educação sexual de qualidade. Outro fator a comentar, é que muitas famílias superprotegem seus(as) filhos(as) e evitam que desenvolvam autonomia para que se mantenham dependentes dos pais. Às vezes esse processo não é consciente; de um lado os familiares desejam sim que seus (as) filhos(as) amem e sejam amados(as), por outro lado, há o medo de que sofram, ou a descrença sobre a capacidade deles em gerir relações. Para os familiares que se dedicaram a orbitar no entono de um(a) filho(a) com TEA, abrir mão dessa 'tarefa' pode não ser fácil também, pois há que se preencher os espaços internos com outros desejos.

Outro dado importante abordado em "Amor no Espectro" é sobre o recorte de gênero: meninas são diagnosticadas mais tardiamente do que os meninos, simplesmente porque socialmente se espera que as meninas sejam menos ativas e mais 'quietinhas' do que os meninos, o que retarda o reconhecimento da condição, desfavorecendo que as habilidades sociais sejam treinadas desde a infância.

Embora na primeira temporada explora-se a vivência de um casal heterossexual, o sexo não foi um tema explicitamente abordado, e que imagino, carece de estratégias de aprendizagem direcionadas para essa população.

"Amor no Espectro" mostra como algumas associações internacionais promovem festas e situações de encontro para neuroatípicos, como os speed datings, em que é possível conhecer futuros pretendentes, a partir de conversas rápidas com todos os participantes, identificando aqueles(as) que despertam maior interesse. Um exemplo a ser seguido no Brasil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL