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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Inteligente como um golfinho rotador: a difícil arte de ser poliamorista

Poliamoristas têm de ter um quê de rotador, despindo-se de muitos valores e entraves egoicos, ocupando-se não só dos próprios desejos e afetos, mas de todos os envolvidos, o que dá trabalho - iStock
Poliamoristas têm de ter um quê de rotador, despindo-se de muitos valores e entraves egoicos, ocupando-se não só dos próprios desejos e afetos, mas de todos os envolvidos, o que dá trabalho Imagem: iStock
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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

07/12/2021 04h00

Poliamor é um arranjo não monogâmico onde as pessoas são livres para estabelecer relações afetivas e sexuais com mais de uma pessoa. Há uma espécie de geometria aplicada aos formatos possíveis. Em "V", quando um dos membros (pivô) mantém relacionamento com os outros dois (braços), mas estes não se relacionam entre si (nesse caso, cada "braço" é o metamor do outro); "triângulo", no qual cada um dos membros está relacionado aos outros dois, então cada metamor é também amor do outro. Tem também "quadrados" e poléculas com cinco ou mais pessoas.

O importante é que todos os envolvidos são conscientes e consentem sobre as relações, e por isso qualquer situação que fuja ao acordo e seja encoberta pode, sim, ser sentida como infidelidade. Ter compersão (compersion), ou seja, praticar o sentimento contrário ao ciúme —algo como ficar feliz pela parceria que está se relacionando com outra pessoa—, é o grande desafio para os que foram criados em contextos culturais monogâmicos e têm introjetada a ilusão da exclusividade (porque, cá para nós, mais dia ou menos dia, você descobre que não é).

O poliamor não é novidade, existe desde que o mundo é mundo, e aparece como um formato interessante na tentativa de resolver os dilemas do amor e do desejo tão comuns à monogamia. Mais livre, é fato, mas também com seus problemas, pois somos todos humanos, um poço de complexidade.

Passei a semana em Fernando de Noronha, um lugar maravilhoso. Vi centenas de golfinhos rotadores, uma espécie de cetáceo muito abundante na região. De inteligência aguçada, eles são gregários; vivem em grupos e utilizam várias estratégias para manter a homeostase. Enquanto um deles chama a atenção, rodando fora da água e encantando os turistas, os outros passam com seus filhotes para não serem incomodados. Todo movimento tem um porquê e está a serviço da preservação do grupo. Os animais são interessantes e inteligentes.

Os rotadores procriam o ano todo. Cada fêmea tem aproximadamente um grupo de 15 machos para acasalar, sendo impossível descobrir qual deles é de fato o papai golfinho que a fecundou. Isso faz com que o grupo todo proteja e cuide dos filhotes por igual e não haja rivalidade. Não há relação primária, o preferido, o mais interessante, o que tem pau maior, o que passou os genes.

Até para poliamoristas convictos o caldo entorna com frequência

Poliamoristas têm de ter um quê de rotador, despindo-se de muitos valores e entraves egoicos, ocupando-se não só dos próprios desejos e afetos, mas de todos os envolvidos, o que dá trabalho. Devem ser capazes de desafiar a hierarquia, lutar contra o sentimento de exclusividade e a vaidade. Até para poliamoristas convictos o caldo entorna com frequência. No chamado "poliamor hierárquico", por exemplo, é comum o casal primário criar condições, regras e limites para a relação secundária, a pessoa que entrou no relacionamento depois.

Mas, como garantir que a(o) namorada(o) da parceria não vá se apaixonar loucamente e reclamar mais a sua presença ou vice-versa? Como colocar limite no sentimento alheio? (Envolva-se menos, tenha mais presença em casa!) Como o novo elemento não se sentirá frustrado com os contornos estabelecidos pela relação principal? (Dias e horários "possíveis", não participar de festas familiares quando não há transparência social, etc?). Como entrar em uma relação cheia de história, bens, amigos, um privilégio do casal primário e se sentir à vontade para opinar, participar, usufruir?

Independentemente do formato, se todos se relacionam ou não, desativar o botão da comparação —quem está mais atento e participativo na vida da parceria— é fundamental e difícil. Basta dar uma registrada rápida nos sentimentos daqueles que acabaram de ser traídos, para perceber que a comparação é avassaladora. Existem sim relações secundárias menos desafiadoras, principalmente quando o terceiro elemento também tem outros relacionamentos, o que ajusta as relações de poder.

A comunidade poliamorista, a fim de diminuir o poliamor hierárquico, tem preferido usar termos substitutos ao primário e secundário, como parceiros de aninhamento —como pássaros, o casal reúne seus recursos e constrói um ninho, talvez para criar alguns filhotes— e parceiro satélite para a pessoa que inicia o relacionamento com eles.

Mas o desafio, a meu ver, continua igual. De qualquer modo, a monogamia também tem outros mil problemas e é preciso vontade para fazer dar certo, renovar relações, deixar que o novo floresça. Poliamor não convida a conforto ou estabilidade, e como diz o autor Hermes Solenzol: "Uma de suas belezas é que requer atenção plena, introspecção, comunicação e compaixão". Algo análogo à famosa pirueta dos rotadores.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL