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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Alexitimia: incapacidade de falar das emoções pode gerar dependência

Ter a capacidade de nomear sentimentos é um necessário caminho para aprimorar a inteligência emocional - AntonioGuillem/ iStock
Ter a capacidade de nomear sentimentos é um necessário caminho para aprimorar a inteligência emocional Imagem: AntonioGuillem/ iStock
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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

24/11/2021 04h00

Alexitimia é uma condição psíquica na qual a pessoa sente dificuldade em reconhecer e nomear sentimentos e sensações. A palavra de origem grega (a de negação + alexis = palavra + thymos = sentimento ou emoção) foi cunhada pelo psiquiatra Peter E. Sifneos, que juntamente com seu colega John C. Nemiah, na década de 60, passaram a estudar o fenômeno, instigados que estavam com a dificuldade de pacientes em falar das próprias emoções.

Além do problema em usar linguagem apropriada para expressar e descrever sentimentos diferenciando-os de sensações corporais, outros dois componentes estão presentes do quadro: capacidade pobre de fantasiar e imaginar e um estilo cognitivo utilitário, concreto, que focaliza eventos externos, ao invés de legitimar as próprias experiências.

Algumas pessoas podem também apresentar comunicação afetiva falha e dificuldade na socialização. Como aspecto clínico, pode estar associada a outras condições, como o estresse pós-traumático e a anorexia nervosa, ou a algum agravante físico e patológico, além de disfunção afetivo-cognitiva.

A alexitimia tem sido investigada também como uma possível resposta deficitária do sistema que faz a passagem da emoção para o sentimento. O neurologista português António Damásio diz que a emoção seria uma "(...) coleção de respostas químicas e neurais que formam um padrão distinto" (expressão facial, ritmo, sudorese, movimentos do corpo, etc.) e os sentimentos derivam das percepções dessas reações pela própria pessoa: ela "sente a emoção". A emoção tem uma característica mais inconsciente e os sentimentos, o seu oposto.

Mas nem todas as emoções são oriundas da mesma região do cérebro, o que torna o sistema todo bastante complexo. Então o que torna o mecanismo neuronal que permite a autoconsciência emocional deficitário no alexitímico ainda não está bem explicado.

O quanto há de interferência do meio na percepção das emoções e na linguagem dos sentimentos?

Sabemos que há um processo de aprendizagem sobre os significados dos sentidos: "Eu gosto disso?", "É bom para mim?", que tem origem na infância. Portanto, quando as emoções são livremente expressadas, e não sofrem repressão constante, isso favorece a confiança, a confidência e o companheirismo.

Não é à toa que muitos autores associam também a educação de gênero como um input ao fenômeno. O psicólogo estadunidense Ronald Levand cunhou em 1992 o termo alexitimia masculina normativa, para demonstrar como o contexto cultural pode levar ao problema. A masculinidade hegemônica, essa que reforça que os homens não devem demonstrar fragilidade e que dar valor aos sentimentos é uma ação essencialmente feminina, faz com que o entendimento dessa linguagem se torne nebuloso.

Há uma valorização da raiva como uma emoção socialmente permitida, mas outras, como o medo e tristeza, são abafados. A angústia que os homens sentem diante de conflitos relacionais muitas vezes é resultado dessa incapacidade de dizer o que se sente; o ataque, a fuga ou a paralisação se tornam um mecanismo de defesa e a comunicação não avança, tornando as parcerias completamente reféns da situação.

Quantas vezes ouvi no consultório 'ele não fala nada - não faço ideia do que sente'.

Diante do silêncio absoluto, parceiras e parceiros passam a viver ansiosos, tomados de dúvidas, tentando fazer uma "leitura" do outro, gastando energia elaborando teorias e conjecturando sobre os sentimentos alheios. Há também os casos em que a parceria passa a decodificar o sentir e falar pelo parceiro, nomeando por ele, fomentando uma dependência emocional.

Às mulheres eu diria para terem cuidado ao ocupar esse lugar, pois é uma maneira bem deficitária em ter protagonismo em uma relação afetivo-sexual; às mães que não falem por seus filhos e filhas, que os deixem responder quando são perguntados e que os ajudem, desde cedo, a identificar o que estão sentindo e encaminharem suas ações de maneira não tão impulsiva.

Aos homens, que não tenham medo de entrar em contato com suas emoções e busquem dar um sentido a elas, comunicando-as. Ter a capacidade de nomear sentimentos é um necessário caminho para aprimorar a inteligência emocional.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL