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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Atração sexual é resultado de um sistema mais complexo do que imaginamos

Sexo - gpointstudio/ iStock
Sexo Imagem: gpointstudio/ iStock
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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

20/11/2021 04h00

Por que nos atraímos por um determinado tipo de pessoa parece ser resultado de um sistema complexo. Teóricos evolucionistas vão se apoiar nas características físicas que indicam boa capacidade reprodutiva, algumas que se consideram quase universais, como as ancas largas ou o timbre de voz: parece que homens preferem mulheres com voz alta e ofegante, que indica juventude (portanto maior capacidade reprodutiva), enquanto uma voz masculina com tom mais baixo sinalizaria um corpo grande, parecendo mais atraente às mulheres.

O problema dessas pesquisas é a falta de dados sobre a população LGB, a fim de entender como essa teoria se aplicaria nesses casos. Outro ingrediente complementar apontado como fundamental é o papel da testosterona, hormônio responsável pelo impulso da atração sexual e que pode também ser "revelado" através de traços peculiares: um dedo anelar maior, comparado ao dedo indicador —possível efeito da testosterona ainda no ventre materno— tornaria homens mais atraentes aos olhos femininos, reforçando que benefícios genéticos podem ser percebidos —de maneira intuitiva— quando se escolhe um parceiro específico.

No entanto, parece que os homens com os tais longos dedos anelares também são mais promíscuos (uma relação de causa e efeito?) e daí os tais benefícios são questionáveis, não é mesmo?

Nessa multifatorial fórmula da atração sexual, é importante acrescentar o ingrediente social, de padrões estéticos, que podem induzir o olhar para os símbolos de atratividade que são reforçados pelas culturas: mulheres mais magras não correspondiam a um biotipo considerado "saudável" na renascença, quando ter curvas e dobras era associado a maior acesso a fartura de alimentos, uma condição das classes abastadas, portanto outro benefício a se considerar naqueles tempos.

Até hoje na Mauritânia, país da África Ocidental, ter uns quilinhos a mais é sinal positivo, pois indica que a mulher não tem de trabalhar, já que o marido é rico; algo que mudou totalmente na Europa pós-moderna, a partir do que se considera saudável e atraente, em termos de biotipo e também de postura feminina diante do casamento.

Por isso, acrescenta-se a esta complexa receita a influência do desenvolvimento da ciência, das condições de saúde geral das populações, as influências políticas e econômicas, das artes, da moda, os movimentos sociais.

Teerã, por exemplo, é campeão em cirurgia plástica de nariz, uma das poucas partes do corpo feminino que não ficam sob trajes e véus, mostrando o processo de aculturação, quando um povo absorve um modelo cultural de outro —aqui, no caso, o padrão ocidental. Gostos e hábitos mudam, a cultura é dinâmica.

Relação com experiências emocionais

Há também um forte componente psíquico, envolvido na percepção das possíveis parcerias afetivo-sexuais, que tem relação com as experiências emocionais que são reveladas pela comunicação verbal ou não verbal. Há, por exemplo, quem se atraia mais pelo "jeito" da pessoa, do que por seu tipo físico: mais extrovertido, introvertido, vigoroso, tímido, frágil, seguro, de olhar "sombrio", carente, entusiasmado, ousado ou distante.

Muitas vezes, essas características são compatíveis com traços familiares ou o seu oposto, revelando uma possível função de cunho identificatório ou complementar: alguém que cresce em uma família mais "silenciosa", onde há forte comportamento não-verbal, pode se atrair por alguém parecido ou seu oposto, bem mais comunicativo.

Muitas vezes a outra pessoa reforça a possibilidade de repetir padrões de dinâmicas emocionais, que nós já interiorizamos, mesmo que aparentemente não as desejemos: por que mesmo você só se atrai por pessoas comprometidas? Ou abusivas? Ou submissas? Talvez nesses casos não seja bem uma atração sexual, mas sim emocional.

Por fim, há quem sinta atração sexual por alguns tipos físicos, mas o que faz diferença mesmo para mobilizar o tesão é a amizade, a capacidade de interação e a intimidade emocional que se revela. Parece que esses padrões, inclusive, mudam ao longo do tempo: pessoas mais maduras valorizam mais as características de personalidade do que as estéticas, o que de fato demonstra a inteligência do ser humano e reforça o papel da reprodução na atração sexual —haja vista que boa parte das pessoas mais maduras não está interessada em procriar.

Na verdade, nesse caso, há uma somatória de fatores (biofisiológicos, emocionais e cognitivos) mostrando a plasticidade de nosso cérebro.
E, sim, há quem me dirá que nenhuma teoria científica é base para a atração fulminante daqueles que se escolhem em razão dos necessários reencontros de vidas passadas, ou mesmo das almas gêmeas enviadas por Deus. Quem sou eu para duvidar!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL