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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Eles dividem atenção com gente demais: o desafio de amar um 'ser universal'

Os seres universais, por serem livres, não se encaixam em modelos tradicionais - iStock
Os seres universais, por serem livres, não se encaixam em modelos tradicionais Imagem: iStock

Colunista de Universa

13/11/2021 04h00

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Tenho uma amiga que conhece mil pessoas e tem enorme satisfação por cada vínculo afetivo e fraterno que faz. É bem-humorada, interessada e criativa; geralmente também é flexível. Está sempre com as malas prontas, entusiasmada com uma nova viagem ou um novo trabalho. E guarda no bolso um sorriso amigo. Você conhece alguém assim?

Gosto de chamar estas pessoas de "seres universais", porque me dão a impressão de que pertencem ao coletivo e que têm sempre algo em comum com todos com quem se encontram pela vida. Parecem estar prontas a descobrir identificações culturais, mesmo quando cruzam o planeta. Não é difícil reconhecê-las porque geralmente são queridas e solicitadas pelos outros a todo tempo. Mas, como estão sempre disponíveis para vários "afetos", pode acabar sendo difícil conviver com todos eles, justamente porque são muitos, e todos diferentes entre si.

Estamos habituados a enxergar e a entender o amor através de sinais preestabelecidos. Veja só: a gente se sente amado quando o outro demonstra ciúmes, quando diz que tem saudades e que não pode viver longe da gente... E que a nossa companhia é a melhor do mundo. Não aprendemos a criar um "código amoroso" que diga que, se o outro viaja sozinho e feliz, não significa que não nos ame. Que se não sente ciúmes, não é porque falta desejo. Que se prefere fazer algumas coisas junto com outras companhias, não significa que nos rejeita.

Os seres universais, por serem livres, não se encaixam em modelos tradicionais, aqueles que dizem que o ser humano, para ser feliz no amor, precisa só de um relacionamento amoroso baseado na convivência diária e exclusiva. Eles saem por aí "namorando" todo mundo! Mas não se trata do namoro "genitalizado" ou "erótico", e sim um namoro de paixão pela vida, de sentirem-se estimulados com as pessoas e com o mundo, e de desejarem usufruir deste estímulo.

Infelizmente, nem sempre os seres universais são compreendidos, e com isso acabam sofrendo.

Quer ver só? Chegam entusiasmados, contando à parceria sobre todas as coisas que fizeram, viram ou aprenderam, e acontece muito de serem cobrados(as) por não estarem mais tempo em casa, por serem alegres demais, por dividirem sua atenção com tanta gente!

Alguns, quando se dão conta de tais cobranças, simplesmente se distanciam das relações amorosas. Preferem viver sozinhos(as) num universo de interesses e entusiasmo a descobrir, experimentando afetos passageiros, sem compromisso nenhum. Nesse movimento correm o risco de cair na superficialidade, porque amar todo mundo pode significar não amar ninguém.

Outras vezes, preferem as relações "abertas", cada um na sua casa, nada de juntar as escovas de dentes, ou de dizer bom dia, boa tarde ou boa-noite, todo santo dia. Outros escolhem não ter filhos justamente porque não conseguem imaginar-se cuidando de alguém durante longo tempo.

O termo "compersion" (compersão, em tradução livre), bastante utilizado como sentimento-chave em relações poliamorosas, sugere que as pessoas devem se esforçar para ficarem felizes ao verem suas parcerias felizes, mesmo que isso signifique que elas estejam também amando outra pessoa. Embora não seja o foco desse texto, pois não estou tratando de relações não monogâmicas, o sentimento de não ser uma unanimidade na vida da outra pessoa é o mesmo, sendo a única diferença a presença ou não do erotismo.

Um ser universal pode ser aquela professora envolvidíssima com seus alunos e alunas, aquele amigo organizador dos encontros semanais, aquele sujeito ponto de referência para conversas profundas ou divertidas, ou mesmo banais. A vizinha que assume a "zeladoria" da rua, o dono da pizzaria da esquina.

O valor de "ser" quem somos, sem precisarmos abandonar nossa identidade em nome de um relacionamento, é fundamental: quanto mais livres, mais vontade temos de voltar.