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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gratidão, dor, saudades: o que fica depois do fim de uma relação saudável?

franckreporter/Getty Images
Imagem: franckreporter/Getty Images
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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

16/10/2021 04h00

Nunca é fácil terminar uma relação, especialmente quando ela foi recheada de prazeres inesquecíveis. As pessoas usam estratégias distintas, desde as mais acovardadas, no estilo "foi comprar cigarro na padaria e nunca mais voltou"; passando pelas pseudo vitimistas "Você merece alguém melhor do que eu"; até as mais cuidadosas, recheadas de ternura e afeto. Os términos acontecem pelo amor ou pela dor e há quem ainda acredite que a segunda opção seja a mais sensata.

Gabriela está arrasada. Ela é uma mulher intensa, comprometida com a vida, e com seus prazeres. Depois de findar um relacionamento longo, de muita parceria e companheirismo, teve várias experiências com parceiros diferentes. Como alguém que valoriza as pessoas e suas conexões, foi guardando em sua memória afetiva os gestos e gostos de cada um, suas sensações e descobertas.

Foi quando conheceu Márcio, um sujeito sério, "certinho", que quis mergulhar num relacionamento. Ela não se apaixonou de pronto, assim como a declaração que ele fez, mas foi se abrindo aos poucos até que se entregou de vez. Foram 6 meses de muita conexão afetiva e sexual, de descobertas e cuidado mútuo: enquanto ela cozinhava, ele pregava seus quadros; enquanto ele trabalhava, ela fazia surpresas vespertinas para um cafezinho e um chamego quente e nu, ao pôr do sol; danças na sala; conversas intermináveis; e, entre beijos e queijos, a abraçava com ternura dizendo que "não queria nunca mais sair dali".

A convidou para morar no exterior e participar de seu projeto pessoal e profissional, numa explícita demonstração de querer partilhar a vida juntos. Gabriela ficou emocionada com o convite, respondendo que, embora tenha outros sonhos e projetos, o apoiaria de forma incondicional.

Não sabemos se foi por esta resposta, mas, ao que tudo indica, ela não se encaixou exatamente na perspectiva idealizada de vida futura dele. Da noite para o dia, Márcio terminou a relação de maneira fria e distante, dizendo que Gabriela tinha entendido "tudo errado" e que não havia aquele amor todo ali. Que o projeto deles era diferente - aqui estão as suas coisas - e, sem vírgulas nem hiato: ponto final. Um corte definitivo e abrupto. Foi tão violento e incoerente, que ele parecia tomado por uma outra personalidade, ou quem sabe um espírito perverso, desses que nos fazem questionar a própria sanidade mental. Gabriela rachou por dentro - "agora entendo essa expressão partir o coração" - desolada, perdida.

Ocupada que ficou em sobreviver ao tsunami emocional, deu um sumiço das redes sociais. Não postava mais suas já (re)conhecidas fotos de comidas. Recebeu então uma mensagem de José, um ex-crush, do período de solteirice, com quem teve um breve caso, que terminou porque eles tinham ideias muito díspares sobre a vida e as conversas ficavam densas demais. Se abraçaram diante da incapacidade de gerir humores e alinhar ideias, disseram-se amados e desejados, mas, atravessados por muitos porém, contudo e entretanto, se despediram. Mesmo tão diferentes, nunca deixaram de trocar mensagens, receitas e comidas, tupperware para lá, marmita para cá, deixadas na portaria dos prédios.

Dando falta dos registros de Gabriela, perguntou se ela estava bem. Ela não negou o sofrimento, embora não tenha dado detalhes do acontecido. Dia seguinte, lá estava um potinho repleto de caldo de mandioquinha com carne seca, com um bilhetinho 'Espero que fique bem'. Achei de um amor sem fim.

E é sem fim, porque muito embora os términos coloquem um limite necessário em relações que não são mais potentes, não é porque mudaram-se os rumos, que a pessoa simplesmente deixará de existir, destituída e desinvestida do amor de outrora.

Terminar um relacionamento sabendo-se importante na vida da outra pessoa, cravando um espaço sagrado de habitação apaziguada e eterna, pode ser muito difícil, pois a gente tem essa mania de achar que sempre pode fazer "dar certo". Mas, passado o tempo do luto, é possível imaginar que outras relações estejam por vir, para nos sentirmos apaixonados novamente e quantas vezes a vida nos surpreender.

Porque merecemos esse lugar de prazer dos bem-amados. Por outro lado, quando alguém torna a nossa passagem algo insignificante, mesmo que por completo analfabetismo emocional, o trabalho de recuperar a memória e dar sentido a ela é muito mais triste e solitário. Falta referência, bússola, sentido.

Entre as pernas cruzadas de Márcio, o olhar distante e frio que findaram a relação pela dor, ou o tupperware de José que não pode nunca ser devolvido sem alguma comida feita à mão, achamos, eu e ela que sempre, se possível, é melhor terminar uma relação com gratidão pelo amor vivido. Seguimos de mãos dadas, ela lambendo as feridas e eu lhe ajudando a colar os cacos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL