PUBLICIDADE

Topo

Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Traição: é muito mais fácil justificá-la do que assumir nossas escolhas

A diminuição da atividade sexual, a perda do encantamento, da novidade e a disparidade no ritmo entre o casal são queixas comuns - iStock
A diminuição da atividade sexual, a perda do encantamento, da novidade e a disparidade no ritmo entre o casal são queixas comuns Imagem: iStock
Conteúdo exclusivo para assinantes
Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista do UOL

12/10/2021 04h00

Uma pesquisa com 1.727 membros do site de relacionamentos para casados Ashley Madison, realizada entre 5 e 10 de agosto de 2021, revelou que para a maioria dos adúlteros a infidelidade conjugal é o último recurso, depois que tentam resolver os conflitos conjugais por conta própria ou com ajuda profissional —31% dos entrevistados disseram que assumem a liderança na correção do problema sem nenhum esforço real de sua parceria e mais da metade (52%) afirmaram que conversam sobre o problema em casal. A maioria (65%) tem alguém em sua vida pessoal com quem podem ser completamente abertos e honestos —um confidente próximo a quem podem recorrer para obter conselhos ou ajuda.

Mais de um terço dos membros (38%) desejam fazer terapia de casal e 47% já frequentam semanalmente o consultório. Melhorar a conexão emocional e prevenir a separação são as maiores motivações. De fato, muitos casais chegam ao consultório distantes, repletos de mágoas e com a impressão de que já não são mais tão amados pelas suas parcerias. No entanto, é muito comum também que cheguem ao processo terapêutico idealizando soluções. Ao se depararem com a complexidade da dinâmica conjugal, e com o trabalho que dá rever condutas, funções, além de ter que tocar em feridas individuais, alguns mergulham lindamente no processo, outros ficam na superfície, ocupando as sessões com discussões que distraem do conflito principal e há os que desistem.

Em se tratando de queixas sexuais, embora a terapia sexual seja um processo direcionado, de intervenção objetiva, muitas vezes esbarramos em conflitos mais complexos. O dilema da falta de erotismo em casais estabelecidos é de fato um clássico. Já vi acontecer várias vezes uma pessoa infiel entrar no processo de terapia de casal, ao mesmo tempo em que mantém a sua vida paralela em segredo.

Você pode me perguntar se essa pessoa está ali, falseando a sua intenção, e eu te respondo que talvez alguns sim, mas a maioria está ali de maneira genuína, nutrindo a esperança de encontrar uma saída e desejando melhorar a sua relação. Segundo Isabella Mise, Diretora de Comunicações da Ashley Madison, "a decisão deles de ingressar na Ashley Madison costuma ser uma escolha pragmática e ocorre após muita consideração".

A diminuição da atividade sexual, a perda do encantamento, da novidade e a disparidade no ritmo entre o casal são queixas comuns, que levam as pessoas a buscar relações extraconjugais. Mas seria leviandade colocar no casamento todas a culpa pelo próprio desejo de ter variação sexual. É muito mais fácil justificar a traição do que assumir a responsabilidade pelo caminho escolhido.

Pessoas também são infiéis porque se apaixonam, por vingança, para testar a própria orientação sexual, por curiosidade, para vivenciarem o erotismo com alguém com quem não exerçam os papéis de pai, mãe, esposa ou marido. Para muitos, fica difícil manter o interesse quando há muita intimidade, pois ou falta graça e mistério, ou o sexo fica padronizado, por falta de coragem para explorá-lo. Muitas pessoas têm receio de aprofundar a comunicação erótica com seus cônjuges e revelar fantasias e desejos, pois temem perder o amor da parceria.

E sim, a conversa sobre abrir a relação para transformar em contrato não monogâmico nunca é fácil. Por mais que saibamos que o desejo sexual por outras pessoas acontece, fica difícil abrir mão da fantasia da unanimidade. Há também o receio de que alguém se apaixone e o vínculo afetivo do casal fique seriamente ameaçado. Sem contar o ciúme, o medo de ser comparado em beleza e desempenho sexual. Por isso, muitos adúlteros são incapazes de contar sobre seus desejos, pois não dão conta de imaginar suas parcerias com outras pessoas. A clandestinidade serve como escudo de proteção, uma maneira de manter um segredo pela incapacidade emocional de lidar com os dilemas. Ético não é, convenhamos.

Infidelidade naturalizada

Corre-se o risco de naturalizar a infidelidade a ponto de se tornar um valor. Quanto mais tempo o segredo é mantido, e as artimanhas funcionam, mais as pessoas se afastam de considerações importantes sobre a saúde emocional da parceria. Muitas vezes é a infidelidade que os coloca em contato com seu lado menos ético e, embora se assombrem com a capacidade que encontram de mentir, fingir e manipular, se habituam, tornando essas características uma justificativa positiva a serviço da manutenção da integridade do casamento e os sentimentos da parceria.

"Não te contei para te privar do sofrimento", embora possa ser uma frase recorrente e verdadeira, caminha ao lado de outras duas, que são o medo de ter a própria imagem arranhada diante das outras pessoas, além de não ter que abrir mão de nada. Quando menos se percebe, a traição já está acontecendo dentro da própria casa, com um(a) amigo(a) próximo, um membro da família, adentrando o território do "sagrado", o que é muito doloroso. E nunca é fácil lidar com uma dor dessa natureza.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL