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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como descobri que criaram um perfil fake meu em um app de relacionamento

skyNext/Getty Images/iStockphoto
Imagem: skyNext/Getty Images/iStockphoto
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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

14/09/2021 04h00

Liliane Troncoso tem 38 anos. Seu perfil no app de relacionamentos Jaumo está linkado ao perfil no facebook. Como foto de fundo, uma bancada de madeira e alguns livros. Sobre ela, dados tímidos: mora no Rio de Janeiro, estudou nas Faculdades Integradas Simonsen, frequentou o Colégio Adn. Um ou dois posts com frases de autoajuda, nenhuma outra foto, além do perfil. Quase recatada, eu diria. Nós duas não temos quase nada em comum a não ser pela foto do perfil. Ela usa uma imagem minha, roubada da internet, para se identificar.

Descobri o perfil dela pois a tal da Liliane estava conversando com uma outra mulher, ambas a procura de afinidades em comum. Liliane falou de sua vida como professora, sua paixão pelos livros e seu encanto pelo mar. Vivian falou sobre a sua rotina com o trabalho e o filho do primeiro casamento, desfeito quando ela pela primeira vez se apaixonou por outra mulher. A cada bate-papo, iam descobrindo uma nova porção da outra e a chama de interesse ia aumentando. Vivian tinha a impressão de já tê-la "visto" em algum lugar, pela foto, embora nunca tenha visitado o Rio de Janeiro. Um dia, assim como por acaso, estava assistindo televisão e deu de cara com ela! ... ou melhor eu.

Sim, a tal Liliane era eu, ou melhor uma foto minha em um perfil criado, sabe Deus por quem. Alguém que me achou bonitinha, do tipo de mulher com cara de confiável para um relacionamento sério. Ou alguém que tem cara de fazer sexo enlouquecidamente em cima da tal bancada dos livros, não sei.

Não era a intenção usurpar-me a identidade, só a foto mesmo. Fico aqui pensando que tipo de pessoa faria isso: um homem que se passa por mulher, para trocar papos quentes com outra, projetando a sua tão comum fantasia masculina; uma mulher que não se julga assim tão atraente e se arvora da foto alheia; alguém que quer ser como eu (que medo); alguém próximo que tava a fim de me sacanear.

Não consegui dados estatísticos sobre perfis fakes na rede, nem sobre falsidade ideológica virtual (a não ser que pode dar 5 anos de prisão!), mas notícias sobre os estragos que uma foto ou vídeo compartilhada por alguém, sem autorização do usuário, podem causar: são dezenas de adolescentes (em sua maioria) que deixam a escola e mudam de bairro, por que não aguentam a pressão dos colegas desde que uma foto ou vídeo de sua intimidade foi viralmente compartilhada, até as que se suicidam pelo mesmo motivo.

Ok, não somos adolescentes, mas estamos todos sofrendo de uma crescente e descontrolada banalização do mal, como conceituou Hannah Arendt no meio do século XX. Praticamente nos afastamos da nossa capacidade de sermos piedosos e, como ressalta o pensador contemporâneo Theodor Adorno, nos tornamos insensíveis e apáticos com a dor, o sofrimento e a miséria alheia. Somos convidados a compartilhar da experiência brutal e uniforme da modernidade.

Participando de alguns grupos de whatsapp, quantas fotos você recebeu e compartilhou, de pessoas públicas em situações vexatórias? Manipuladas e editadas para fazer "rir". Ou melhor, quantas outras explicitamente sexuais, intimidades expostas, que não se sabe de onde vem, se da indústria pornográfica ou do celular de alguém movido pela raiva, inveja ou falta de sensibilidade com a privacidade alheia?

28% dos homens ouvidos pela pesquisa realizada pelo Data Popular/ Instituto Avon em 2014 afirmaram ter repassado imagens de mulheres nuas aparentemente produzidas sem autorização que receberam pelo celular, sejam elas fotos ou vídeos. Não encontrei dados atualizados, mas imagino que esse número tenha crescido exponencialmente.

Um amigo do meu marido, a procura de sua cara-metade, podia ter "me encontrado" no tal Jaumo. Alguém da família. Um paciente. Eu poderia ter tido algum problema mais complexo, do que só ligar para o advogado para ver se valeria ou não a pena mover uma ação. Sim, a internet tem dessas coisas. A foto estava lá, em uma reportagem da qual participei. Qualquer um tem acesso. Mas atrás da foto, um "corpo objeto", aparentemente distante de você, tem eu, a minha história. Tem a pessoa da Maria, a pessoa do Pedro, a pessoa do João.

Eu não tenho respostas, tenho perguntas. Não sei até que ponto, em nome do "é assim mesmo", "são os novos tempos" ou do "é só uma piada", estamos todos a cada dia menos éticos e sensíveis. A você, Liliane Troncoso, 38 anos, coragem. Porque se eu me retiro de sua meia-vida, terá que, ao que parece, lidar com a grande dificuldade de enfrentar a si mesma(o).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL