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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

É possível ter prazer em uma primeira experiência sexual?

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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

24/08/2021 04h00

A iniciação sexual, frequentemente traduzida como "primeira vez", guarda significados complexos. Pode ser considerada a experiência do sexo anal, do sexo oral, ou da penetração vaginal, pode ser sentida como positiva, negativa e também banal.

No Brasil, a preocupação de grande parte da população adulta, ainda reside na prevenção da gravidez indesejada ou ISTs. Palavras como autonomia, consentimento, negociação, habilidade erótica são adotadas por uma mínima parcela da população. Prazer sexual é um território explorado no mundo digital, muitas vezes desassistido de orientação, e você não encontrará mais que 10% de escolas que se debruçam a trabalhar o tema.

Início sexual precoce e experiências negativas na primeira relação sexual têm sido associadas a maior vulnerabilidade de saúde emocional e física. Do contrário, experiências iniciais positivas estão mais relacionadas a comportamentos contribuintes para melhor saúde sexual, que envolve prazer físico, satisfação emocional, percepção de direitos respeitados, consentimento, segurança, privacidade, autodeterminação e comunicação com as parcerias.

Segundo alguns estudos, especificamente o prazer desempenha um papel significativo na promoção do uso de anticoncepcionais e profilaxia pré-exposição (PREP). Além disso há evidências que a educação focada no prazer, a nossa maior lacuna, tem sido um aspecto relevante para promover autoestima e comportamentos associados positivamente a saúde sexual.

Uma revisão de 23 artigos, publicada recentemente no periódico The Journal of Sex Research conduzida pelo Conselho Consultivo Global para Saúde sexual e bem-estar (GAB) buscou compreender o papel do prazer sexual nas pesquisas sobre iniciação sexual. Uma série de aspectos foram levantados pelos pesquisadores sobre as investigações que entraram na revisão: falta de uma definição clara sobre o que é prazer sexual, principalmente quando ele é autorrelatado pelos jovens ou pré-determinado pelos pesquisadores; condições socioeconômicas favoráveis ou não; significado de "primeira vez".

Ressalto que "Perder a virgindade" ainda é um termo bastante utilizado, embora seja um conceito que historicamente reduz a experiência a uma única vez que contemple penetração, atravessado por um fortíssimo viés de gênero. Aliás, um achado unânime entre os estudos foi justamente o duplo padrão moral sexual ainda presente na iniciação sexual de adolescentes e jovens.

As determinantes de gênero da experiência de prazer, vinculados aos vieses heteronormativos e misóginos, fazem com que rapazes experimentem mais sensações positivas e de prazer, por corresponderem ao status masculino de conquista, poder e aceitação do grupo, do que para as meninas, que relataram mais frequentemente vergonha, pressão, dor física, arrependimento e culpa sobre sua experiência. Se mulheres jovens são incapazes de dar significado positivo ao seu desejo sexual, é menos provável que experimentem prazer na primeira relação sexual.

Infelizmente, em nosso país, é justamente a abordagem sobre o conceito de gênero que tem sido fortemente combatida pelos grupos conservadores, contrários a educação sexual emancipatória. Em vez de levantar a discussão sobre os significados das diferenças em relação a iniciação sexual de meninos e meninas, algo que sim, dá trabalho, exige mudança de pensamento, quebra de paradigmas, enfrentamento de machismo, sexismo, mudança na linguagem e dos comportamentos em todas as esferas sociais, se propõe abstinência sexual como maneira de "contenção".

Voltando ao estudo, as frases mais comuns usadas para definir prazer foram satisfação (fisiológica, sexual ou emocional), felicidade. Outras reações emocionais continham elementos positivos e negativos e também neutros, como "estranha". São momentos complexos nos quais os jovens "anseiam por intimidade, excitação, posição social, prazer e idade adulta; entretanto, onde encontram essas coisas, também frequentemente encontram culpa, dor, vergonha e arrependimento"
A idade não foi um determinante conclusivo na experiência de prazer, mas sim a prontidão dos indivíduos e o sentido que dão ao sexo. Conhecer as expectativas de alguém, ter entendimento do que o prazer significa para si mesmo e possuir uma ideia de quais poderiam ser os ambientes pessoais e sociais mais propícios para essas experiências, parece fazer toda a diferença na experiência de prazer da iniciação sexual.

Atitude parental de apoio sexual, com diálogo aberto ajuda na organização desses conceitos e expectativas, além de favorecer maior conscientização sobre prevenção. As meninas ou mulheres jovens que conversaram com seus pais antes de fazer sexo pela primeira vez eram mais propensas a navegar e se opor aos roteiros sexuais heteronormativos associados ao início da vida sexual.

Os autores da revisão reforçam que discussões explícitas sobre prazer no início da vida sexual podem ajudar a entender quais são suas expectativas de se sentirem confortáveis, afirmar melhor seus interesses sexuais e recusar sexo indesejado. Habilidade erótica (como se masturbar, respeitar o desejo do outro, levar a outra pessoa ao orgasmo) aumenta a confiança sexual, e ajuda a combater a estranheza.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL