PUBLICIDADE

Topo

Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Dia do Solteiro: entenda o 'singlism', o preconceito contra os solteiros

Dia 15 de agosto é comemorado o Dia do Solteiro - AaronAmat/Getty Images/iStockphoto
Dia 15 de agosto é comemorado o Dia do Solteiro Imagem: AaronAmat/Getty Images/iStockphoto
Conteúdo exclusivo para assinantes
Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

15/08/2021 12h27

Hoje, dia 15 de agosto, data reservada para comemorar o Dia do Solteiro no Brasil, resolvi falar sobre o Singlism. O conceito cunhado pelas psicólogas americanas Bella De Paulo e Wendy Morris, em 2005, caracteriza a discriminação que recai sobre os solteiros, uma conjunção de estereótipos e ideias pré-concebidas sobre a solteirice.

Mesmo que o casamento já não seja uma ordem social estrita e novos formatos de relacionamento contemplem necessidades distintas da monogamia, pessoas solteiras continuam alvo de uma série de discriminações e estão constantemente sofrendo algum tipo de prejuízo invisibilizado socialmente.

Embora possam usufruir de independência econômica, há uma série de benefícios legais e sociais só destinados aos casados ou pessoas com filhos. Solteiros sofrem mais para comprovação de renda para negócios em geral. Mesmo que tenham direitos adquiridos sobre adoção de filhos, não é incomum serem avaliadas socialmente como menos capacitados para a tarefa, em comparação aos casais.

Com frequência mães e pais solos recebem olhar enviesado ou de comiseração. Solteiros são mais solicitados para ficar mais horas no trabalho sendo que suas horas vagas, de lazer ou descanso, são constantemente desvalorizadas.

Vários estudos demonstram que socialmente a solteirice é compreendida como uma fase da vida com data certa para acabar. Espera-se que a partir dos 30 anos as pessoas comecem a estrutura a vida em torno de um par amoroso. Quando se faz um recorte de gênero, isso fica ainda mais complicado: mulheres solteiras jovens são avaliadas de maneira mais positiva do que as mulheres acima de com 40 anos.

O estigma da solteirona ainda é uma realidade vivida por muitas mulheres, que tem que aguentar de sua família, amigos e colegas comentários reiterados sobre a necessidade de encontrar alguém. O estereótipo inclui a situação de "encalhada", a desconfiança de ser "sapatão" (usado nesses casos como um demérito) ou o julgamento negativo sobre uma suposta "promiscuidade".

Salvam-se as mulheres com mais alto status econômico, na medida que são positivamente avaliadas por seu poder como consumidoras, o que não as excluem também do julgamento de incompletude (Tem tudo, mas não tem amor). A pressão em ser uma pessoa solteira é certamente maior para mulheres do que para homens.

Nos estudos de De Paulo e Morris sobre a percepção social de pessoas solteiras, revela-se que elas são vistas como tímidas, infelizes, solitárias, inseguras e inflexíveis. Já ouvi também adjetivos como egoístas e imaturas. Em contrapartida os casados parecem mais felizes, amorosos, estáveis, carinhosos/cuidadosos, bondosos e comprometidos. O que sobra de positivo para as pessoas solteiras são os adjetivos mais relacionados à vida social: amigáveis, sociáveis, divertidos, além do óbvio independentes.

Quando uma pessoa é solteira por escolha, é ainda avaliada mais negativamente do que a outra que está por circunstância. Desajustadas no primeiro caso, coitadas no segundo.

Essa visão pré-concebida sobre a solteirice, revela que, o modelo de amor romântico ainda está atrelado a noção de satisfação pessoal, ou seja, acredita-se que para se ter uma vida plena, se faz necessário viver em conexão amorosa com alguém, nem que se tenha que perder o bom humor e renunciar à vida social.

Esse tipo de concepção sobre solteiros faz parecer frívola a experiência de prazer no contexto da amizade e da diversão, em detrimento ao compromisso de uma vida a dois. Como se as pessoas solteiras não pudessem contribuir com mais nada do que sua força laboral para o crescimento da nação e vivessem à margem, à espera, na falta.

Pessoas solteiras que se detém no aspecto negativo associado ao seu estado civil podem afastar-se dos que pertencem ao grupo majoritário (casados), como se esta relação fosse desconectada e não houvesse características comuns para serem partilhadas.

Alguns solteiros têm receio, inclusive, de provocar mal-estar, como se a sua condição de liberdade sexual seja uma ameaça constante para a ocorrência da infidelidade no casal. Dessa maneira, a fim de evitar esse abismo e buscar incluir-se na "norma", acabam se envolvendo em relações amorosas insatisfatórias.

O trabalho identitário de uma pessoa solteira necessita de reconfiguração: para resistir ao singlism, é preciso encontrar uma maneira de sentir-se pertencendo ao ambiente social, sem um olhar de autopiedade ou de constante alerta sobre as relações.

A boa notícia é que a existência de uma rede de relações afetivas positivas e uma experiência cotidiana prazerosa tem sido apontadas como preditores de satisfação geral com o viver, na maior parte dos estudos sobre bem-estar pessoal, independente do estado civil das pessoas. Bem-aventurados e vida longa (e feliz) aos solteiros resilientes!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL