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Ana Canosa

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Ele vestiu a calcinha da namorada no sexo e descobriu um fetiche do casal

OceanProd/Getty Images/iStockphoto
Imagem: OceanProd/Getty Images/iStockphoto
Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

17/07/2021 04h00

Marcelo tem 48 anos e tinha a fantasia de usar calcinha feminina durante a relação sexual com uma mulher. Um dia, em uma manhã de um fim de semana de outono, com o clima esquentando na cama, perguntou para Kelly, a namorada da época, se poderia vestir a calcinha dela. Ela reagiu com os olhos brilhando: Você? Em seguida, ela lhe entregou a própria calcinha e ficou observando Marcelo vesti-la.

Vestir a calcinha o excitou muito: a textura, o tamanho, a aparência. Cúmplices no desejo dele, se entregaram para um sexo cheio de excitação, com Marcelo usando a calcinha de Kelly. Imediatamente, depois da transa não falaram nada, mas no café da manhã riram da experiência singular.

Injustiça delegar o título de "primeira vez" para a data da primeira penetração, de quando se "perde o cabaço", por assim dizer. Durante a vida sexual há algumas primeiras vezes, pelo inusitado, pela intensidade, pela conexão, pela experimentação. E aquela teria sido uma situação dessas, bastante significativa para os dois.

Durante a mesma semana, Marcelo teve vontade de reviver as sensações e veio a ideia de comprar uma calcinha para si. Com vergonha de entrar em uma loja de lingeries, foi em um hipermercado e comprou um pack com 3. No dia seguinte, estreou a peça nova por debaixo da roupa de trabalho. A calcinha, que era tamanho G, o apertava o que o deixava ainda mais excitado.

No fim de semana foi ao encontro de Kelly usando cueca, mas à noite em casa, depois de terem feito sexo, comentou com ela sobre suas novas aquisições, e Kelly ficou entusiasmada para ver. Novamente transaram com Marcelo vestindo a peça feminina.

Uma nova frente de excitação e ludicidade deu colorido ao sexo do casal. Marcelo enviou foto usando uma calcinha debaixo da roupa social, foram às compras juntos para a aquisição de novos modelos, e chegaram a ir ao cinema curtindo a ideia de partilharem um "segredo" do casal, aquele que estava debaixo da calça jeans dele.

Quando o relacionamento acabou, por outras razões que não o sexo, ele contava com uma pequena coleção de 7 peças em vários modelos (tangas, caleçons, biquínis...), texturas (rendas, lisas) e cores (brancas, pretas)...

Lingerie feminina sempre foi socialmente erotizada e calcinhas são de longe a peça mais comum dos fetichistas que se excitam com vestuário. Embora não seja tão prevalente esse gosto por objetos inanimados, algumas mulheres podem se excitar com sapatos e underwears, mas no caso específico de Kelly, parece que era todo o contexto erótico que a excitava. Já para Marcelo, vestir a calcinha não era exatamente um fetiche, mas sim a gratificação ao usar o vestuário que expressa um gênero diferente da sua identidade.

Todo aquele visual o excita: ver o pênis depilado debaixo da calcinha, a alça fininha na cintura, passar a mão sobre o pênis com o tecido da calcinha, seja renda ou não, ver as cores. Além de gostar se ver no espelho, Marcelo adorava perceber que Kelly gostava do que via também. Na época do namoro deles, ele era maratonista e treinava 4x por semana e tinha um físico magro, mas bem definido, e o contraste com a calcinha os excitava.

Marcelo nunca sentiu vontade de ter sexo com outro homem; a experiência com a lingerie tem relação com a expressão de gênero, não com a sua identidade ou orientação sexual. Há mesmo um certo fascínio no corpo híbrido, que incorpora atributos de performance masculina e feminina. Na exigência de recusar tudo o que parte da feminilidade, alguns homens encontram uma via de alívio, contradizendo e desafiando a lógica de uma masculinidade encouraçada e dura (com o perdão do trocadilho).

Atualmente Marcelo é casado com Mônica, que não demonstrou nenhum interesse pelo desejo dele. Ele a ama profundamente, mas sente falta da "picância" no sexo. Achei curiosa essa palavra (pica + ânsia) que ele escolheu para descrever a falta de adrenalina que ele tem no sexo com a companheira atual, a emoção de ultrapassar limites e transgredir normativas sociais.

Para quem tem uma "pica desejante", como ele, delimitar a atividade sexual em práticas tradicionais e reguladas, onde os desejos ditos diferentes tenham que ser excluídos, é de fato um tanto frustrante.

Seu maior anseio, não é só sair de calcinha por aí, mas trazer Mônica para participar dessa sua diversão, legitimando o seu erotismo. Resta saber se para ela a imagem do marido de calcinha é broxante, ou revela o medo de adentrar um terreno que julga movediço. Compreendo e não julgo, mas vale a pena repensar se a abertura para experiências sexuais, com quem se ama, não ajudaria a melhorar a satisfação sexual de um casal.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL