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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mesmo com nu masculino e foco no desejo feminino, Sex/Life cai em clichês

Série Sex/Life explora sexualidade feminina pós-maternidade e está entre as mais vistas da Netflix - Reprodução / Internet
Série Sex/Life explora sexualidade feminina pós-maternidade e está entre as mais vistas da Netflix Imagem: Reprodução / Internet
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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

06/07/2021 04h00

O nu frontal de Brad (Adam Demos), o protagonista bad boy da série Sex/Life, é o assunto mais comentado no momento. Mas a série da Netflix, que estreou em junho e segue nas mais vistas da plataforma de streaming, tem muito mais do que isso: cenas de sexo, nas quais o protagonismo é feminino.

Não contei, mas os vários takes de sexo oral e masturbação são maciçamente e maravilhosamente realizados na mulher. Tem para todos os gostos: na piscina, no sofá, no elevador, na escada de incêndio, em posições diferentes. O desejo sexual feminino heterossexual é a tônica de Sex/Life.

Embora Billie (Sarah Shahi), a protagonista, não sugira que sua obsessão pelo sexo com o ex-namorado Brad esteja relacionada ao tamanho do membro dele, o fato de ligarem o super falo ao homem desejante e desejado, já é um mega clichê. A cena em questão não é erótica, então dá tempo para você dizer "Nossa!", olhar de novo e colocar em dúvida se seu "Nossa" é de regojizo ou temor. Sobre a cena, aliás, diretora e atores guardam um segredo: garantem que não é um dublê de pênis, mas quem sabe um efeito da computação gráfica, ou os genitais do ator mesmo.

Sexlife acompanha a lógica feminista dos últimos tempos: é uma adaptação de um romance escrito por uma mulher (B.B. Easton), tem quatro mulheres dentre os seis escritores e é dirigida por uma diretora (Stacy Rukeyser). A atriz principal tem origem iraniana e a atriz coadjuvante é uma linda mulher preta, que encarna Sasha, uma personagem dona de si, autônoma e bem-sucedida.

Aliás, diversidade racial e empoderamento também perfilam outra personagem, desta vez oriental: Francesca, a poderosa chefe de Cooper, marido de Billie. Infelizmente erram feio quando fazem sair da boca dela a seguinte frase: "Sabe como é raro para mim encontrar alguém que pareça um companheiro de verdade?" - arriscando que se reforce o bordão: mulher de sucesso está fadada a solidão.

A estética dos corpos ainda segue o padrão de gente magra, proporcional e sarada, embora na cena de suruba - sim suruba temos também - ao longe você perceberá homens carecas, mulheres lésbicas, casais mais velhos e um pouquinho de flacidez e celulite.

O dilema central também é o tema do momento: monogamia ou não-monogamia, eis a questão. Billie, a protagonista, acredita na relação monogâmica como uma possibilidade de satisfação sexual e emocional até que passa a sentir falta da explosão sexual vivida com o ex-namorado Brad, por olhar ao redor e só se reconhecer como esposa e mãe.

Ela ama Cooper, que anda acomodado com a pacata vida em família, mas sente falta de quando era livre, desejante e sexualmente ativa. Retratar um homem com pouca libido, impactado pelo combo trabalho - casamento - paternidade, é uma boa ideia, pois estes homens estão por aqui aos montes, e precisamos falar deles. Afinal não são só as mulheres que se desinteressam pelo sexo e lançar luz sobre isso é um serviço a população.

Mas o enredo erra feio quando reforça o clichê marido bonzinho x amante problemático e manipulador. O perfil do homem desejante, que é poderoso, mas enigmático e de caráter duvidoso, já tão abordado em filmes como 50 tons de cinza e 365 DNI, é reproduzido aqui, talvez porque ainda faça um sucesso absurdo entre as mulheres, o que é cansativo, previsível e broxante.

Embora o desejo e a autonomia feminina estejam em perspectiva, Sex/life acaba associando sexo delicioso ao homem manipulador e abusivo quando dá foco ao dilema de Billie, acorrentando sua sexualidade a um drama emocional. Parece que ser sexualmente livre é, no final das contas uma missão impossível, pois sempre haverá para a mulher uma jornada desgastante.

No lugarzinho de psicóloga do parceiro, ela tenta salvá-lo, a esperar que o sujeito irresistível mude seu caráter, que revele sua parte doce, abandone o seu espírito errante e defensivo e resolva então se comprometer. Para piorar, o drama do casal primário (Billie e o marido Cooper) é conduzido de maneira pouco convincente, e fica a sensação de que o desejo feminino coloca tudo a perder, descarrilha qualquer bom moço, como Eva no Paraíso, a que foi responsabilizada pelos pecados do mundo, lembra? Preguiça. Assista sem muita expectativa e aproveite a parte sexualmente inspiradora.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL