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Ana Canosa

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Satisfação sexual no casamento: é possível equilibrar o desejo de um casal?

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Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

29/06/2021 04h00

Equilibrar o ritmo sexual em um casal, é talvez o maior desafio nos relacionamentos de compromisso. Quando a questão se apresenta, a insatisfação diante das negativas daquele que não quer mais fazer sexo como antes, promove no desejante não só a impossibilidade de descarregar tensão sexual, mas o incômodo sinal de que a parceria não o está desejando mais.

Com frequência, isso promove insegurança e produz muitas fantasias, sendo a da infidelidade a mais comum. Em contrapartida, um casal de longuíssimo tempo já sabe que o ritmo tende a diminuir e que o desejo passará por fases de menor e maior presença no relacionamento e estabelecer uma maneira saudável de resolver a discrepância de desejo sexual entre as partes pode ser a solução para ter satisfação sexual no casamento. Nem violência, nem afastamento, nem relação extraconjugal, nem ficar de bico parecendo criança por um mês. Há outras maneiras mais interessantes para engajar a sua parceria no ato sexual.

Um estudo publicado em 2020 na Archives Sexual Behavior, identificou as estratégias que os indivíduos em relacionamentos de longa duração usam durante os momentos de discrepância de desejo e verificou se o uso de estratégias específicas influenciava a satisfação sexual e de relacionamento e o desejo sexual.

A masturbação foi a estratégia mais comumente utilizada, sendo que muitos participantes relataram que a prática pode promover bastante excitação quando é realizada na presença da parceria. Aqui, a masturbação tem uma função de redução de tensão sexual, porém não substitui o prazer da relação sexual com a outra pessoa, nem aumenta os níveis de satisfação sexual.

A segunda estratégia mais relatada pelos casais quando um dos envolvidos não está tão interessado em sexo é encontrar práticas alternativas para a relação sexual, como sexo oral, masturbar o parceiro ou oferecer-se para usar sex toys no outro. É interessante apontar que a maioria dos casais ainda entendem fazer sexo como algo que envolva prática penetrativa, o que às vezes acaba problematizando a sexualidade do casal desnecessariamente.

Como a maior parte das pessoas fica contabilizando as vezes que transa, alguns até anotam no calendário para depois provar a parceria que há algo de errado com ela, desconsiderar práticas não penetrativas não ajuda no placar, não é mesmo?

Aliás, não só as práticas ditas "preliminares" são 'sexo" e ajudam na satisfação sexual, como substituir a intimidade sexual por uma intimidade física, com beijos, abraços e carinhos alimenta a necessidade física de contato. Portanto, repelir fisicamente por si só a parceria desejante nunca é uma boa opção.

Tentar desencadear o desejo da parceria, ou se permitir a ser mobilizado pelo outro é uma estratégia que também funciona às vezes, principalmente quando a discrepância do desejo já é conhecida do casal e a frustração quando a estratégia não funciona, não vira mau humor e ameaça de vínculo (ficar horas sem falar ou sendo frio com aquele que recusou a investida).

É preciso uma mudança de mentalidade para essa estratégia funcionar. É uma questão de se abrir a ser "convencido" pelo desejo da parceria, a fim de usufruir do momento que está por vir. Isso é diferente de ir para o sexo como se estivesse indo ao matadouro. É pensar #porquenão? Se no final me faz feliz, me alegra a alma e me promove prazer, o casal passa de uma condição desnivelada para a possibilidade de diversão conjunta.

A comunicação também foi uma estratégia importante, a fim de compreender o ritmo de cada um e o que motiva o desejo individual: horários favoráveis, apelo dos hormônios, as situações eróticas que estimulam. Aqui também entram os sinais: será que estão claros? Uma brincadeira sexual, quer dizer só uma piadinha, ou uma intenção real? Lembrando que a comunicação que produz raiva, através da reclamação, nunca é uma forma inteligente.

Ter relações sexuais de manutenção para proteger os sentimentos da parceira ou preservar a relação, também são estratégias utilizadas, muito embora se realizadas só como um "dever" podem não ser sustentáveis a longo prazo.

Os participantes da pesquisa que se comunicavam (57,1%), realizavam outra prática juntos (53,8%) ou adotavam o #porquenão? (57,9%), consideraram as estratégias muito úteis para o enfrentamento da discrepância do desejo. Já os participantes que não fizeram nada em conjunto com a parceria, tiveram níveis mais baixos de satisfação sexual e com o relacionamento, em comparação ao grupo que usou estratégias. Os participantes que usaram qualquer estratégia apresentaram níveis mais elevados de satisfação sexual. Por isso, abordar a diferença no ritmo sexual se faz fundamental nos relacionamentos, e descobrir quais as estratégias podem funcionar mais e melhor.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL