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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Não me peça para mudar meu corpo só para te agradar

Cada um deve seguir o próprio caminho de bem-estar e autoestima - iStock
Cada um deve seguir o próprio caminho de bem-estar e autoestima Imagem: iStock
Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

01/06/2021 04h00

Eu tenho tentado aceitar o envelhecimento, embora ele literalmente me doa às vezes. À porta de comemorar 53 anos, eu já não consigo fazer tanto esporte como antes e, confesso, tenho mais preguiça e dores em vários lugares, o que aumenta a vontade de assistir Netflix. Todos os sinais da maturidade já apareceram, como a flacidez da pele, as rugas, o rarear dos cabelos, as manchas nas mãos. A menopausa me ronda e eu tenho medo dela, mas estou trabalhando com afinco para encará-la e cuidar da minha saúde física, sexual e emocional. Minha sorte é ter muitos bons amigos, alunos e colegas no meu entorno, além da família, para desabafar e rir de mim mesma.

Eis que chegou a pandemia e eu percebi que meus cabelos, já finos e poucos por natureza, pararam de cair. Certamente que para quem tem couro cabeludo sensível como eu, por melhor que seja a tinta, o cabelo fragiliza. Deixei os cabelos brancos crescerem e decidi assumi-los de vez.

Mas a resistência veio de todos os lados. Do cabeleireiro, que mandava mensagens do tipo: "vamos colorir os brancos?", ao meu pai, que ao me ver pela primeira vez na TV, depois de rasgar elogios orgulhoso, como ele sempre faz, me disse que faltava uma "rinssagenzinha" nas madeixas. Chegamos à conclusão que o meu envelhecimento escancarado acabava fazendo-o lembrar do dele, o que também não é tão fácil de admitir. Crescemos juntos nessa.

Eu já imaginava que muitas pessoas iam estranhar, mas eu já estou vacinada. Escuto com frequência, principalmente dos queridos feirantes do meu bairro, que eu estava "lindona" na TV e que quase não me reconheceram, haja vista que eu vou à feira depois da academia, com a cara lavada há muitos anos. Agora nem a cara, pois com máscara o que gritam são mesmo os fios brancos. Imagino a pressão sobre as mulheres que se sentem na obrigação de, no cotidiano, parecer igual ao que estampam na TV. Uma prisão sem fim.

Mas o ápice do meu desconforto reside quando alguém me pede para pintar os cabelos, especialmente quando são mulheres que, como eu, deveriam estar fazendo o sentido oposto, legitimando uma corporeidade real, sem ter necessidade de corresponder aspirações sociais. Você pode ter liberdade de me achar feia, pensar que os cabelos brancos me envelheceram e preferir meus cabelos pintados, mas não me peça para mudar meu corpo só para te agradar, que isso é o cúmulo da inversão de valores. Se é para me aceitar, o faça a partir de quem eu sou, e não do que eu espelho para você, das suas próprias projeções.

A resistência é tanta, que com frequência as pessoas caçam uma foto minha na internet, normalmente alguma feita por profissionais para campanhas de programas que eu já fiz, cheias de photoshop, nas quais pareço alguém que não sou. E mesmo que eu mande a foto mais atual, aquela que me representa, colocam outra. Ignoram completamente meu desejo de parecer comigo mesma. Atualmente, quando me convidam para qualquer programa de TV eu já saio avisando: olha, não vou pintar os cabelos, então veja aí se o povo suporta essa ideia, que eu não sou obrigada a aguentar a indignação alheia com a minha imagem.

Por outro lado, os cabelos brancos inspiram experiência e credibilidade, a parte boa da coisa para quem está formada há mais de 30 anos. Reconhecimento eu tenho, embora muitos façam questão de me lembrar que minha atualização de imagem está sendo uma ameaça ao lugar conquistado. Eu passei de bonita para charmosa, nos comentários das pessoas generosas e de bom coração, o que já é um passo, ao menos, finalmente, cheguei no mesmo patamar dos homens grisalhos.

Não sou contra ninguém fazer botox, preenchimento, plástica, colocar aplique no cabelo, eu mesma uso com parcimônia alguns benefícios disponíveis, cada um que siga o seu próprio caminho de bem-estar e autoestima, mas me deixem, por favor, seguir o que eu escolhi. Aos incomodados, eu sugiro fortemente a psicoterapia, pois devem estar sofrendo com o envelhecimento muito mais do que eu.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL