PUBLICIDADE

Topo

Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sexify: sucesso da Netflix mostra jornada feminina para compreender o sexo

Em "Sexify", três jovens mulheres se unem para criar um app para desvendar a fim de inventar um algoritmo para o orgasmo feminino. - Reprodução / Internet
Em "Sexify", três jovens mulheres se unem para criar um app para desvendar a fim de inventar um algoritmo para o orgasmo feminino. Imagem: Reprodução / Internet
Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

15/05/2021 04h00

A série polonesa "Sexify", que estreou na Netflix em abril, é um retrato interessante sobre a jornada sexual feminina em busca do prazer. Três jovens bem diferentes no que tange à sua sexualidade se unem para criar um app a fim de inventar um algoritmo para o orgasmo feminino.

Uma delas é aficionada por ciências e tecnologia e não tem nenhuma experiência sexual; a outra está vivenciando o drama de se perceber atravessada pelo amor, mas claramente insatisfeita com um noivo que não faz outra coisa que não a penetrar durante a relação sexual. Já a terceira faz sexo para aplacar um certo vazio existencial, com pouquíssima conexão, fingindo a maioria dos seus orgasmos; só consegue tê-los se pensar no ex-namorado. Se não fosse pelo objetivo em comum, provavelmente nem manteriam uma amizade mais próxima.

Não será incomum, como mulher, ao olhar para as próprias vivências ao longo da vida, se identificar com alguma das três jovens, se não com todas elas. As pessoas podem experimentar através do sexo sentimentos muito distintos. Ora é a necessidade de ser desejada, ora uma maneira de agradar o parceiro, ora uma forma de rebelar-se contra o "sistema" e enfim, quem sabe, se tudo der certo, uma vontade legítima de sentir prazer.

É muito interessante perceber como a sexualidade nos faz entrar em contato com emoções que nem sempre são percebidas em outras dimensões da vida. Como a natureza do desejo a priori não tem moral, todo e qualquer julgamento, seja o que você faz sobre você, ou sobre as outras pessoas, está atravessado pelas concepções do que aprendemos que é certo ou errado, inadequado ou não.

Seja na interação com as parcerias, ou mesmo quando visitamos nossos segredos mais íntimos durante o autoerotismo, é no sexo que nos percebemos, para além de sexies, criativos, potentes e amorosos, possessivos, egoístas, narcisistas, submissos, agressivos, incompetentes, frágeis, feios, abjetos, repulsivos, esquisitos e, até quem sabe, previsíveis. A experiência sexual durante a vida nunca será sem dilemas. Para as mulheres, a moral sexual foi ainda mais rígida e a vergonha talvez tenha sido um dos sentimentos mais presentes.

Sexify rende empatia e diversão, além de promover a irmandade feminina diante das descobertas sexuais, algo fundamental para o desenvolvimento das mulheres, que muitas vezes se sentem solitárias e envergonhadas diante de suas inquietações.

Ao longo dos episódios fica claro porque as estatísticas mundiais revelam que cerca de 25% das mulheres não têm orgasmos em suas relações sexuais. Falta de educação sexual, reforço do modelo de amor romântico, preconceito com a masturbação feminina, valorização do prazer masculino.

A série revela, através da investigação das 3 protagonistas, como o orgasmo da mulher se tornou um problema complicado, haja vista todas as crenças que distorceram a sexualidade feminina. É uma versão interessante de "Sex Eeducation", focada no tema do orgasmo. Recomendo, inclusive para adolescentes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL