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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Propaganda enganosa no sexo: você já caiu ou fez uma dessas?

Não dá para esperar o tesão do começo sempre, mas tem como manter o desejo em alta. - iStock
Não dá para esperar o tesão do começo sempre, mas tem como manter o desejo em alta. Imagem: iStock
Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

06/04/2021 04h00

Quem de nós já não experimentou a impressão de ter levado gato por lebre? Quem nunca se sentiu meio traído, por uma propaganda enganosa, quando as parcerias, que antes amavam o esporte, deixam de fazer sexo conosco na cozinha, na rua, nos parques, no elevador do condomínio, restringindo aos domínios do quarto de dormir? Quando a frequência passa de 2 vezes ao dia, para 2 vezes na semana, depois 2 vezes no mês e por fim o sexo que acontece a cada dois meses.

Passam a negar o que antes parecia motivo de alegria e êxtase. No começo a recusa aparece com carinho, hoje estou cansado, amanhã a gente transa... agora não, preciso trabalhar...os vizinhos podem ver...estou preocupado, estressado, tenso...,mas esse dia, em que tudo promete estar dentro de uma perspectiva adequada para transar, demorar cada vez mais a acontecer.

Mais difícil quando você percebe que a pessoa faz de tudo para evitar o momento de estarem juntos relaxando, sem interferências, vai dormir mais cedo, levanta-se da cama correndo, evita beijos durante o dia e até cafuné vendo filme.

Que uma certa diminuição na atividade sexual aconteça, quando a paixão vai se esvaindo, dando prioridade a aspectos mais fraternos do amor, isso já sabemos. Mas em alguns casos, essa diferença pode ser grande a ponto de inviabilizar o relacionamento.

Para quem sexo é componente vital da relação, há um limite a suportar. Equilibrar masturbação com frequência do sexo a dois é sempre a saída mais comum, mas como eu sempre falo, há muitas motivações para a prática sexual, que vão além da descarga de tensão sexual. Intimidade, ser desejado e desejar, ser amado e amar, são algumas delas, as quais masturbação nenhuma dá conta de alimentar.

Também é fácil dizer: abra a relação, quando a questão não é transar livremente, mas transar mais e livremente com quem se gosta.

Claro que é possível resgatar a atividade sexual de quem tem química, sexo de qualidade e disposição, mas os casais às vezes levam muito tempo para conversar, sem despejar no outro emoções exageradas ou acusações sem fim. A frustração da falta de sexo atinge a todos e todos, mesmo as pessoas que não privilegiam tanto assim a atividade sexual. Embora o declínio possa acontecer de ambas as partes, é impressionante como a falta de ser desejada (o) é capaz de cegar.

Das reações menos produtivas, eu destaco as pessoas que enraivecem e promovem discussões acaloradas; e os que não brigam, mas silenciam mortalmente com frieza, tornando o cotidiano difícil de sustentar. Ainda na categoria da raiva, há quem puna a parceria, adotando atitudes mesquinhas, egoístas, atacando sempre que encontra alguma brecha, diminuindo o outro. O afastamento sexual também frequentemente promove tristeza, e há quem chegue a viver como se a relação já estivesse chegado ao fim, mesmo que a parceria esteja muito longe de pensar sobre isso.

Também não é interessante tomar para si toda a responsabilidade do afastamento sexual, dando uma rasteira na própria autoestima. Há quem se retraia, evitando qualquer iniciativa sexual, para não parecer inadequado, aguardando passivamente que o outro esteja aberto e quem se vingue, não mais tomando iniciativa para fazer o desejo se mobilizar. E há os que passam a insistir freneticamente, o que costuma afastar mais e mais a parceria.

Também, de pouco adiantará fazer o estilo reclamação você não era assim no começo da relação, porque as pessoas são o que são e o envolvimento sexual do início, pode ser justamente o ritmo incomum, a exceção. Na maior parte dos casos a atitude não é deliberada, simplesmente o fogo se acende e depois se apaga.

Compreender a nossa resposta sexual é fundamental para resolver conflitos dessa natureza. Para quem gosta de sexo e o desejo é mobilizado exclusivamente pela novidade, será difícil manter uma relação monogâmica com um nível interessante de sexo por muito tempo. Para os românticos, a convivência precisa de momentos a dois, respiros amorosos e mimos afetivos para que a vontade de sexo se ative. Para os criativos, é a curiosidade do outro em adentrar em fantasias, sexting, nudes, filmes, que põe lenha na fogueira. Frases do tipo: Para que motel se temos cama em casa? Fazem justamente o oposto.

Para os que tem muito desejo sexual, que priorizam o sexo, para quem sexo serve para acalmar, comemorar, esquecer, dormir melhor, acordar melhor, é necessário compreender que será difícil encontrar alguém que tenha o mesmo pique que você. Em relações de compromisso, ao longo do tempo os outros sempre lhe parecerão uma propaganda enganosa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL