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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Consentimento x convencimento: o sexo está mais burocrático?

A necessidade do consentimento tirou a espontaneidade do sexo? - Getty Images/iStockphoto
A necessidade do consentimento tirou a espontaneidade do sexo? Imagem: Getty Images/iStockphoto
Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

13/03/2021 04h00

Consentimento sexual é palavra de ordem na negociação dos relacionamentos atuais. Ninguém pode ser forçado a nada, menos ainda quando entra em jogo uma posição de supremacia, na qual alguém se vê no direito de obter prazer e vantagem pela condição de gênero, raça, credo ou posição social. E mesmo que alguns consentimentos sejam dados, ainda assim é da condição de dignidade humana e da capacidade de autonomia emocional que deve partir o conceito: uma pessoa que não tenha consciência dos múltiplos fatores emocionais que envolvem uma relação sexual, não consente, mesmo que aparentemente diga sim, ou que não diga não.

Da mesma maneira, pessoas que vivem na miséria, podem consentir fazer sexo para sobreviver; outras podem consentir fazer sexo para não morrer; outros ainda podem suportar violações para não serem expostos moralmente. E esse não é o tipo de consentimento que se deva, pura e simplesmente, aceitar como justificativa para que os "contratos" se cumpram - consentimento está intrinsecamente ligado a dignidade humana.

Em relacionamentos afetivo-sexuais, que envolvem duas pessoas maiores, conscientes e autônomas, o consentimento sexual tem que dar conta de ritmos distintos e fantasias sexuais que nem sempre são atrativas ao outro. É sempre um desafio ajustar necessidades e expectativas e a frustração será inevitável. Mas, pior mesmo é quando o desejo do outro passa a representar o fantasma da submissão, da incompreensão e mobiliza raivas e ressentimentos que nem sempre, dizem respeito a parceria.

Existe um artefato que se propõe a "evitar" a frustração de um desejo não acolhido. Chama @Love Sync. Basicamente são dois botões que devem ser colocados no criado-mudo de cada pessoa do casal. Quando você estiver com vontade de transar, aperta o botão. Se o outro também o apertou naquele dia, uma luz verde se acende em ambos os botões como um aviso que deu match: hoje todos estão a fim! Sexo consentido mediado pela tecnologia.

Quando eu vejo isso, definitivamente me dou conta de que estou ficando velha e que preciso abrir o meu coraçãozinho para as invenções do século XXI. Por mais objetiva e prática que seu seja - e sou - e por menos drama que tenha atualmente na minha vida sexual - que bom - sou tomada de assalto por um sentimento de quase descrença na humanidade. A que ponto chegamos, na burocratização do sexo e das relações, que diante da incapacidade enorme de lidar com o desejo alheio, precisamos de dispositivos tecnológicos para interagir?

Faço uma rápida retrospectiva sobre a minha atividade sexual, em casal, e me pergunto o que seriam de todas as investidas sexuais que eu já fiz, e nas quantas vezes que precisei convencer minhas parcerias sexuais a se engajarem no sexo, só porque eu estava a fim. Da mesma forma, pensei que os botãozinhos inanimados e sem match teriam me roubado a possibilidade das vezes que eu já fui convencida a fazer sexo, seja da maneira mais romântica ou da esfregação mais básica e instintiva da madrugada. Muitas delas, eu confesso, renderam cotoveladas do tipo: me deixa dormir, mas tantas outras me fizeram ter prazer inesperado as 4hs da manhã. Só tenho a agradecer.

Se não são as parcerias investirem o seu desejo em nossos corpos e sentidos, a nos convencerem a vencer a preguiça e a deixar para lá conflitos cotidianos, estaremos cada vez mais prisioneiros do desejo espontâneo, que se diga de passagem tende mesmo a diminuir com o passar do tempo. Será cada vez mais difícil alinhar todos os planetas para que se tenha sexo no casamento: um corpo descansado, folga no trabalho, sem problemas para resolver, filhos dormindo, ninguém no quarto ao lado, afeto transbordando, contas pagas, cenário excitante.

Temo que a questão importante do consentimento, seja minimizada e atravessada por um discurso de autonomia sexual que reforça uma impossibilidade antecipada de abrir-se ao outro e de encontrar um lugar confortável para todos. Não será aniquilando o desejo alheio, maldizendo-o, que a energia sexual poderá fluir em um casal.

Ninguém deve fazer sexo por obrigação e sem consentimento, mas é preciso separar o joio do trigo. Burocratizar o desejo na relação pode desfavorecer que o desejo responsivo, aquele que é motivado pelo estímulo, perca a oportunidade de fazer o sexo acontecer. Que pena.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL