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Ana Canosa

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mari não gostou do beijo de Luís, mas ficou mal ao levar um fora. Por quê?

Mulheres foram induzidas a pensar que são as responsáveis por tudo nos relacionamentos  - Getty Images
Mulheres foram induzidas a pensar que são as responsáveis por tudo nos relacionamentos Imagem: Getty Images
Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

06/03/2021 04h00

A Mariana tem 25 anos e estava saindo com Luís, de 27 anos, um crush com quem ela trocou uns beijos no final do primeiro date. Segundo ela, foi um "beijo oco". No seu dicionário amoroso, beijo oco seria um beijo sem língua. Achou estranho, meio sem entrega e conexão, tipo 'beijo técnico de novela'.

De qualquer maneira, sem muito entusiasmo resolveu dar uma segunda "chance" aos dois. Saíram novamente e entre uma cerveja e outra, conversaram bastante. Do bar foram namorar na casa dele. Fizeram amor 3 vezes, me contou entusiasmada! Sentia-se alegre.

O que mais a encantou, além da vitalidade sexual do homem, foi ele a ter chamado de gostosa várias vezes. Mais do que tudo ela estava com o ego inflado e a autoestima lá em cima. Para quem não se sentia muito atraente nos últimos tempos o reforço positivo foi fundamental para ter transformado esse momento de prazer em uma promessa de relacionamento.

Mas nem só de glórias se faz um affair. As mensagens trocadas pelo celular, durante a semana, não foram românticas, menos ainda picantes. Da parte dela, lançou um "...estava aqui me lembrando de nós, foi uma delícia...", mas ele não pareceu entusiasmado.

Falaram do tempo, do trabalho, das cenas da vida cotidiana. Ao final de semana, se mostraram ocupados e ninguém deu um passo adiante, para um terceiro encontro. Ainda trocaram mensagens no sábado a noite, ele contando algumas agruras profissionais, totalmente desinteressantes do ponto de vista dela.

Mariana começou então a pensar o que há de errado com ela, para ele não ter desejado encontrá-la novamente. Pensamentos naturais a que todos estamos sujeitos, já que aprendemos a gostar de nós a partir do quanto os outros gostam da gente. Uma cilada que armamos para nosso ego: você provavelmente é querido por várias pessoas e não por outras. Alguém pode não gostar de você sem razão aparente, simplesmente porque não "bateu o santo". Minha terapeuta já dizia: "Você não é uma unanimidade".

Mas as mulheres foram induzidas a pensar que sempre são as responsáveis por tudo nos relacionamentos e que se há algo de "errado" o equívoco está, certamente, em sua atitude, em seu corpo ou no fato de terem assumido seu desejo sexual logo de cara.
Além disso, o sexo pode ter sido bom, Mariana pode ser legal, mas o rapaz simplesmente pode não estar com vontade de assumir compromisso com ninguém, mais decidido a desfrutar de um cardápio de possibilidades, uma marca da fluidez dos relacionamentos atuais.

O ápice da nossa conversa, foi quando Mariana passou a se perguntar se o "moço do beijo oco" achou que a vagina dela era "larga demais", já que o pênis dele entrou com certa facilidade: "estava bem excitada?"; "sim", ela me respondeu. Não fosse o mito da "vagina larga" uma crença popular, eu consideraria a jovem em um estado lastimável de miséria emocional.

Muitas fantasias de rejeição feminina são ainda perseguidas pela síndrome da princesa, a mulher que para ser "a escolhida do baile" tem que ser bonita, generosa, prendada e casta. Menos incomodadas estão com o fato de não dar continuidade na relação com aquele homem específico, com quem muitas vezes nem tem tanta química e conexão, mas pelo temor de não serem mais desejadas por eles.

Sobre ele ser tão interessante assim, e por isso sua angústia emocional, ela já tinha sentido que não, desde que ele não enfiara a língua na sua boca. Agora projetava o espaço vazio na vagina larga que, certamente, aos 25 anos, não tinha. Ou seja, fez recair nela, como mulher, novamente, a herança maligna de ser a responsável pelos mais do que naturais desencontros da vida.

Terapia Mariana, só terapia salva...

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL