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Ana Canosa

Rafael tem 53, Ana 25: diferença de idade é certeza de fracasso da relação?

É possível contornar a diferença de idade mas tem que ter muita flexibilidade para encarar todas as necessidades do ciclo da vida - Zinkevych/Getty Images/iStockphoto
É possível contornar a diferença de idade mas tem que ter muita flexibilidade para encarar todas as necessidades do ciclo da vida Imagem: Zinkevych/Getty Images/iStockphoto
Ana Canosa Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Ana Canosa

Colunista do UOL

02/02/2021 04h00

Rafael tem 53 anos, é divorciado e tem 2 filhos adolescentes em casa. Ele adora exercer a paternidade: acompanhá-los em suas atividades esportivas e escolares, conversar sobre relacionamentos e sobre a vida, estar próximo aos seus amigos. Há 4 anos, ele se envolveu com uma jovem que tem, atualmente, 25 anos, a Ana. Ela é adepta do "amor livre", e durante esses anos eles se encontraram algumas vezes, fizeram pequenas viagens, algum sexo (inclusive a três) e, segundo Rafael, construíram uma boa relação de amizade.

Ana perdeu o pai ainda na infância, e Rafael fica tocado com isso. Ele tem naturalmente uma atitude de "orientador" na relação com as pessoas e gosta de ser esse homem com quem as mulheres podem contar. Um amigo com benefícios. Para ele nada melhor que fazer sexo, tomar uma bebida, curtir um show, cozinhar para a mulher e depois, se tudo der certo, sexo de novo. Ele está lá, para dar prazer, dar conselhos, compartilhar vivências afetivas e faz questão de pagar as contas das despesas em comum. O problema está quando falta cumplicidade da outra parte.

É possível sim que pessoas com quase 30 anos de diferença tenham um jeito de encarar a vida assemelhado e valores comuns. Mas sempre as relações com diferenças geracionais muito grandes são desafiadoras. Sem contar os valores, que podem ser antagônicos. A vida sexual pode também sofrer impacto pela disposição física e problemas que podem surgir com a idade, mas devemos lembrar também que nem todo jovem é mega ligado em sexo.

Tem que ter muita flexibilidade para encarar todas as necessidades do ciclo da vida, como um querer filho e o outro não, pois já os tem, ou conviver com os amigos, que podem ter interesses muitos distintos.

A pandemia afastou um pouco Ana e Rafael, mais ainda os "rolês" que gostavam de fazer juntos, até porque ele mudou de cidade com os filhos. Então, quando resolveram se encontrar, a Ana veio de mala para passar 20 dias, já que com isolamento social e fase vermelha, não tinha muito mais a ser feito. Foi quando a relação desandou. Primeiro que Rafael a sentiu fechar-se sexualmente, ficando arredia e irritada com ele se a procurasse para transar. O sexo só acontecia de maneira "inusitada", como ele me diz, em situações de perigo ou em ambientes públicos.

Quando ela foi embora, ele a sentiu distante. Nunca mais o procurou, nem respondeu às suas mensagens, o que o deixou triste, pois tinha a relação de amizade em alta conta. Quando pergunto para ele o que acha que aconteceu, ele sugere que ela tenha ficado receosa com a possibilidade do envolvimento, um tipo de reação feminina com a qual não está acostumado, embora ele deixe claro que não quer se envolver.

Me disse, por exemplo, que as mulheres mais velhas são mais apegadas a ideia de compromisso e que, adora a liberdade que as garotas jovens demonstram. Do lado dele, explica que bem curtiu esse momento de convivência íntima e cotidiana com Ana, pois no fundo no fundo sente falta da cumplicidade que um relacionamento de compromisso proporciona, mas por outro arrepia só de pensar em perder a liberdade no convívio com alguém.

O ser humano é um poço de contradições, pois os desejos antagônicos se debatem a todo instante. Nós, a turma dos cinquentões, acompanhamos as rápidas mudanças que aconteceram nas últimas duas décadas, na maneira das pessoas viverem o sexo e os afetos.

Quando Rafael diz que as mulheres mais velhas guardam uma Cinderela dentro de si, eu posso entender que o ímpeto do matrimônio ainda ronde mesmo como uma crença, um lugar conhecido. Mas discordo que elas estejam a fim de lavar cuecas, parar de trabalhar, ficar inspecionando colarinhos para ver se tem marca de batom, fazer sexo de luz apagada e serem monogâmicas.

Ele mesmo, ao exaltar a liberdade das moças jovens, é pego pela sua própria herança geracional, quando demonstra o seu amor na conhecida dinâmica de homem mais velho e experiente, mostrando o mundo, o seu mundo. Embora reforce o tempo todo que o que deseja é só dar prazer e tratar os outros como ele gostaria de ser tratado, em algum momento da nossa conversa ele me disse que às vezes se sente meio "sugar daddy".

Não há um único formato nesse tipo de configuração. Pode ser um contrato baseado na prostituição, ou encontros recompensados, que envolvem pagamento das saídas, eventos, e que não envolve sexo; há também a companhia recompensada, quando a mulher participa mais da vida do homem, ainda sem sexo; o namoro "sugar" que combina vida e sexo, com pagamento de mesadas fixas ou valores variados; amizade sugar, quando os benfeitores já eram amigos, antes da relação acontecer; amizade sugar com benefícios sexuais, menos estruturada e com mais sexo e finalmente o amor baseado no estilo pragmático, quando sugar daddies e sugars babies esperam construir uma relação duradoura, mas o fazem baseado na praticidade e conveniência declarada.

A própria configuração das relações "sugar" guarda a contradição da autonomia feminina x a sua submissão. Se de um lado as mulheres assumem seus propósitos e garantem a liberdade, pois evitam o vínculo ou o estabelecem claramente, acabam também reproduzindo o papel da mulher que precisa de um homem para viver ou impulsioná-la a conquistar seus maiores objetivos.

Depois de mergulharmos nessas reflexões, chegamos à conclusão que não tem solução fácil para seu sofrimento. Fico feliz por ele ter compartilhado suas inseguranças e reflexões e por me ter acrescentado percepções e ideias. Saio de nosso encontro com a certeza de que cada relação é única e envolve variadas dimensões dos envolvidos, sendo a questão de gênero uma delas.

Semanas depois, empaticamente pergunto se Rafael está melhor e se voltou a falar com Ana. Ele responde todo pimpão que a fila já andou e agora está curtindo a vida com mais uma jovem amiga especial. A típica forma masculina de resolver conflitos e dores. Eu revirei os olhos e rimos juntos.