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Ana Canosa

Ele é recém-divorciado e não quer compromisso. Como não criar expectativas?

Enquadrar o amor nos dois únicos formatos possíveis (compromisso X não-compromisso) é se fechar para as possibilidades - iStock
Enquadrar o amor nos dois únicos formatos possíveis (compromisso X não-compromisso) é se fechar para as possibilidades Imagem: iStock
Ana Canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista de Universa

01/02/2021 04h00

Ana, mesmo tentando me preservar, me apaixonei por um casa que saiu de um casamento há um pouco mais de um ano e deixou claro que só vai entrar num relacionamento quando tiver certeza de que está apaixonado. Mesmo assim, ele afirma que quer continuar comigo porque ama o que a gente tem. É cilada? Você acha que é POSSÍVEL que eu me mantenha nessa relação (enquanto não aparece alguém na minha vida) sem ter expectativas de que isso se torne algo, porque pode realmente ser que ele nunca se apaixone por mim dessa forma? Ajude uma angustiada.

Minha cara angustiada, não é fácil sair de um casamento, mesmo quando o término é desejado. As pessoas costumam prometer para si mesmas nunca mais se casarem, e pagam a língua mais adiante, ou decidem sair pela vida curtindo a solteirice enquanto não encontram alguém "especial" e essa pessoa não chega nunca. Dificilmente um carente convicto se manifesta a confessar que detesta viver sozinho e que, portanto, quer logo encontrar alguém para dividir o mesmo teto. De qualquer modo, acho curioso pensar que o seu amado está em um tipo de "modo de defesa da paixão ativado", já que paixão não se controla, ela acontece.

Então, essa parte de que talvez ele não se apaixone por você pode ser uma percepção completamente correta. Mas calma, não se desespere. Nem todo mundo se apaixona na vida e isso não significa um impeditivo à vivência do amor.

Como você mesma disse, você também colocou barreiras no início da relação e foi desenvolvendo a sua paixão por ele, ao longo do tempo. Isso me faz pensar que você é do tipo de pessoa que pode ir se encantando aos poucos, e que a paixão pode surgir da intimidade, um estilo de amor chamado Storge, baseado na relação de amizade. Pode ser que tenha sido a primeira vez que o amor aconteceu na sua vida dessa maneira, mas o fato é que esse estilo parece que "cabe" em você.

O sociólogo John Alan Lee, que propôs a teoria de estilos de amor, acreditava que o amor pode ser aprendido e que os estilos de amor refletem a diversidade humana nas maneiras de amar. Também observou que as pessoas podem variar de um estilo para o outro, segundo suas experiências e que os estilos amorosos também são atravessados por questões culturais.

Para ele há 3 estilos primários: os que se apaixonam a partir da atração por tipos físicos específicos e buscam se relacionar (Eros); Ludus, que tem dificuldade de estabelecer uma relação de compromisso, pois gostam do jogo da sedução e da variação de parcerias e Storge, que privilegia a amizade intensa nos relacionamentos.

Destes tipos, derivam-se outros - na mescla com os 3 primários: Mania (Eros + Ludus), o amor que consome, é irracional, obsessivo e dependente; Ágape (Eros + Storge), o amor fraternal, altruísta e gentil; e Pragma (Ludus + Storge), o amor que dá importância a uma convivência compatível, baseada em interesses comuns, no compromisso e na praticidade. Há também o estilo de predomínio Storge na ligação de Storge + Eros - sendo privilegiados os sentimentos de carinho e cuidado; o predomínio Storge na ligação de Storge + Ludus - nesse estilo o foco é no convívio prazeroso, com emoções expressas de maneira discreta, onde a convivência ocorre de maneira a não alterar a rotina cotidiana em função da parceria e o predomínio Ludus (Ludus + Eros) facilidade em conhecer outras pessoas experimentar os diferentes tipos de relacionamentos, sem apresentar, contudo, grandes emoções.

Coloquei a teoria do Lee aqui para que você perceba que se ficar tentando enquadrar o amor nos dois únicos formatos possíveis (compromisso X não-compromisso) ou só contar com a possibilidade da paixão para mover as relações, estará míope! O seu pretendente pode estar mais para predomínio Storge ou para Pragma, do que para Eros. Então, nos resta saber se você consegue viver sem o espelhamento da paixão. Sugiro apostar primeiro no seu autoconhecimento do que nas intenções do seu amado.

Também vale pensar o quanto a socialização feminina faz ou não você se identificar com estilos amorosos condicionados culturalmente, como acreditar que o amor de um homem tem que ser Pragma (o prático), Ludus (o cafajeste) ou Eros (o apaixonado) e que o amor da mulher precisa ter um estilo de intimidade (Storge), doação (Ágape) ou loucura (Mania). Depois que você perceber melhor quais são os que verdadeiramente representam sua maneira de viver o amor, daí sim parta para refletir sobre os que combinam melhor com você hoje. Só por hoje.

Penso também que, se tanto ele, quanto você estão curtindo essa vivência, a não ser que você não suporte viver sem o compromisso para organizar sua vida afetiva e acalmar seu coração, eu deixava rolar essa história porque apaixonada você também não vai a lugar nenhum, certo? Dê-se a oportunidade de descobrir que outros modos de viver o amor podem funcionar bem e até melhor, atualmente, na sua vida.