PUBLICIDADE

Topo

Ana Canosa

Confissões de um podólatra: sua fantasia é ser dominado

Getty Images
Imagem: Getty Images
Ana Canosa Ana Cristina Canosa Gonçalves

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Ana Cristina Canosa Gonçalves

Colunista de Universa

19/01/2021 04h00

Luciano tem 32 anos, é fisioterapeuta e tem uma preferência sexual: a podolatria, ou seja, o fetiche por pés. De todas as práticas fetichistas - partes do corpo, peças de roupa e sapatos, texturas especificas -, idolatrar pés é a mais comum.

Ele se corresponde comigo com uma narrativa gentil, elogiosa e educada. Ao descrever seus conflitos, eu posso sentir o cuidado ao escolher as palavras. Transpira uma atitude contemplativa, convidando o remetente a lhe responder com alegria, pois o coloca em lugar de privilégio: ao pedir ajuda, não deixa de reforçar a importância do outro. Fiquei completamente presa na sua narrativa, tentadíssima a lhe ajudar. E foi através do que ele provocou em mim que tentei pensar como se sente a sua namorada, Yasmin, de 31 anos.

Eles namoram há 9 anos, moram juntos desde o início da pandemia e, segundo ele, são muito felizes. Nos primeiros encontros o que lhe atraiu nela nada tinha em relação aos pés, mas o fato de ser bem-humorada. Eles têm muito em comum, boa química e se divertem juntos: "Na verdade, eu só fui ver os pés dela após alguns encontros. Por sorte minha eles são lindos!". Verdade Luciano, sorte sua. Se meu marido estivesse no seu lugar, sem dúvida estaria com um problema maior que o seu.

Luciano não tem um transtorno fetichista, que se caracteriza por um padrão persistente e angustiante da presença do fetiche para sua excitação. Ele tem relações sexuais prazerosas com a namorada, em práticas ditas "tradicionais", sem que os pés dela sejam adorados e envolvidos em atitude de dominação.

Mas sua fantasia é mesmo ser dominado e beijar-lhe os pés sujos com cheiro de chulé, e a não realização desse desejo também o frustra. Embora ele não tenha ainda se declarado para Yasmin como um podólatra convicto, seus traços de idolatria e servidão aparecem quando ele revela que seu tesão é ver a parceira excitada e que lhe dar prazer é seu maior objetivo.

Diz que se precisasse escolher entre dar ou receber sexo oral, sem dúvida nenhuma prefere oferecer. Embora ele não tenha chamado sua namorada de deusa, rainha ou diva, quando fala dela é com tal amorosidade que eu imagino como essa mulher está confortável nessa relação. Luciano, não me provoque.

Ele demonstra amor com ações cotidianas, como acordar mais cedo para fazer o café da manhã, esperá-la chegar do trabalho com o almoço pronto e a casa arrumada. Quando li essa parte da nossa correspondência, confesso que fiquei com uma certa vontade de ter Luciano para mim.

Acontece que, embora ele já tenha falado sobre a podolatria com Yasmin, falta a ela a atitude de dominância. De vez em quando ela pede para ele beijar-lhes os pés, mas sem uma atitude que lhe coloque no papel de dominação que verdadeiramente o excita. Além disso ele sente que ela não dá muita importância para o assunto, embora tenha acolhido a informação sem julgamentos. Claramente suas fantasias sexuais não passam por aí. E é aí que vem o dilema:

"Me sinto extremamente desconfortável com esse paradoxo: exigir que a mulher tenha uma atitude dominadora não me torna, no fim das contas, o dominador? A atitude de superioridade, se não é genuína e é apenas feita como uma demanda minha, parece perder a graça, afinal o objetivo maior é o prazer dela."

Pois é, Luciano, nesse momento me deu uma vontade terrível de ligar para a Yasmin e lhe indicar um curso a fim de aprender a arte de dominar uma pessoa durante o sexo e fazer você feliz, o que é, inclusive, uma sugestão. Mas eu entendo que ela possa não ter essa vontade, que ainda não descobriu a dominatrix que existe em toda mulher e que também deve ter medo.

Se de um lado ter um parceiro amoroso e dedicado no dia a dia é uma benção, ter um "escravo" sexual pode ser, ao longo do tempo, frustrante. Ela pode querer também, no sexo, um homem que seja mais dominador, que a desafie.

Sem contar que a relação que vocês cultivaram talvez atrapalhe a ela tomar atitudes que entende serem contrárias ao amor. Sim, eu sei que para você é justamente o oposto, mas sua namorada precisa fazer essa desconstrução, e isso pode levar algum tempo. Por outro lado, fico aqui pensando se também não é o seu medo, de ficar totalmente vulnerável nessa relação, que lhe impede de avançar na realização do seu desejo.

Daí o problema não está na Yasmin, mas a avaliação que você faz de si. Uma coisa é, no campo da fantasia, nos vermos humilhados ou moralmente incorretos. Outra é enfrentar a vergonha dessa descoberta no campo real. Você está pronto para isso?

Seu desejo é tão presente que o interessante dessa história é você perceber que sempre dá um jeito para se sentir subjugado, evitando ser assertivo ao expressar claramente seus desejos, afinal o desinteresse dela pela prática ligeiramente sugerida continua lhe impingindo a situação de dominado; se não é pelos pés, é pela falta de disponibilidade dela.

Então, de alguma forma a Yasmin, que não é boba nem nada, já está com o chicote na mão. Ela não lhe dá totalmente o que você deseja, porque assim o mantém na política da escassez: dizem que o desejo nasce na falta - o que talvez lhe alimente a expectativa de, em algum momento, ter-lhe os tão poderosos pezinhos.

Se quiser sair dessa, você terá que lutar: pegue a Yasmin de jeito, quando ela menos esperar e mostre a porção dominadora que habita em você. Tenho a sensação de que você precisará subverter a lógica do dominado para enfim receber o castigo que tanto merece (e deseja)!