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A angústia de ser solteiro: por que achar que não dá pra ser feliz sozinho?

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Imagem: Getty Images
Ana Cristina Canosa Gonçalves

Ana Cristina Canosa Gonçalves

https://universa.uol.com.br/colunas/ana-canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista do UOL

24/09/2020 04h00

Pergunta do leitor: Tenho refletido sobre minhas relações afetivas. Será que há satisfação na vida de solteiro?

Segundo uma entrevista publicada na Vice com o sociólogo Elyakim Kislev, sobre sua pesquisa com solteiros, sim, é bem possível ser feliz sozinho. É claro que a satisfação pessoal inclui uma série de questões, sendo as relações interpessoais uma grande fatia nessa bolacha estatística, mas o autor afirma que o problema está na falta de educação para a vida de solteiro e o preconceito que temos com essa escolha de vida.

"Matrimania" é o temo criado por Bella DePaulo, especialista no estudo sobre solteiros, que diz respeito a essa mania de pensarmos no casamento (amplie para conjugalidades) como a única maneira de ser afetivamente feliz. A estudiosa reforça que a matrimania faz com que não gostemos de solteiros porque na verdade não confiamos neles. O termo "singlism" foi cunhado para expressar a estereotipização e discriminação com pessoas solteiras.

Pensamos no solteiro como alguém que está experimentando uma "fase" da vida e não alguém que decidiu viver sem uma parceria específica, por pura escolha, convicção ou rumo que a vida tomou.

Pessoas solteiras, quanto mais envelhecem, mais podem ser encaradas socialmente como tristes e solitárias. São percebidas como aquele ou aquela que ninguém quis, por falta de atributos interessantes, ou porque são dotadas de uma personalidade difícil ou escondem algum desvio de caráter.

Quem sabe tem um grande segredo obscuro. Se construímos a ideia de que as pessoas a quem devemos confiar são as responsáveis, como as casadas ou que têm filhos, os solteiros já saem perdendo e devem provar que não são uma ameaça à sociedade, por não fazerem parte da "tribo".

No seu livro intitulado "Happy Singlehood: the rising acceptance and celebration of solo living", Kislev analisa por que a solteirice anda crescendo no mundo.

Feminismo, acesso a educação, aumento da urbanização, avanço da tecnologia, sexo casual, consumismo: são vários os fatores que contribuem para que muitos aguentem firme a pressão social e optem pela vida "solta". Segundo Kislev, as pessoas querem mais privacidade em suas vidas, precisam menos dos outros para serem sustentados e são mais independentes.

O mundo globalizado permite que estejamos constantemente conectados e em trânsito. Como construir uma carreira leva tempo, o casamento é adiado e dependendo como se dá a trajetória da pessoa, inclusive na esfera sexual e afetiva, estabelecer compromisso pode não fazer sentido.

Embora pessoas casadas sejam apontadas em vários estudos como "mais felizes" em relação aos solteiros, toda pesquisa com o viés da comparação faz perder as idiossincrasias de cada experiência. Além disso, viver em uma cultura que valoriza a conjugalidade como uma etapa quase obrigatória de vida, pode gerar aos solteiros uma autocobrança e sentimento de inadequação, motivo por essa dose de menor felicidade.

Outro dia li uma pesquisa interessante que diferenciava sensação de bem-estar global e bem-estar diário. O Global tinha relação com o projeto de vida, que você constrói para si. O diário com as experiências de alegria cotidianas. Para quem coloca o casamento como parte do projeto, estar casado era o item que fazia subir os índices de bem-estar global. Então um solteiro que deseja casamento tem a probabilidade de se auto-avaliar como infeliz, pois não tem o que almeja.

No entanto, o bem-estar diário não tinha nenhuma relação com o estado civil, mas sim com as vivências interpessoais positivas. Ou seja, você pode sentir-se feliz em ser rico, mas isso não lhe garante alegria no dia a dia; e o mesmo acontece com ser ou não casado com alguém. A ideia de ser casado e ter família pode lhe agradar, mas será a qualidade da interação que contará no final. Nesse sentido, se passarmos a encarar a solteirice como um projeto que também pode ser positivo, a perspectiva do estudo certamente mudaria para o bem-estar global.

Ter uma boa rede de apoio pode suprir uma vida sem casamento. Se pensarmos que a conjugalidade nos oferece a possibilidade de intimidade afetiva, bons amigos podem fazer o mesmo. Aliás, já vi uma porção de casamentos sem intimidade afetiva onde a vulnerabilidade não é aceita ou revelada, a empatia é forjada, o desejo individual é tolhido e a aceitação da inteireza do outro, negada.

Pense então o quanto de intimidade afetiva você precisa para sentir-se bem e se sua rede de apoio lhe supre nesse quesito. Outro ponto para avaliação é a autonomia.

O casamento pode nos oferecer conveniências, como o amparo financeiro, os bens materiais, os amigos em comum, os filhos, a divisão de tarefas e apoio mútuo nas questões do dia a dia. No entanto, nem todos querem filhos e muitos abrem mãos facilmente das outras benesses, por não precisarem delas, sem contar que, no quesito divisão de tarefas sabemos exatamente que em sociedades machistas como a nossa, isso não é uma realidade, sobrecarregando as mulheres.

Não é à toa, que são justamente as mulheres apontadas na pesquisa como as que se sentem bem felizes solteiras, muitas inclusive organizando suas vidas ao lado das amigas, criando comunidades e planejando juntas a sua velhice.

Pensemos então que a conjugalidade pode nos favorecer o sexo, mesmo que o casamento seja apontado como justamente o responsável por abafar o desejo. Em contrapartida, sabemos também que nem só de sexo fácil e de qualidade vivem os solteiros. Então, avalie o quanto a relação sexual é importante e se você tem perfil para o sexo casual e em caso positivo, desfrute da variação.

De todos os pilares que o casamento oferece, talvez seja a função emocional que cada um exerce na vida do outro a que mais possa ser prejudicada, pois a vivência da relação afetiva nos faz crescer. Mas eu arrisco dizer que isso também não é fundamental para o crescimento emocional e, mesmo não sendo tão divertido, você pode dar conta de si.

Resta lidarmos com o fantasma de sermos "escolhidos" por alguém, a praga do ideal romântico de casamento, que pode fazer com que as pessoas evitem a solteirice, assumindo relações a qualquer custo e vivendo casamentos infelizes por décadas a fio.

Mas e o amor? Pois é, o amor apaixonado diminui no casamento, dando lugar ao fraterno. Então se acabamos todos amigos no final e se você precisa pouco da presença de um bem querer ao seu lado, pode ser que lhe bastem os irmãos que a vida lhe deu.

Quer que Ana Canosa analise sua dúvida em sua coluna? Mande perguntas para universa@uol.com.br com o assunto #sexoterapia. Mantemos o anonimato.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.