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Guia básico de como os pais devem lidar com a primeira menstruação da filha

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Imagem: Getty Images
Ana Cristina Canosa Gonçalves

Ana Cristina Canosa Gonçalves

https://universa.uol.com.br/colunas/ana-canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista do UOL

20/08/2020 04h00

Qual o significado para o pai quando sua filha menstrua pela primeira vez? Um amigo contou a novidade de maneira espontânea na frente da própria garota. Não é constrangedor?

Eu arriscaria dizer que há grande chance de ser uma cena constrangedora, principalmente se a garota não foi consultada e se o evento carregar conotações pejorativas, preconceituosas ou catastróficas sobre a puberdade.

Quando eu fiquei menstruada, no início dos anos 80 do século passado, meu pai me deu os parabéns e um dinheiro para eu comprar um presente para mim. Eu devia ter uns 13 anos. Não me lembro se fiquei constrangida, mas como comprar era um dos meus verbos prediletos na época, fiquei feliz da vida. Lembro até hoje da cor da nota.

A menarca é um importante definidor da passagem da infância para a adolescência, independentemente do segmento social, e um dos poucos ritos de passagem que ainda permanecem valorizados nas sociedades modernas. E assim como é uma fase cheia de representações para as meninas, também é para os pais.

Sabemos que muitas garotas não têm a mesma sorte que eu tive e sofrem com a notícia de que a partir daquele momento a vida mudou drasticamente e que o "inferno" vai começar.

Os ritos de passagem da puberdade e da adolescência vêm acompanhados de muitas crenças e clichês, alguns bem verdadeiros: seu corpo vai mudar, os meninos vão te olhar diferente, o desejo sexual vai surgir. Esses ritos, por outro lado, também estão repletos de concepções sobre os papéis sexuais, o comportamento desejado, a construção do ser mulher.

Alguns pais e mães podem ser pegos pela ansiedade da mudança e precisarão se acostumar a perder a meninice das filhas. Outros vão se orgulhar do crescimento saudável delas. Provável que aconteçam as duas coisas.

A vida é composta de sucessivas passagens, determinadas pela biologia e pela cultura (nascimento, puberdade, juventude, maturidade, morte). Há diversas cerimônias que servem para marcar a passagem de uma situação para outra. Toda alteração na situação de um indivíduo implica ações e reações que as sociedades buscam regular.
Nessa sucessão de etapas, tem-se a formação do homem e da mulher, comumente chamado de "construção social", cuja atenção dirige-se ao aprendizado cultural e pragmático da vida em sociedade.

Imagine que uma menina, ao se tornar púbere, já está apta para o casamento em algumas culturas. No Brasil, por exemplo, esse fenômeno ainda acontece, com a anuência da família, principalmente nas regiões menos desenvolvidas do país - segundo o instituto Promundo.

Nesse sentido, a menarca ganha contornos sociais importantes; comunicá-la faria parte do ritual de passagem. O casamento pode ser visto como a solução para os riscos que os pais avaliam diante de uma vida sexual mais livre. Não é apenas um corpo, mas uma posição social que se modifica. Sociedades têm tratado esse fenômeno de forma distinta.

Na cultura Kamayurá, no Alto Xingu, por exemplo, a jovem deve aprender voluntariamente as tarefas que a ela serão designadas na vida adulta. As meninas se esforçam para a ser a base da estrutura familiar e, para marcar essa passagem, ficam "reclusas" durante um ano, aprendendo com as mulheres mais maduras da tribo a fazer trabalhos manuais, executar tarefas domésticas e a preparar os alimentos; nesse período, elas não cortam os cabelos, cuja franja deve cobrir-lhe o rosto até a altura do queixo.

Ritos de passagens são comuns em diversas culturas de diferentes partes do mundo, e a menarca é uma marca significativa desse rito para as meninas - e, consequentemente, para seus pais.

Como lidar?

Quando isso acontece, no caso da nossa sociedade ocidental, é preciso, em primeiro lugar, respeitar a intimidade das meninas - agora adolescentes - e perguntar se poderia contar para amigos ou família. Se ela não quiser, entenda e atenda.

Um segundo passo seria externar sua satisfação por ela estar sadia e passando por um rito de passagem importante para uma menina que está se tornando uma adolescente e, consequentemente, uma mulher. Deixe-a confortável para fazer perguntas e tirar dúvidas e, caso não saiba alguma resposta, diga que vai pesquisar e trazer a resposta (e concretize sua promessa).

Não esqueça de dar dicas práticas, como o adequado uso de absorventes - e a deixe livre para escolher com qual tipo ela se adequa mais. Para isso, é preciso pesquisar, de preferência antes da menarca, os tipos existentes - sugiro, inclusive, deixar alguns em casa para que ela possa testar e usar de imediato. Exponha que, a partir de agora, há novos hábitos de higiene a serem adotados - e os explique.

Há também a parte complicada que pode vir associada a esta nova fase, que são os sintomas de TPM, como irritabilidade, cólicas, dores nos seios, constipações. E avise que o corpo dela agora está preparado para gerar uma nova vida e, talvez, seja o melhor momento para falar sobre educação sexual, mostrar os diferentes métodos de contracepção e explicar como evitar doenças sexualmente transmissíveis. Fale de forma leve e descontraída (e não uma conversa drástica - como foi a minha).

Busque ter empatia com ela neste momento, pois por mais que concordemos que a menstruação é algo normal e rotineiro, as meninas podem estar sabendo dessas informações pela primeira vez.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.