PUBLICIDADE

Topo

Ana Canosa

Depois de anos de um casamento tradicional, eles foram a uma casa de swing

Ah, a vida sexual que pode começar depois do 50 anos... - Getty Images
Ah, a vida sexual que pode começar depois do 50 anos... Imagem: Getty Images
Ana Cristina Canosa Gonçalves

Ana Cristina Canosa Gonçalves

https://universa.uol.com.br/colunas/ana-canosa

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Colunista do UOL

21/07/2020 04h00

Sempre é tempo de explorar atividades sexuais diferentes. Fantasias sexuais que antes estavam só no plano das ideias, passam em alguns momentos da vida, a parecer urgentes. O 'gatilho' pode ser variado: uma aventura vivida meio ao acaso, que abre a porta do seu "quarto" interno do desejo, ou é a sua baixa resposta espontânea, que te move a recorrer aos estímulos para se excitar, ou mesmo uma certa inquietude com a estabilidade, uma necessidade de colocar pimenta na vida.

Com Fernando foi assim também: aos quase 50 anos o projeto de vida acontecendo segundo os desígnios da estrutura tradicional: família, casamento, trabalho, e a sua inquietude lhe soprando: mas é isso? Vai ser assim para sempre? Tão certinho esse menino... Educado dentro de padrões rígidos de comportamento, foi o homem "do dever" como eu gosto de dizer. Fernando teve algumas mulheres, mas o sexo quase sempre aconteceu na relação de compromisso. Tem uma experiência prazerosa e amorosa com a esposa: um sexo gostoso, mas que como todo casamento sofreu um pouco, com a vida cotidiana e a chegada dos filhos. E ele decidiu que queria mais.

Quando pensou na possibilidade de visitarem uma casa de swing, sua cabeça ficou a mil. O que será que a esposa pensaria? Tomaria como uma ofensa pessoal? Acharia que ele não tinha mais desejo por ela? Pediria o divórcio?

Tolinho. Marcela não é o tipo de mulher que tem visão estreita do mundo erótico e embora não partilhe da fantasia com a mesma intensidade que ele, ficou curiosa sobre a possibilidade: Vamos sim, pode ser legal.

A reação da companheira foi um misto de alegria e desconforto, afinal de contas, ela, que também é a moça comprometida com o "dever" mostrou que o prazer tem seus encantos e que limites podem ser revistos. Nem todas as pessoas se sentem seguras diante da abertura do "quarto do desejo" da sua parceria. Casas de swing estão cheias de pessoas que vão com amigos(as), amantes, profissionais do sexo. Os cônjuges mesmo, ficam guardados em casa (ou pelo menos, assim parecem).

Fazia muito tempo que Fernando não se sentia assim, como me confidenciou, um "garoto". Adrenalina a mil. Pesquisou muito, pode dar aula para qualquer um. Fizeram combinados: só assistir, sem introduzir ninguém na relação deles. No dia D a mulher, na sua versão mais sexy, manteve o interesse e o controle. Ver toda aquela "pegação" ao vivo deixou Fernando tão excitado e ansioso que chegou a perder a ereção. E a mulher lá, plena, curtindo a experiência.

Passaram um tempo fazendo sexo a dois, com a excitação a mil, impregnada da memória erótica daquele dia. Mas a vida se encarrega de retomar seu curso, ao menos Marcela assim esperava. Não fosse a característica obsessiva dele, eles iriam curtir eventualmente, como uma coisa especial. Pois é, não fosse a característica obsessiva dele...

Começou a falar disso o tempo todo e a esperar que a mulher desejante, que ele viu na casa de swing, passasse os dias o seduzindo e querendo fazer sexo. Que ela estivesse tão ansiosa para entrar nos sites de trocas de casais; que fosse jantar com uma roupa matadora, com um decote que viesse parar no umbigo, em plena quarta-feira. No cotidiano, com 3 filhos, trabalho, casa, cachorro e papagaio; acordando cedo e dormindo tarde.

Sim, verdade seja dita: se não fosse essa abertura para explorar fantasias, o casal estaria lá transando da mesma maneira. Não acho que é preciso concretizá-las, mas explorá-las a dois pode ser bastante excitante. Além disso, o fato de ele querer realizar fantasias com a esposa, é um ponto a ser destacado positivamente. Se o erotismo não for alimentado, fenece; sem investimento, ele não é mantido em casamento nenhum. No entanto, para ela esse frisson todo do marido passou a ser uma tortura, mais uma demanda que precisava corresponder. Ela dava a mão, e ele queria o braço. A dinâmica do casal pedia novo equilíbrio, diante da avidez dele, um certo controle dela. O problema é que, quando ela negava, ele se sentia rejeitado.

É interessante perceber que para algumas pessoas as fantasias sexuais são apenas tema motivador para iniciar um jogo. Já para outros ela assume a função de um fetiche, uma cena a ser revivida com exclusividade para estimular o erotismo. Longe de julgamentos, um casal consegue acolher a necessidade de cada um. Equilibrar essa negociação, pode não ser tarefa fácil. Mas ninguém disse que seria.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.