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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Não há por que questionar foto de Anitta com babalorixá. Ela teve coragem'

A cantora Anitta publicou foto no Instagram ao lado do babalorixá Sergio Pina - Reprodução/Instagram
A cantora Anitta publicou foto no Instagram ao lado do babalorixá Sergio Pina Imagem: Reprodução/Instagram
Iyalorisa Omilade - Yemojazz*

Iyalorisa Omilade - Yemojazz*

https://www.instagram.com/yemojazz/

Sacerdotisa de Candomblé Èfòn no Àse Oloroke Omibainá, compositora e ativista antirracista pelos direitos dos povos de terreiro, Yemojazz tem carreira extensa de atuação nas manifestações artísticas, culturais e sociais negras. É pedagoga com foco na coordenação de projetos pedagógicos de valorização das tradições de matriz africana e estudante de Direito.

Colaboração para Universa

19/12/2021 04h00

Sabedora da repercussão que causa, a cantora Anitta postou nas redes sociais uma fotografia com seu Babalorixá em agradecimento às suas orientações sacerdotais. Sua atitude fez jus às características de seu Orixá: Equede Larissa é filha do Orixá Ológúnede, o menino que os Orixás mais velhos respeitam, caçador aguerrido, ora doce, ora muito temido.

A destemida mulher, funkeira, feminista, oriunda da periferia, empresária, ativista em diversas causas em um país que empossou um ministro do STF "terrivelmente evangélico", orgulhou-se da sua tradição religiosa e mergulhou no combate ao racismo religioso com uma simples foto e seu poderoso alcance em views.

A identidade religiosa positiva dos povos pertencentes às tradições da diáspora africana é um ato político que exige muita coragem. Clamamos com frequência que adeptos e artistas com poderio de influência popular denunciem o racismo religioso posicionando-se publicamente, mas são poucas as pessoas dispostas a enfrentar os constantes ataques racistas, a perda de seguidores e até a perda de contratos que isso pode causar.

anitta - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
O pai de Anitta, Mauro, o pai de santo Sergio Pina, a cantora e o irmão dela, Renan, no registro que circulou nas redes sociais
Imagem: Reprodução/Instagram

Enfrentamos no Brasil tempos sombrios de intolerância contra as religiões de Matrizes Africanas. Há perseguição feita desde as ações do Estado, que não respeita a sua laicidade, ao avanço do neopentecostalismo associado a facções criminosas espalhadas pelo país, provocando um verdadeiro terror entre os adeptos e Comunidades que são obrigadas a fecharem suas portas sob ameaça de morte.

A Equede Larissa também levantou uma discussão entre a comunidade religiosa, que questionou o seu pertencimento. A mesma comunidade que ovacionou há pouco o jogador da seleção brasileira Paulinho, que celebrou um gol olímpico fazendo uma flecha de Oxóssi.

Cabe dizer que, diferentemente de outras religiões, as Comunidades Tradicionais de Terreiro são espaços políticos de discussão das mazelas sociais que nos assolam, combatendo-as de dentro para fora.

Exu é o Orixá que faz o erro virar acerto e, nessa perspectiva, saudamos a oportunidade de compreendermos os nossos erros e resolvermos os males que nos cercam. O machismo, a misoginia não são valores civilizatórios de nossa comunidade. Nós exaltamos e contemplamos em nossa história mulheres independentes!

Não há um 'papado' entre nós que determina regras rígidas sobre pertencimento. A comunidade que abraçamos e em que somos abraçadas é quem diz sobre nós e, no caso da Equede Larissa, isso está bem resolvido, não há nada a ser questionado.

As Comunidades Tradicionais de Terreiro agradecem a coragem de todas as pessoas que vêm fortalecendo a base que necessita de representatividade. Sabiamente, diz o Doutor e Babalorixá Sidnei de Xangô que: "...A política vê números e visibilidade. Trata-se de disputa de narrativas."

Aplaudimos e agradecemos personalidades que corajosamente fortalecem o seu axé fortalecendo a sua comunidade, que honram cotidianamente a sua ancestralidade. Há entre elas o fotógrafo Roger Cipó, a modelo Suellen Massena, a cantora Nara Couto, a escritora Ryane Leão, o empresário Ricardo Silvestre, o humorista Yuri Marçal e tantas outras.

Para nós, sozinhos até caminhamos, mas em comunidade vamos muito longe!

*Sacerdotisa de Candomblé Èfòn no Àse Oloroke Omibainá, compositora e ativista antirracista pelos direitos dos povos de terreiro, Yemojazz tem carreira extensa de atuação nas manifestações artísticas, culturais e sociais negras. É pedagoga com foco na coordenação de projetos pedagógicos de valorização das tradições de matriz africana e estudante de Direito.