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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sou crente e não quero um ministro do STF 'terrivelmente evangélico'

André Mendonça no templo central da Assembleia de Deus - Ministério de Madureira - Reprodução/Twitter
André Mendonça no templo central da Assembleia de Deus - Ministério de Madureira Imagem: Reprodução/Twitter
Nilza Valeria Zacarias

Nilza Valeria Zacarias

Jornalista e coordenadora da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito.

Colaboração para Universa

16/12/2021 11h06

Primeiro o presidente da República diz que o STF precisa de um ministro "terrivelmente evangélico". O susto, que tomo na ocasião, é pelo adjetivo terrivelmente. Se alguém ou alguma coisa é terrivelmente, não quero. E "terrivelmente evangélico" é um termo contraditório com a própria fé evangélica. Não tem como: ou é evangélico ou é terrível.

O presidente jogou para um público que não ligou para as palavras. Ou talvez ele seja um mau conhecedor da língua pátria. Foi parido em lugar errado, o que não tenho dúvidas. Era para ter nascido em algum lugar que as palavras não existem. Isso o pouparia de ser terrivelmente tosco, ou um canalha, que brinca com a vida de milhões de brasileiros. Ops, é na gestão desse presidente que a fome tomou lugar nas ruas. Que o desemprego fez milhares de famílias amagar a falta de esperança. Que não haverá mais de 600 mil seres humanos celebrando o Natal com suas famílias. Bem, mas o assunto aqui é o André Mendonça...

E vou te contar, a gente trabalhou para que, no Senado, ele não fosse aprovado pela sabatina. Conversamos com senadores, com chefes de Gabinetes. Se ele é crente, nós também somos. E mostramos na Bíblia que ele não poderia ser ministro do Supremo por suas falas públicas, por sua atuação como ministro da Justiça.

Quase adiantou. Ele levou, mas não foi com grande folga. Mas, levou. O homem, que é crente e pastor presbiteriano, respondeu que é a favor do porte de armas. Vejam só: no país onde nossos jovens (pretos) estão morrendo em maioria absoluta pelas mãos do Estado, vamos armar a população (que não tem dinheiro para comprar comida) e sair por aí fazendo justiça com as próprias mãos.

A Bíblia que o ministro lê e tão diferente da minha. Na minha diz que Deus fará justiça e o critério para julgar os países será cuidar bem (muito bem) dos pobres, dos necessitados, dos vulneráveis, das viúvas - que aqui podemos entender como a imensa maioria de mulheres, que mesmo tendo companheiros, são o arrimo de suas casas. Dupla, tripla jornada para garantir o leite dos pequenos e que os grandes não sejam mortos...

O ministro, celebrado como sendo o primeiro evangélico que se torna membro da mais alta corte do país, não é o primeiro. Essa mentira é outra que que ele reforçou dentro do delírio e obsessão do presidente por escolher os evangélicos como peões do seu jogo de xadrez.

Já tivemos um ministro evangélico, isso no tempo que éramos chamados somente de crentes. Simples assim: crentes. Uma palavra bonita, pequena e significativa. Crentes no Cristo, crentes na vida, crentes na esperança, crentes no amor. E, no amor não há espaço para mortes, nem mentiras.

O Antônio Martins Vilas Boas, um crente batista, foi escolhido por unanimidade para ministro do STF, em 1957, indicado pelo presidente Juscelino Kubitscheck. Ele não era terrivelmente evangélico. Em 1957 os evangélicos (crentes) eram uma minoria no Brasil católico, cuja fé romana era oficial.

E a dentre as inúmeras lutas e causas pelas quais o ministro Antônio Martins Vilas Boas trabalhou, estava a defesa da laicidade do Estado. Era um crente dos bons. Sabia que um Estado não pode ser religioso. Que cada cidadão deve ter a sua fé, e que compete ao Estado defender esse direito humano: cada um acredita no que quiser, e deve ser protegido por isso. Uma fé não se impõe à outra fé.

Os outros crentes não celebraram a indicação de Antônio em cultos, em templos nababescos como fizeram com o André. Não trataram Antônio como um ungido para essa missão, de tornar o Brasil um país evangélico. Eu garanto por mim, e por muita gente crente como eu: não é isso que queremos. Longe disso. Queremos os valores do Reino de Deus na terra: paz como fruto da justiça, igualdade e reparação, liberdade individuais e direitos, sobretudo, o de todos os brasileiros tomar café da manhã, sair para o trabalho, almoçar e jantar. E no fim de semana ir para a igreja - se quiser. Ir para o terreiro - se quiser. Ser mulçumano, ateu ou adorar discos voadores.

O pastor, advogado e novo ministro disse que a vida dele é regida pela Bíblia. Mas, que no Supremo vai ter a Constituição como norteador. Outro jogo de palavras. Outra manobra nesse tabuleiro de xadrez em que o presidente acha que é o Rei. Ele só precisava dizer que a Constituição, a Constituição Cidadã de 1988, é o que ele irá defender. Inclusive restabelecendo uma democracia quebrada, fraturada, com o golpe na Dilma.

A sua fé, ministro, deve ser a sua consciência. Ah, se o senhor lesse a Bíblia com os olhos puros... Ia entender tanta coisa. Inclusive, que essa dicotomia é impossível. A fé é parte de nós. Ser crente batista é parte do que me forma. Não sou apenas isso: sou mulher, sou negra, sou mãe, sou casada, sou torcedora do Fluminense, quando escuto um samba quero me requebrar, sou jornalista, sou leitora de livros clássicos e contemporâneos. Gostei da escritora italiana Elena Ferrante (alguns dos meus amigos, não), amo a narrativa do Itamar Vieira em "Torto Arado". Isso tudo me forma. Sou a mistura de todos esses elementos. Como todo mundo. Sou dona da minha própria história e faço o que acredito. No caso de ser crente, que darei conta aos céus, pelo bem que eu deveria fazer, e não fiz.

O pastor André disse, celebrando a vitória de ocupar o cargo até a idade limite da aposentadoria compulsória, que os evangélicos nunca chegaram tão longe. Ai, doutor, quantas palavras erradas. Chegamos longe sim. Já estivemos no Supremo com Dr. Antônio Martins Vilas Boas, mais do que isso.

Construímos escolas nos rincões do Brasil. Ensinamos milhares e milhares a ler, pois nisso está o cerne de sermos herdeiros da Reforma Protestante. Construímos hospitais. Quando ainda não tinha o SUS, hospitais evangélicos em algumas cidades do Brasil era a única opção para os desvalidos.

Na luta histórica e mundial dos crentes está a batalha pelos direitos civis dos negros americanos. Temos Luther King, e temos muitos como ele, em trabalhos silenciosos ou silenciados, semeando a esperança em gente que secou. O sofrimento seca as pessoas por dentro. O senhor já conversou com alguma mãe que perdeu o filho de 15 anos, por bala perdida ou bala direcionada? Elas são ocas, doutor.

Que o senhor entenda isso, antes de determinar suas imensas sentenças. Tem gente oca, seca, vivendo com o olhar perdido, por que a força de suas canetas é maior do qualquer coisa de valor que, por acaso, possam ter.

* Nilza Valeria Zacarias é jornalista e coordenadora da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito.