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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Precisamos falar - e ouvir os homens falarem - sobre machismo

Tiago Iorc, que lançou a música "Masculinidade" - Rafael Trindade / Divulgação
Tiago Iorc, que lançou a música 'Masculinidade' Imagem: Rafael Trindade / Divulgação

Nana Queiroz

Colaboração para Universa

20/11/2021 04h00

Tiago Iorc lançou uma música e se descobriu no meio de um campo de batalha com inimigos adiante e na retaguarda. De um lado, o homem tradicional, temeroso de ver o seu lugar de todo-poderoso questionado pela fragilidade da letra de Tiago, responde com chacota. De outro, um exército de mulheres machucadas, que não querem ver os homens assumirem o holofote do espetáculo de suas feridas abertas, reagem com hostilidade.

Vim aqui falar dessas mulheres, que são a parte que me toca. Sua hostilidade parte de sentimentos justos e profundamente humanos. E todos sentimentos que precisam ser superados se quisermos olhar para o futuro —ou seguiremos secando gelo contra o machismo como temos feito nas últimas décadas. Porque podemos criar Lei Maria da Penha, Lei Carolina Dieckmann, botar cara que não paga pensão na cadeia, o que for. Mas todas essas políticas chegam tarde demais. Todas chegam às mulheres depois que já foram rejeitadas, feridas, violentadas.

A jornada de Tiago, não. A jornada de Tiago, do cara que olha pra si com coragem e reavalia seu papel de sujeito no meio da engrenagem da opressão, é o caminho da prevenção. É o caminho que ataca os homens na raiz do problema do machismo. E a dura verdade é que nós, mulheres, detestamos esse papo porque isso inclui reconhecer que nós também fazemos parte da Grande Fábrica de Homens Tóxicos que se tornou a nossa sociedade. Nós, mulheres, também somos vetores de propagação do machismo e outros tipos de opressão, principalmente sobre crianças e homens menos privilegiados do que nós.

Como parte da pesquisa para escrever o livro "Os meninos são a cura do machismo", eu entrevistei cerca de 600 homens sobre como eles entendem a masculinidade. O quadro que vi não foi muito diferente da letra da música de Tiago. A maioria desses homens se sentia impedida de ser quem era e sufocada pela noção atual de masculinidade. Mas quanto mais a fundo eu ia na pesquisa, mais eu descobria que os homens são violentos porque a sua criação é extremamente violenta.

É como disse Bell Hooks certa vez: as maiores vítimas do machismo não são as mulheres, são as crianças.

Esqueçam o homem por um minuto. Vamos pensar no menino. Quero você entrando em contato com um menino de 5 anos que foi obrigado pelo pai a assistir pornografia violenta —porque esta é a primeira idade em que muitos meninos passam por isso, a idade média é 11 anos. Na escola, ele apanhou dos colegas porque revelou que seu sonho, de verdade, era dançar. Chegou em casa, buscou o colo da mãe para chorar e recebeu frieza e sarcasmo: "homem não chora, deixe de ser maricas!".

Aos 12, o tio o levou a um prostíbulo e o forçou a transar com uma mulher de mais de 30 anos. Nervoso, ele não conseguiu "desempenhar" —e passou o resto da adolescência achando que tinha algo muito errado com ele. Seguiu à vida adulta amargando uma série de episódios de ejaculação precoce e disfunção erétil.

O sexo se tornou uma experiência horrível e tensa para ele mas, mesmo assim, ele era pressionado a dizer "sim" todas-as-vezes que uma mulher manifestava interesse. E tudo isso borbulhou e virou medo. Mas esse medo tão genuinamente humano —o medo de nunca ser amado— se tornou um segredo pesado, engasgado. Se falar disso, será humilhado.

Violências sexuais e emocionais

Eu não criei nenhuma ficção ali em cima. Essa é a história de grande parte dos 600 homens que partilharam suas vivências comigo. A infância dos meninos é um álbum de figurinhas de violências sexuais e emocionais. O resultado só podia ser um: a criação de gerações de indivíduos que normalizam essas violências e se insensibilizam para elas.

Mas crianças não podem elaborar tudo isso. Elas precisam que os adultos façam esse serviço por elas. E que os homens adultos pavimentem o caminho para que esses meninos compreendam que o que têm sido feito com eles não é normal e está errado. Elas precisam de músicas pra cantar sobre isso.

O caminho para a cura do machismo passa, sim, pela luta das mulheres e por discursos duros. É preciso que os homens transponham a fase da conscientização e cheguem à etapa da responsabilização. Quando eles assumem a bronca de arrumar a bagunça que fizeram. Não espero menos de um homem do que isso.

Mas nem eu nem mulher alguma tem a obrigação de, além da tripla jornada, assumir a responsabilidade extra de reeducar homens crescidos ou corrigir suas cagadas. Precisamos aprender a dividir a tarefa de combater o machismo com eles. Isso inclui deixar os homens falarem e cantarem sobre as feridas que o patriarcado lhes causou. E eles vão falar de dores que nos parecem, muitas vezes, menores que as nossas. Mas dor não se mede com régua. Dor é apenas dor. Nem maior, nem menor. E dor, se a gente quer mudar o mundo, a gente acolhe, não enterra —nem ridiculariza.

Você quer mais dos homens do que músicas sobre fragilidade? Eu também. Mas sem este primeiro passo, o outro, muito maior, nunca vai chegar. E você e eu continuaremos tendo Bolsonaro como presidente, seguiremos com medo de morrer cada vez que saímos num encontro novo e, se formos heterossexuais, nunca vamos nos livrar desse pavor profundo de nunca encontrar um parceiro que saiba nos enxergar como indivíduo e não objeto. Eu tô pronta pra trocar a medida protetiva por um cara que faça terapia e saiba me amar. E você?

Nana Queiroz é autora de "Os Meninos São a Cura do Machismo", "Presos que Menstruam" e "Eu, Travesti"