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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Dia internacional do homem: data é importante para repensar masculinidade

Dentre as várias justificativas para a data estão a necessidade de que homens passassem a ter mais atenção com a própria saúde - iStock
Dentre as várias justificativas para a data estão a necessidade de que homens passassem a ter mais atenção com a própria saúde Imagem: iStock

Fabio Mariano da Silva é bacharel e mestre em Direito e doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Pesquisador do grupo Inanna, que estuda teorias de gênero, sexualidades e diferenças, é co-autor, entre outros, do livro 'O Rosa, o Azul e as mil cores do arco-iris'. É professor na Educação Continuada da PUC-SP nos cursos 'O Estado e o Corpo' e 'Masculinidades Contemporâneas' e atualmente participa do Master em Masculinidades pela Universidad de Castilla, Espanha.

Colaboração para o UOL

19/11/2021 04h00

O Dia Internacional do Homem é comemorado no dia 19 de novembro. Sim, esta data existe e no Brasil, em geral, é incorporada a alguns calendários no dia 15 de julho. De todo modo, do ponto de vista mundial, é hoje que se celebra a data.

Vale lembrar logo de início que, ao contrário do dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, que surgiu como um dia de luta, o Dia Internacional do Homem surgiu por uma iniciativa do governo de Mikhail Gorbachev que buscou homenagear figuras importantes da história do seu país e logo foi se incorporando ao calendário de outros países, como Trinidad e Tobago, fundando o International Man Day .

Dentre as várias justificativas estão a necessidade de que homens passassem a ter mais atenção em relação a própria saúde e também mais consciência sobre questões ligadas a igualdade e equidade de direitos entre homens e mulheres. A primeira hipótese é amplamente difundida em várias redes em detrimento da segunda.

No entanto, se é possível fazer uma ligação entre esses dois principais aspectos em que se relaciona saúde e direitos, começamos por lembrar que os homens em geral são reconhecidos pelo pouco cuidado que têm com a saúde. Uma das justificativas para isso refere-se a questões de acesso à educação e, por consequência, de condições financeiras para que pratique esse cuidado por desconhecimento. Sabemos que para além disso, há outros elementos, tanto que não podemos deixar de mencionar uma ampla relação com questões de classe e raça.

E sejamos sinceros, sabemos que a política do cuidado (ou a falta de) se estende também para outras esferas da vida, tais como o pouco cuidado também com a paternidade, a responsabilidade afetiva, com as relações de mercado de consumo, com o meio ambiente, economia, cultura e por aí vai. Ainda que possa falar sobre isso, poderíamos tratar dessas questões em outras oportunidades.

Retomo o foco em relação a essa data específica para lembrar também que não é à toa que no mês de novembro, ao incluir o Dia Internacional do Homem, se chama a atenção para a campanha Novembro Azul que tem como principal mote os cuidados com a próstata e as doenças relacionadas a esse órgão.

É bem verdade que num país onde o câncer de próstata é o segundo com maior mortalidade entre os homens, é necessário que se chame a atenção para esses cuidados. Em 2020 foram 65.840 novos casos, representando o percentual aproximado de 29,2% dos tumores incidentes em pessoas do sexo masculino e mulheres trans e travestis. Sim, respondendo à sua possível questão: mulheres trans e travestis também tem próstata e são vitimadas por essa doença que faz com que necessitem de cuidados médicos e políticas de cuidado voltadas à sua saúde de maneira integral.

Aqui, várias perguntas me vêm à cabeça: Como cuidar da saúde quando os homens não são estimulados ao cuidado de si? Uma campanha no mês de novembro daria conta da falta de políticas públicas para que os homens passassem a ter mais atenção com a saúde integral ? É possível falar em equidade quando se fala em campanhas em separado, por exemplo, para o câncer de mama ? Os dados contemplam mulheres trans e travestis ?

Sempre gosto de lembrar que ao lado de uma doença física há também uma doença social. Essa última se manifesta pela discriminação e preconceito de todas as ordens: racial, de gênero incluída aí identidade e orientação, de classe social, de território; ela se manifesta pela forma como lidamos com essas questões que estão em nossas sociedades estruturalmente. É o medo de se tornar menos homem, menos viril, que faz com que homens não busquem exames em tempo de tratamento e, por consequência, de melhores chances de recuperação. É o medo do diagnóstico de HIV/Aids que faz com que o não-monogâmico (não há questões morais aqui) não procure o serviço médico e continue a contaminar parceiras e parceiros (aqui há!).

É por causa de uma estrutura machista que os homens não lutam por direitos reprodutivos, pelo direito que as mulheres têm de decidir sobre seus corpos, por uma reformulação da divisão do trabalho. Tudo isso por que vivemos numa sociedade que o homem, tomado como a medida do todo, sempre foi considerado acima de tudo e de todos, portanto, o corpo perfeito, o mais forte, o imbatível, para citar alguns exemplos. É a partir daí também que devemos pensar como dar um passo para que essa data se amplie e inflexione os homens a pensar de maneira diversa. Criar oportunidades em que só os homens estejam inseridos não ajudará a melhorar as condições de saúde e, sobretudo, de vida.

Se me perguntarem se a data é importante eu direi que sim, desde que esse conjunto de reflexões venha acompanhado de iniciativas que levem os homens a se cuidarem e, ao criarem condições, que não seja somente para si mesmos, mas para que todos, todas e todes possam buscar sua cidadania nas políticas do Estado. Ao melhorar essa relação é possível que se reverta qualitativamente os números de morte pelo câncer, mas também os dados de violência que afetam todos os dias mulheres, negros, lgbts, pcds.

Alguns homens têm dados passos nesse sentido ao se reunirem em grupos - as chamadas rodas de masculinidade - em que possam discutir questões relacionadas a sua subjetividade e saúde numa atitude antipatriarcal, mas eu sei que podemos mais. Por isso considero importante o alerta de que os homens não devem fazer isso sozinhos, é preciso que se incorporem, se engajem, se desloquem para as demandas que os movimentos de mulheres, isso, as feministas! vêm fazendo desde sempre na busca por equidade de gênero e de direitos. Do contrário, corremos o risco de que esse seja mais um dia esvaziado de significado e de perpetuação de privilégios.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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