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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Vende-se tapa-decote na farmácia. E por que ainda precisamos dele?

Marca tem comunicação visual inspirada em estética "retrô", como desta imagem  - CSA-Printstock/Getty Images
Marca tem comunicação visual inspirada em estética "retrô", como desta imagem Imagem: CSA-Printstock/Getty Images
Nathália Geraldo

Nathália Geraldo

Nathália Geraldo é repórter de Universa, cobre Diversidade, Vidas Negras, Autoestima. Pós-graduada em Cultura, Educação e Relações étnico-raciais pela USP.

De Universa

27/08/2021 04h00

Ser dona do próprio corpo e respeitá-lo como ele é são valores que se conectam fundamentalmente à autoestima de muitas brasileiras. O que faz, então, com que vejamos nas prateleiras de uma farmácia produtos que ajudam a esconder ou disfarçar partes do corpo feminino vistas como "embaraçosas" ou que "atraem olhares fixos" e que, por isso, precisam ser cobertas?

Foi o que me perguntei ao conhecer a marca That Girl, que vende, em lojas virtuais e em pontos físicos, itens como "tapa-decote", "tapa-mamilo" de silicone para que a consumidora não tenha o "farol aceso" e protetor de axila para que a marca de suor não surja na roupa.

A pesquisa "What Women Want" (traduzindo, "O que as mulheres querem"), feita em 2019 pela empresa de dados e consultoria Kantar Brasil Insights, mostrou que 23% das entrevistadas acreditavam que a "autonomia corporal e sexual" é a segunda questão mais importante para compor a autoestima feminina, atrás da autonomia financeira. Nas redes sociais, o movimento de corpos reais endossa a ideia. Na quarentena, aliás, há quem esteja em um processo de descoberta do amor-próprio justamente porque o corpo está passando por mudanças. E naturalizando o que nem sempre foi visto como natural: pelos crescendo, cabelos ficando grisalhos, peso flutuando.

Há dez anos no mercado, no entanto, a That Girl mantém o discurso para quem dá importância à aparência de outra forma e, principalmente, quer se sentir segura e não expor tanto o corpo. Essa escolha é válida e legítima. Mas, se estamos lutando pela naturalização do corpo feminino, criticando o fato de as redes sociais se incomodarem tanto com mamilos femininos à mostra, qual é o objetivo de acessórios assim?

A linguagem da marca é "retrô". Da farmácia em que estive, no Centro do Rio de Janeiro, fui levada diretamente aos anos 1950; na embalagem do adesivo para mamilos, por exemplo, não só há a foto de uma jovem olhando para os próprios seios com o rosto assustado, como a de um senhor com uma lupa sob a legenda: "Evite olhares fixos no seu decote".

A That Girl se diz uma empresa de "SOS fashion". Precisamos de socorro que também seja uma forma de nos privar de vestir o decote que queremos? A discussão não se limita a uma mulher que comprou uma roupa com que se sente desconfortável. É sobre a cultura machista que se reforça a responsabilidade de protegermos nossos seios dos olhares masculinos para não nos sentirmos assediadas.

Não é só a That Girl que oferece esse tipo de solução, a propósito. Na internet, há tutoriais ensinando a modelar uma "gola fake" para as blusas, e outras marcas que vendem o acessório. Protetores para colocar na axila também são comuns no mercado de cuidado pessoal (e a marca também tem "versão masculina"). O tapa-mamilo tem suas fãs: nas avaliações das consumidoras, cumpre não só a função de proteger a região como virou acessório estratégico para usar com fantasias de Carnaval em que a pele aparece mais.

Mas, como toda solução que "previne" que sejamos alvo de situações inadequadas, como aconteceu há alguns anos com a calcinha "antiestupro", a noção de que a mulher é que deve se adaptar para se sentir mais confortável em seu dia a dia, evitando ser vítima de machismo, é algo a que devemos estar atentas.

Corremos o risco de voltar algumas casas na discussão sobre igualdade e respeito de gênero e de falhar na tentativa de chamar para a conversa os homens, que ainda estão presos no "fiu-fiu" e nas investidas desrespeitosas no mundo real e virtual.

O que diz a marca

Universa entrou em contato com a assessoria de imprensa da That Girl, que enviou uma nota de posicionamento. Leia abaixo, com edição para facilitar a compreensão.

"Há dez anos, a That Girl foi criada pela empresária Maria Fernanda Mamede, que trocou a carreira em administração e finanças, para empreender, uma tarefa bem árdua, principalmente para uma mulher no Brasil, como todos sabemos.

Desde o início, o objetivo foi mostrar as forças e as fragilidade do universo feminino, entendendo que, assim como Maria Fernanda, mulheres são seres reais e vulneráveis, inclusive sujeitas a situações desconfortáveis no dia a dia. Com 90% de funcionárias mulheres, a That Girl é uma empresa criada por uma mulher, comandada por uma mulher e feita por mulheres. Desde sempre, a empresa buscou o empoderamento e o enaltecimento da feminilidade fazendo com que a mulher se sinta bem com ela mesma através de soluções que levam em consideração suas características.

Sobre o comentário a "reproduzir a necessidade de a mulher ter que se proteger, como se a responsabilidade por ser assediada por homens fosse dela" [questão enviada por Universa] não condiz com nossa linha de raciocínio. Claro que a temos consciência de que a culpa nunca é da vítima. Porém, há mulheres que simplesmente não se sentem à vontade com os olhares, e o fato de ela usar ou não usar o tapa-decote não fará mudar a atitude de quem olha.

Mesmo que alguns dos produtos citados no artigo tenham sido criados durante a época de lançamento da empresa, há dez anos, em uma outra realidade, nunca na existência da That Girl tivemos qualquer repercussão negativa sobre nossa forma de comunicação.

Acreditamos que há muito ainda para se discutir no Brasil em relação ao papel da mulher, mas também entendemos que não há um único ponto de vista sobre diferentes aspectos. Tanto é que nossos produtos contêm mensagens como "pessoas são livres para usarem o que quiserem". O discurso feminista foi ampliado nos últimos três anos, o que é muito positivo para nos ajudar a rever os caminhos trilhados até aqui.

No entanto, há de se tomar cuidado para que o discurso feminista não ganhe a voz apenas por uma visão, um único lado, e, sim, como um todo. Acreditamos, por exemplo, que pontos positivos, como os levantados em nossos produtos como praticidade, adaptabilidade e flexibilidade, também poderiam ser elementos para um discurso mais otimista e complexo do nosso universo."

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