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OPINIÃO

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Feghali: Congresso terá que garantir condições de vida para órfãos da covid

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Jandira Feghali

Jandira Feghali

Jandira Feghali é médica, deputada federal pelo PCdoB e preside a Subcomissão Especial de Desenvolvimento do Complexo Econômico e Industrial em Saúde

Especial para Universa

01/08/2021 04h00

Nathanny da Silva tinha apenas 28 anos quando morreu de covid-19 sem nunca segurar as filhas gêmeas. A jovem do Guarujá (SP) precisou ser intubada logo após o parto e faleceu um mês depois por complicações da doença.

A história dessa família e dessas bebês prematuras foram atravessadas pelo coronavírus, que tirou a vida de mais de 554 mil pessoas apenas no Brasil. Porém essa mãe é parte de um grupo de risco que cresce: o de gestantes e puérperas mortas pela covid-19.

O país que amarga a média diária de 1.197 mortes, num momento em que muitas nações já começam a falar em período pós-pandemia, é ainda mais cruel com as mães. Sem coordenação nacional de enfrentamento da covid e com vacinação lenta, o Brasil ostenta hoje o aviltante título de campeão mundial em taxa de mortalidade da covid-19 entre grávidas e puérperas: 7,2%. Um percentual 2,5 vezes maior que a taxa nacional de acordo com dados do Observatório da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

E as mães negras têm duas vezes mais chances de morrer pela doença do que as brancas. A morte por covid-19 em nosso país tem cor, sexo e está grávida.

Cinco dias. Esse foi o tempo que Ana Karine, de 36 anos, aguardou antes de conseguir uma vaga na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) para tratamento de complicações graves do vírus em Natal (RN). Assim que conseguiu, a jovem precisou ser submetida a uma cesariana de emergência e morreu dias depois sem nunca ver o sorriso de sua recém-nascida.

Infelizmente, este não foi um caso raro. Uma em cada cinco mulheres desse grupo internadas com coronavírus não tiveram acesso a UTIs e cerca de 34% não foram intubadas, mostrou o Observatório Obstétrico Brasileiro COVID-19 (OOBr Covid-19).

A falta de acesso a UTIs e intubação afetou até um terço das gestantes e das puérperas que morreram durante a pandemia.

Por tudo isso, eu fui autora na Câmara do projeto que se transformou na Lei 14.152 que garante prioridade de acesso nas UTIs e autoriza a prorrogação da validade de prescrições médicas e pedidos de exames complementares e de diagnóstico, inclusive de forma eletrônica, durante toda a gestação, com o objetivo de proteger a saúde e a vida das mulheres e seus filhos neste período de pandemia.

A tragédia fora anunciada. Em meados de 2020, o virologista Robert Redfield, diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, já havia alertado que mulheres em situação gestacional corriam mais risco de desenvolver formas graves da covid, serem internadas em unidades de tratamento intensivo e de precisarem de ventiladores mecânicos.

A expectativa do contato pele a pele a seguir ao parto, da primeira amamentação, de sentir o cheiro, de ver e ser vista nos primeiros momentos de vida do bebê é roubada às mulheres vítimas da covid que não têm a sorte de conseguir leito e respirador. Cabe às sobreviventes a felicidade de não integrarem uma das estatísticas letais e crescentes do Brasil. Os danos psicológicos de todo esse processo ainda estão longe de serem quantificados.

De acordo com o Ministério da Saúde, o Brasil tem cerca de 3 milhões de puérperas e gestantes anualmente. Em todo o país apenas 10,7% das pessoas deste grupo foram vacinadas apesar de sua mortalidade ser maior do que a da população geral.

Somente no final de abril de 2021, quando já amargávamos, há tempo, a liderança mundial de mortes, a pasta as incluiu dentre as prioridades do Programa Nacional de Imunização. O Congresso precisou aprovar o Projeto de Lei 14.124/2021 para que lactantes também tenham esta possibilidade. Nesses casos, uma vacina protege duas vidas. A pauta, aprovada na Câmara e no Senado, ainda aguarda a sanção presidencial.

Depois de garantir vacina, trabalho remoto e assistência médica para grávidas durante a pandemia, o Congresso precisará fazer leis para que o Estado conceda condições para que os órfãos da covid se desenvolvam plenamente. Submerso em escândalos de corrupção envolvendo vacinas, o governo Bolsonaro é incapaz de proteger o povo e muito menos as mulheres ou os inúmeros órfãos que este governo gerou.

Legislar para essas mulheres-mães sempre foi fundamental e agora ganhou urgência. É imprescindível defender o fim imediato desse governo que interrompe futuros da forma mais cruel: provocando a morte de mães e deixando órfãos sem proteção. Que ninguém mais nos roube a chance de viver e cuidar dos nossos filhos.

Pelo direito à vida!

*Jandira Feghali é médica, deputada federal pelo PCdoB e preside a Subcomissão Especial de Desenvolvimento do Complexo Econômico e Industrial em Saúde