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OPINIÃO

'Baile de Favela' é trilha da prata na ginástica: abuso ou provocação?

A atleta brasileira Rebeca Andrade conquistou a medalha de prata na ginástica ao som de funk Imagem: Jonne Roriz/COB
Tamiris Coutinho

Especial para Universa

30/07/2021 04h00

Assim que a ginasta Rebeca Andrade, que levou a prata nas Olimpíadas na manhã de ontem (29), se apresentou ao som instrumental de "Baile de Favela", recebi mensagens de seguidores pedindo minha opinião sobre a letra interpretada pelo MC João, devido a sua possível associação a cultura do estupro, principalmente, em relação aos versos "vai sair com a x*ta ardendo" e "os menor preparado pra f*der com a x*ta dela" .

Então, resolvi analisar a música. Tenho 30 anos e lembro que meu primeiro contato com o funk foi numa festa de aniversário. Eu tinha cerca de 10 anos, estava gravando com minha mãe uma fita k7 e ouvi "Som de Preto". Toda festa que eu participava tinha funk, e isso foi fazendo parte da minha construção como funkeira.

Na faculdade, tive um contato mais profissional quando minha turma fez o evento 'Liberta, DJ!' com nomes importantíssimos do funk como DJ Malboro e MC Sabrina. E ouvir os relatos sobre os desafios e sucessos das pessoas que vivem do funk me levou a fazer minha monografia na UERJ sobre o tema.

Na interpretação de manifestações culturais como a música, é importante avaliar o subjetivo e o explícito, e vale aqui analisar o contexto social a que os atores estão inseridos, o local onde vivem, a linguagem que usam. Assistir ao videoclipe da música ajuda também a entender o que está sendo manifestado. É sempre bom olhar com outros olhos para fazer uma análise crítica mais profunda sobre aquilo que se está escutando.

[Em "Baile de Favela", quatro amigos chegam num carro à festa no meio da rua e dançam entre a multidão. Algumas mulheres abraçam o MC, e dançam ao seu redor].

Voltemos à música: logo nos primeiros versos de "Baile de Favela", a letra diz: "Que ela veio quente e hoje eu tô fervendo". Ou seja: se a pessoa está a fim de algo, o interlocutor está disponível.

E depois canta: "Quer desafiar, num tô entendendo". Aqui, levando em consideração o verso anterior em que demonstra que a mulher está querendo algo e os versos seguintes, é possível entender esse "desafiar" como se ela estivesse falando: "Quero ver você aguentar, vou te dar uma surra de b*c3t@, acabar com você".

Ao que responde: "vai sair com a x*ta ardendo". Essa expressão, da qual eu particularmente não gosto, pode, sim, remeter ao sexo sem lubrificação, que pode remeter ao sexo forçado e violento. No entanto, analisando os versos anteriores, a expressão pode ser entendida como: "Então vamos transar tanto que você vai ficar com a x*ta ardendo". Ou seja, há um diálogo de acordo entre os dois sobre o possível ato sexual.

No que diz respeito ao verso "os menor preparado pra f*der com a x*ta dela", em nenhum momento se diz que vão abusar, ou fazer algo sem consentimento, mas sim que caso haja uma oportunidade de transar eles estão prontos.

Além dos versos ligados à temática sexual, a música enfatiza, nos versos seguintes, diversas localidades e bailes de São Paulo, evidenciando a importância dos mesmos para a cultura funk, dessa forma, sendo uma música que carrega a representatividade das periferias e de seus moradores.

Inclusive, no trecho "casinhas é Baile de Favela", a palavra "casinhas" nada tem a ver com um possível quarto onde homens levam meninas para serem abusadas, mas sim um baile localizado na zona norte de São Paulo.

Vale ressaltar que a interpretação parte da análise dos versos explicitados pelo compositor, mas não sei a real intenção do mesmo, se ele pensou do mesmo jeito que eu. Mas a gente tem esses dois pontos de análise, que é a do sexo abusivo ou do sexo "acordado" no qual uma amiga, por exemplo, pode falar para a outra: "Ontem dei tanto pro boy que hoje estou até ardendo".

A gente tem, sim, que problematizar e criticar, afinal, estamos entranhados numa sociedade com ideologia patriarcal, e isso se reproduz em diversos segmentos, como na música, e o funk acaba reproduzindo versos machistas em algumas de suas canções.

*Tamiris Coutinho é autora de "Cai de boca no meu b*c3t@o: o funk como potência do empoderamento feminino". Idealizadora e Coordenadora de Comunicação do Coletivo Funk. Graduada em Relações Públicas pela UERJ, com formação em Música e Negócios pela PUC-RIO.

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