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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

'Por ser gorda, cresci ouvindo ofensas disfarçadas de conselhos'

Thais Carla, dançarina e ativista, quer garantir dignidade às pessoas gordas -- do discurso às políticas públicas - Acervo pessoal
Thais Carla, dançarina e ativista, quer garantir dignidade às pessoas gordas -- do discurso às políticas públicas Imagem: Acervo pessoal
Thais Carla

Thais Carla

Thais Carla é bailarina, coreógrafa, influenciadora digital e ativista contra a gordofobia.

Colaboração para o Universa

17/07/2021 04h00

Nunca tive problemas com a minha autoestima, mas não foi por falta de incentivo. Desde a minha infância, me considero a minha própria referência, justamente pela falta de representatividade no meu círculo social, nos programas de televisão, revistas e publicidade. Com o tempo, percebi como a gordofobia me acompanhou durante toda a vida, assim como acompanha todas as pessoas gordas. Com frequência, ouvi frases problemáticas e ofensivas disfarçadas de conselhos, mas capazes de destruir a autoestima de quem escuta.

Acredito que ninguém tenha a intenção de ser gordofóbico, mas a maioria das pessoas já foi em algum momento. Às vezes, reproduzimos certos termos de forma espontânea sem perceber o real significado deles.

Vamos começar pela expressão "gordice". Quantas vezes você já esbarrou com ela nas redes sociais? É muito utilizada em fotos que acompanham comidas calóricas, com excesso de açúcares. Ela é extremamente gordofóbica por associar pessoas gordas à ingestão de alimentos gordurosos, como se não fizessem escolhas de pratos saudáveis. A afirmação é equivocada, inclusive do ponto de vista científico. Enquanto afirma nas entrelinhas que a alimentação é o único motivo de uma pessoa ser gorda e a culpa por isso, sabemos diversas causas que influenciam no peso, como predisposição genética, alterações hormonais e distúrbios emocionais.

Outra expressão próxima é "pensamento gordo". Segue a mesma linha de raciocínio da anterior: reduz a pessoa gorda como aquela que só pensa em comer, além da conotação pejorativa, como se o pensamento de um gordo fosse algo negativo e limitado à comida.

Sou uma mulher gorda, dançarina, pratico exercícios físicos regularmente, cuido das minhas filhas em tempo integral, além de atuar constantemente na luta pela causa gorda. Ou seja, não me limito apenas em pensar em comida, assim como todas as pessoas gordas também não

Outra frase que incomoda é: "Você é linda de rosto". Aposto que todas as pessoas que não são consideradas magras já ouviram ao menos uma vez na vida. O grande problema é que, quando você afirma para uma mulher que ela é "linda de rosto", automaticamente está insinuando que o rosto é a única parte bonita de seu corpo. Obviamente, ela atinge diretamente a autoestima de uma pessoa que não tem uma boa relação com a autoimagem, mexe com saúde mental, além de negar a beleza dos corpos gordos.

Os elogios, muitas vezes, também se apresentam como congratulações quando alguém perde peso. Sinto muito incômodo em relação ao costume da sociedade de celebrar e ter a necessidade de elogiar quando alguém emagrece, como se ser magro fosse motivo de felicitação. Quando dito a pessoas com distúrbios alimentares, pode até validar transtornos alimentares, como bulimia e anorexia.

Por fim, uma das que considero entre as mais violentas. A defesa: "Mas só estou pensando na sua saúde". Sem dúvidas, é uma das expressões mais ouvidas por pessoas gordas, sempre usada para justificar gordofobia. Entretanto, quando analisamos as pessoas magras, não encontramos fiscalização sobre a saúde delas, ainda que tenham estilos de vida não saudáveis. Por que essa preocupação é tão voltada às pessoas gordas?

As frases que citei e questionamentos que fiz são partes de uma reflexão que proponho sobre o cuidado que precisamos ter em relação aos outros. Hoje, a minha luta vai além da quebra do padrão estético. Batalho pela conquista de direitos básicos, como assentos adequados nos ônibus e restaurantes, atendimento médico com macas e equipamentos apropriados. Mas também é de extrema importância que cada um, ativista ou não, percebe as próprias ações para zelar pelo bem-estar e a saúde mental do próximo.