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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

"Eu e meu filho somos autistas e hoje é dia de celebrar quem somos"

Jessica Borges e o filho Ravi, de 7 anos. Ela descobriu que era autista aos 28 anos, quando filho recebeu o mesmo diagnóstico - arquivo pessoal
Jessica Borges e o filho Ravi, de 7 anos. Ela descobriu que era autista aos 28 anos, quando filho recebeu o mesmo diagnóstico Imagem: arquivo pessoal
Jessica Borges

Jessica Borges

Profissional da inclusão, palestrante, ativista, diretora do Instituto Lagarta Vira Pupa e autista. Foi diagnosticada tardíamente, aos 28 anos e seu diagnóstico veio após o diagnóstico do seu filho Ravi, de 7 anos que também é autista.

Colaboração para Universa

18/06/2021 14h52

Hoje, dia 18 de Junho, é Dia do Orgulho Autista. A data foi criada por autistas que faziam parte de um grupo chamado "Aspies For Freedom" em 2005. Ao contrário do dia 2 de abril, Dia Mundial de Conscientização do Autismo, onde pais, familiares e profissionais podem expressar todo amor e carinho, a data de hoje é só nossa. Foi criada por nossa própria comunidade para podermos dizer o quanto temos orgulho de nós mesmos. Para que possamos celebrar quem somos.

Para chegar ao diagnóstico, há um processo. Quebra de padrão, quebra de preconceito, falta de acesso, informação e tantas coisas que ficamos sujeitos. Para conseguir o diagnóstico do meu filho, Ravi, hoje com 7 anos, fizemos uma peregrinação até ter oportunidade de encontrar um profissional capacitado.

Recebi o diagnóstico de autismo meu filho e meu ano passado. Por um tempo tive vergonha de falar que eu tinha conseguido um diagnóstico, justamente porque a realidade para muitos não é essa. Mas foi um divisor de águas na minha vida. Precisei quebrar diversas crenças, me encorajar, enfrentar o preconceito das pessoas e principalmente o meu. E tenho orgulho disso.

Para além de todas as barreiras que enfrentamos em busca de respostas, ainda precisamos lidar com a falta de aparato do estado, falta de políticas públicas, profissionais que não têm formação alguma atuando na área e que podem, muitas vezes, colocar a nossa vida em risco. Infelizmente, o número de pessoas que têm acesso ainda é mínimo, pra não dizer vergonhoso, e com mulheres a taxa de negligência é desproporcional.

Nem todas as pessoas conseguem ter orgulho de quem são, é isso se dá por diversas narrativas e contextos. Diariamente questionamos nossa própria identidade. A verdade é que a sociedade também não foi educada para respeitar quem é diferente e isso impacta socialmente em nossa vida e autoestima. Então se orgulhar e se amar muitas vezes pode ser uma tarefa desafiadora frente a tantas questões que nos atravessam enquanto pessoas com deficiência.

O Dia do Orgulho Autista foi criado para celebrar nossa existência. Não é sobre todas as dificuldades que enfrentamos. Também não é sobre romantizar todo o esforço exaustivo que passamos. Mas sim, sobre poder dizer que somos orgulhosos de nossa trajetória e que nossa diversidade é o que também compõe a sociedade.

Se aceitar e ter orgulho de quem se é, faz com a que a gente não se esconda e nem tenha vergonha de mostrar nossa essência. Mesmo vivendo numa sociedade onde insistem em dizer que precisamos de conserto.

E meu desejo hoje é que todos os autistas tenham acesso ao diagnóstico, profissionais de qualidade, ensino público com equidade. Que autistas suporte 2 e 3, não oralizados possam também contar suas histórias, da forma que quiserem. Que autistas pretos e indígenas parem de ser marginalizados, e que possamos ser orgulhosos de nossas existências. Mesmo quando o mundo nos diz o contrário. Que possamos ser ouvidos, compreendidos e sobretudo, respeitados.

* Jéssica Borges é ativista, diretora do Instituto Lagarta Vira Pupa e autista. Foi diagnosticada tardiamente, aos 28 anos, e seu diagnóstico veio após o diagnóstico do seu filho Ravi, de 7 anos que também é autista.