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OPINIÃO

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Motociata de Bolsonaro aconteceu no Dia dos Namorados, mas sem namoradas

Jair Bolsonaro (sem partido) na motociata em SP  - Pedro Ladeira/Folhapress
Jair Bolsonaro (sem partido) na motociata em SP Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress
Lilia Moritz Schwarcz

Lilia Moritz Schwarcz

*Lilia Moritz Schwarcz é antropóloga, historiadora, professora da USP (Universidade de São Paulo) e de Princeton e curadora-adjunta para histórias e narrativas do Masp (Museu de Arte de São Paulo); é autora, com Flávio dos Santos Gomes e Jaime Lauriano, do recém-lançado "Enciclopédia Negra: Biografias Afro-Brasileiras" (ed. Companhia das Letras)

Especial para Universa

15/06/2021 15h15

Aconteceu muita coisa estranha na motociata do sábado passado, Dia dos Namorados. Convocada pelo governo Bolsonaro, ela ocorreu no dia 12 de junho como uma forma de reação à manifestação do dia 29 de maio, organizada pela oposição na avenida Paulista.

Chama atenção, em primeiro lugar, a seleção de classe contida num evento como esse: apenas pessoas motorizadas puderam acompanhar a manifestação, o que já indica uma certa prevalência econômica.

Por sinal, o presidente do sindicato dos motoboys e entregadores de aplicativo, Gilberto Almeida, o Gil, reclamou do desfile de motos dizendo que o presidente não pensa na categoria, negligencia vacinação e política de combustíveis. Denunciou, ainda, que a manifestação pró-governo não contou com a participação da categoria e foi composta principalmente por membros de clubes de motociclistas, com veículos de alto valor e usados principalmente para lazer.

Para terminar, afirmou que não existiam motivos para os motoboys comemorarem. Semanas antes do evento, o Ministério da Saúde recusou pedido do SindimotoSP de colocar a categoria entre os grupos prioritários do Plano Nacional de Imunização.

Mas as diferenças não eram apenas de classe. Chamou igualmente atenção a homogeneidade de sexo/ gênero, raça e geração. Para começar: havia muito poucas 'namoradas' participando. Pelo jeito, os 'namorados' acharam melhor seguir o seu líder maior e deixá-las sozinhas num sábado de sol.

Foram milhares de pessoas que percorreram ruas de São Paulo e um trecho da Rodovia dos Bandeirantes, com direito a discurso na frente do Monumento às Bandeiras, no Ibirapuera; justamente, um patrimônio que vem sendo contestado por conta do papel desses personagens na história do Brasil. Mais do que "estender fronteiras", eles aprisionaram indígenas e escravizados, e compuseram exércitos mercenários.

Nada combinava mais com a multidão, vestida de preto, ostentando jaquetas da mesma cor e um linguajar de corpo viril, do que essa estátua onde se destacam homens portugueses (em seus cavalos), indígenas e negros (andando a pé) — num desfile de gênero, desigual e hierarquizado.

Era fácil notar, através das fotos e vídeos, como a maioria dos participantes eram homens na faixa dos 40 anos, e brancos. Mulheres, apenas nas garupas dos maridos e namorados. A própria deputada bolsonarista, Carla Zambelli (PSL-SP), compareceu na garupa do esposo.

No vídeo que divulgou nas suas redes sociais, ela diz: "Estamos aqui esperando a linha andar". O marido a interrompe deixando claro que é ele o "piloto". Meio sem jeito, Zambelli retoma a fala para explicar que essa era uma "Motociata por Jesus" e "cristã pela liberdade, pelo direito de ir e vir".

Como a realidade é feita de símbolos, vamos lá analisar alguns. Em primeiro lugar, impressiona como não se tratava de uma manifestação laica; ela era religiosa e de um só credo: aquele do presidente e de seus seguidores.

Impressiona também o claro sequestro de conceitos: liberdade nesse caso é o direito de contaminar o outro; fazer com que a liberdade individual seja maior do que a liberdade cidadã de pensar na coletividade diante de uma pandemia que já matou 488 mil brasileiras e brasileiros. E detalhe, nada passageiro: todas as pessoas estavam basicamente sem máscara.

Liberdade para o quê, mesmo?

Motocicletas possantes são veículos que durante muito tempo ficaram exclusivamente associadas a homens, brancos que, por meio delas, desfilavam sua virilidade. Mussolini gostava de se expor ao "seu povo", sempre de moto, e o regime nazista fazia parada com os soldados arianos perfilados de modo a destacar a suástica nazista nos braços musculosos, os uniformes em tons de cinza, a masculinidade militar com suas botas, e, por fim, as motos; fiéis companheiras dos rapazes indomáveis.

exército alemão segunda guerra - Reprodução - Reprodução
Soldados motorizados do Exército alemão em frente ao portão de Brandemburgo, em Berlim, na 2ª Guerra Mundial
Imagem: Reprodução

Ao fundo da foto ao lado se sobressai o portão de Brandemburgo, no centro de Berlim, a mais antiga entrada da cidade, reconstruída no final do século 18 como um dos marcos mais conhecidos do país. Mais uma vez, a história serve como justificativa. No Brasil, através dos bandeirantes, e na Alemanha, por meio do símbolo do portão com seus cavalos, para justificar o presente e lhe dar ares de eternidade.

Coincidências históricas não são apenas coincidências. Designam intenções e retóricas do poder; nesse caso, regimes autoritários que preferem o discurso da ordem e da hierarquia aos princípios democráticos e pautados na horizontalidade de direitos.

Mas as especificidades da motociata continuam. Em reportagem de Fabio Castanho e Anahi Martinho publicada no UOL, algumas mulheres presentes foram entrevistadas, como uma cabeleireira de Rondônia que foi apoiar o presidente, ao lado do marido, mesmo sem ter conseguido alugar uma moto.

Outra, já nos seus 50 anos, vinda da zona leste de SP, xingava Lula, dizia que Bolsonaro "era lindo" e explicava que se juntara ao movimento com o objetivo de pegar uma carona com os motoqueiros. Todavia, como não estava de capacete, a paquera na manifestação não rolou. Um casal a menos no Dia dos Namorados. Uma outra moça compareceu com moto própria; era um triciclo todo decorado com bonecas, morcegos e caveiras. Contou que votou em Bolsonaro em 2018, mas que não o faria de novo; só estava lá por causa do "rolê das motos".

De toda maneira, o fato de podermos nomear algumas das poucas mulheres participantes, já revela como elas eram exceções que, nesse caso, não confirmavam a regra.

O próprio Bolsonaro não levou sua mulher, Michelle. Ladeado por seus simpatizantes, que adoram chamá-lo de "mito" e não de presidente, protagonizou a motociata com sua jaqueta de couro, capacete branco com a bandeira do Brasil, luvas pretas, veículo possante e igualmente escuro. Passeios de moto são muito geralmente formas de lazer masculinas. Brilhantes, com suas curvas, o barulho da velocidade, tudo alude ao modelo do macho, que não teme a rapidez, o perigo e o desafio.

O presidente também associou a manifestação à sua igreja e citou trecho da Bíblia: "Se te mostrares frouxo no dia da angústia, a tua força será pequena". E completou: "Não tem ninguém frouxo aqui, tá ok?".

Como se vê, tudo alude ao modelo masculino, misógino, que não usa máscaras para "não parecer maricas", que desafia o isolamento pois "ninguém os segura", e prefere remédio ineficaz a tomar vacina "no bracinho".

Pobre da Michele; ficou sem celebração de Dia dos Namorados. Mas como diz o ditado: "antes só do que mal acompanhada".

*Lilia Moritz Schwarcz é antropóloga, historiadora, professora da USP (Universidade de São Paulo) e de Princeton e curadora-adjunta para histórias e narrativas do Masp (Museu de Arte de São Paulo); é autora, com Flávio dos Santos Gomes e Jaime Lauriano, do recém-lançado "Enciclopédia Negra: Biografias Afro-Brasileiras" (ed. Companhia das Letras)