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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Marca traz representatividade, mas "papo reto" sobre cabelo liso faz curva

Campanha da Salon Line: "Meu cabelo é liso e o papo é reto", com Vanessa Ferreira - Divulgação/Daniel Klajmic
Campanha da Salon Line: "Meu cabelo é liso e o papo é reto", com Vanessa Ferreira Imagem: Divulgação/Daniel Klajmic
Mariana Almeida

Mariana Almeida

Geógrafa e pesquisadora sobre os Estudos sobre a Mulher, Gênero, Sexualidade e Relações Raciais. Criadora de Conteúdo através do perfil @falacomamari no Instagram. Estuda e trabalha há 8 anos com temáticas acerca das relações de poder que envolvem as questões de gênero, sexualidade e relações raciais - através de palestras, mesas, oficinas e grupos de estudos.

Colaboração para Universa

29/04/2021 04h00

Eu costumo dizer que o meu cabelo é reflexo da minha personalidade: ele é fácil, difícil, espaçoso e versátil. Eu amo o meu cabelo, cada voltinha que ele dá, mas nem sempre foi assim. A minha infância e adolescência foram marcadas pelo ódio que sentia por ele.

Não nasci com esse sentimento — ele foi enfiado goela abaixo. Me disseram e ensinaram que eu não era boa, bonita, importante ou suficiente. Disseram que o meu cabelo tinha "informação demais", que era feio, duro e desagradável. Falaram que eu precisava domá-lo, diminuir o volume, esticar, alisar... Lembro, como se fosse ontem, todas as vezes que eu chorei enquanto me arrumava para ir a escola ou quando voltava dela.

Lembro das vezes que colaram chiclete, cortaram, puxaram, zoaram. Ouvi que o meu cabelo era sujo e que fedia; que nenhum garoto ia me querer desse jeito

Meus pais não tinham dinheiro para alisamento ou para comprar uma prancha. Então, uma vez, uma vizinha disse que faria uma "escova" em mim para que eu visse como ficaria bonita com o meu cabelo liso. Senti "felicidade" na hora.

Enquanto ela fazia o meu cabelo, devido à falta de experiência, acabava queimando a minha orelha por encostar a prancha. Eu engolia e disfarçava o choro de dor, porque não queria que ela parasse. Saí da casa dela com a orelha toda queimada.

Ao ver as bolhas, a minha mãe ficou assustada, mas eu... Eu não me importava com a dor! Corri para a frente do espelho e disse a frase que hoje ecoa na minha cabeça: "Mãe, eu tô realizada!". Eu tinha 11 anos!

Dormi ansiosa pelo dia seguinte, afinal, mostraria na escola que eu estava diferente, que eu estava bonita. Só queria saber como é me sentir bonita. Acordei e vi que algumas ondas começavam a aparecer. Eu tinha desistido do meu cabelo natural, mas ele ainda insistia em mim.

Quando cheguei no colégio, descobri algo que eu nunca mais esqueceria: eu nunca seria como elas! Por mais que eu me esforçasse, nunca teria um cabelo liso. No máximo alisado ou "esticado".

Disseram para mim: 'você está até parecendo gente, mas, se chover, encolhe!'. O cabelo alisado nunca será como o cabelo liso

Tive que lavar e voltar para o pesadelo de sempre. Da minha maneira, tentava melhorar a imagem que eu via refletida no espelho. Sempre que podia, molhava o cabelo, pois mantê-lo úmido garantia que nenhum fio sairia do lugar. Eu mantinha preso com a ajuda de uma presilha.

O hábito trouxe alguns problemas para o meu couro cabeludo e para o meu cabelo, já que vivia molhado e abafado. Lembro ainda de esticar a parte da frente com um ferro de passar roupa na tentativa de ter uma franja lisa.

Em um desses dias, disseram em sala de aula que eu tinha feito henê (um tipo de alisante com tinta) e eu, com vergonha, corri para lavar o cabelo na pia do banheiro. O cabelo estava queimado e ficou com um cheiro ruim ao molhar - o que virou um motivo de zoação e choro.

Os anos foram passando e, aos 14, eu finalmente alisei com química. O olho ardia, a garganta parecia fechar, o couro cabeludo pegava fogo. O formol provocava sensações horríveis. Mas para mim valia a pena! Foram 7 anos despejando produtos no cabelo e submetendo os fios aos mais agressivos tipos de "tratamento". Até que ele não aguentou mais.

No meu último alisamento, fiquei com a cabeça tomada por feridas, que sangravam e soltavam água. Eu tinha 21 anos e, pela primeira, vez chorei de cansaço. Estava exausta. Eu desisti! Desisti de tentar ser bonita, boa, suficiente ou importante para as pessoas.

Era uma missão impossível. Era difícil, cansativo e, acima de tudo, doloroso. Doía! Doía fisicamente, emocionalmente, psicologicamente.

Me pergunto: quantas mulheres de cabelo liso já se sentiram assim? Como as pessoas que me diminuíam se sentiam sobre os seus cabelos? Como elas se sentiam a respeito do meu eu sempre soube.

Comecei a minha transição capilar e não tive apoio, nem incentivo. Senti vergonha, medo, culpa de quem eu era e de quem estava tentando voltar a ser. Nessa época, me encontrei nas Youtubers que relatavam as suas experiências durante a transição e davam dicas de como atravessar esse período. Era o apoio que eu tanto precisava.

Ainda assim, tive sorte. O meu cabelo é cacheado e mulheres com o cabelo crespo seguiram por muito tempo sem serem vistas, representadas. O que servia para mim não servia para elas! O cabelo cacheado se aproxima do liso, de uma ideia de "padrão". Mas e o crespo?

Milhares de campanhas de valorização do cabelo cacheado e crespo surgiram. A variedade de produtos, linhas e marcas que pareciam acreditar na importância da diversidade. Me recordo de ouvir na época que "agora esse cabelo está na moda" - e rebatíamos a todo momento esse tipo de comentário. Não era moda, não é moda. Mas começou a ser rentável. Começaram a nos enxergar como potenciais compradores e aí a coisa mudou de figura.

É por isso que ver uma campanha que traz como mensagem central o "empoderamento liso", lançada essa semana nas redes sociais, desenterra lembranças e sentimentos da minha história e da história de tantas outras pessoas crespas e cacheadas. É automático. Lembranças sobre a forma como o outro nos olhou e nos olha, bem como a forma que esse olhar distorceu o nosso sobre nós mesmos - injetar em alguém o ódio por si mesmo é algo perigoso e cruel. O combate contra tudo isso é processo longo e doloroso.

Não se trata apenas da Salon Line ou desta campanha especificamente, mas de quem continua pensando a diversidade para as campanhas de um modo geral. Quem são essas pessoas? De que lugar elas falam? Estão dispostas a ouvir?

É possível construir uma campanha incrível para cabelos lisos em que a diversidade esteja presente, como esteve nessa ao colocar em posição uma mulher indígena com protagonismo. Que marco! Só que essa campanha também não pode ignorar a história ou distorcer a realidade. O cabelo liso, ao contrário do cabelo crespo e cacheado, nunca foi estigmatizado. O papo pode ser reto, mas sem esquecer que ele também faz curva.