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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Maternidade trans: quantas famílias transafetivas você conhece?

Alexya com os filhos e marido Roberto, com quem está desde 2009 - Isadora Brant/BBC Brasil
Alexya com os filhos e marido Roberto, com quem está desde 2009 Imagem: Isadora Brant/BBC Brasil
Giovanna Heliodoro

Giovanna Heliodoro

Giovanna Heliodoro é historiadora, afrotransfeminista e produtora do Festival TransViva! Integra a ONG EQUI articulando ac?o?es acerca da inclusa?o de diversidade no mercado de trabalho. E? produtora de conteu?do do perfil @transpreta e autora do livro "Rai?zes - Resiste?ncia Histo?rica".

Colaboração para Universa

28/04/2021 04h00

O Dia das Mães é uma data marcante para muitos brasileiros. É um momento propício para compartilhar afeto entre familiares e celebrar a maternidade das suas mais diversas formas possíveis. Entretanto, essa comemoração é lembrada ainda pela maioria da população trans e travesti como um gatilho de ausência e invisibilidade.

A vivência de pessoas trans se baseia em inúmeros processos de exclusão social que se iniciam dentro dos grupos familiares, perpassam pelas escolas, chegam ao mercado de trabalho e consequentemente resultam na expulsão de casa. Porém, diante de tantos desafios, ressignificar o sentido de família se faz necessário e hoje quero te apresentar histórias como a da indiana Manisha e da brasileira Alexya Salvador. Ambas são mulheres trans capazes de nos ensinar muito sobre o quanto a experiência da maternidade pode ser plural.

Manisha ao lado de cinco de seus filhos (Foto: Arquivo pessoal) - Reprodução / Internet - Reprodução / Internet
Manisha ao lado de cinco de seus filhos (Foto: Arquivo pessoal)
Imagem: Reprodução / Internet

Manisha se assumiu enquanto trans ainda na infância, aos seus 5 anos disse ter sido abandonada na rua pelos seus pais que repudiavam a sua diversidade diante das outras crianças. Durante anos ela viveu em situação de precariedade comendo os restos que encontrava nas ruas da Índia e mais tarde passou a trocar serviços domésticos por alimentos.

"Foi uma vida sem amor, apenas sofrendo. Depois que tive febre alta e estava com muita fome, disseram-me que eu poderia comer um pouco se limpasse a casa inteira. Às vezes, eu dormia ao ar livre. Eu nunca sabia quando iria comer alguma coisa ", diz ela em uma entrevista ao jornal britânico The Guardian.

Lembrar da sua infância ainda gera tristeza a Manisha, mas ao longo de tantas recordações passadas ela reescreveu sua história e mudou seu presente. Hoje, aos 35, é uma mãe que vivenciou a negação de seus pais, acolheu 8 crianças abandonadas e agora cuida de 6 delas, como as demais já se casaram e saíram da casa.

Assim como na Índia, a realidade de pessoas trans e travestis aqui no Brasil também é muito problemática. Afinal somos considerados o país que mais assassina essa população em todo mundo. No entanto, me recuso a falar de estatísticas de vida para exaltarmos a existência de Alexya Salvador.

Recentemente a reverenda e professora Alexya ganhou mais uma vez espaço na mídia por nos ensinar como transformar sua dor em afeto. Casada há aproximadamente 12 anos com Roberto Salvador, ambos se prepararam por mais de sete anos até entrarem na fila de adoção.

Nutrindo o desejo de construir uma família, Alexya se tornou então a primeira travesti a adotar no Brasil e é hoje a mãe de duas meninas trans e uma criança com deficiência.

"Nós somos uma família como qualquer outra: a gente dá amor, educa, coloca no cantinho da reflexão quando um deles faz alguma coisa errada. Mas carregamos essa bandeira de ser uma família transfetiva", ela contou em depoimento na seção Minha História aqui de Universa.

Neste Dia das Mães que se aproxima escrevi aqui para lhe lembrar que novas configurações de família e maternidade são possíveis. Em tempos onde o Projeto de Lei 504 define pessoas LGBTQIA+ como má influência, se faz necessário reafirmar que não somos influências negativas para crianças. Já a convivência com pessoas preconceituosas e rígidas cumprindo o papel de gênero, pode sim ser muito prejudicial à infância. Conviver com a diversidade, em qualquer nível, é necessário, é saudável e promove a inclusão social, com expansão de consciência e a abertura para novas formas de pensar o que é ser mãe.

* Giovanna Heliodoro é historiadora, afrotransfeminista e produtora do Festival TransViva! Integra a ONG EQUI articulando ações acerca da inclusão de diversidade no mercado de trabalho. E? produtora de conteúdo do perfil @transpreta e autora do livro "Raízes - Resistência Histórica".